quinta-feira, 26 de maio de 2011

O pôr-do-sol



























Você já parou para pensar em quantas vezes você teve a chance de ver o sol se pôr nessa semana? No mês? No ano? Na sua vida? Se a resposta for “ah, eu não me lembro”, você estará enganando a si mesmo, mentindo. Nunca uma imagem tão bela passa despercebida, mesmo por nós, que já ligamos a memória no Automático, e só gravamos o que o mundo nos empurra diariamente: casos de violência, políticos corruptos, descrença na vida e nas pessoas, etc. Mal conseguimos fazer o que as 24 horas do dia nos impõem, quanto mais pararmos, no fim da tarde, para nos despedirmos de um astro que todos os dias estará ali, no mesmo lugar.

Mania idiota essa de achar que as coisas especiais estão, necessariamente, ligadas a raridades ou casos fortuitos. Esse reducionismo de nós mesmos acaba nos privando da indispensável dose diária de alegria, aquela que muitas vezes esquecemos na mesa de cabeceira, enquanto só lembramos de colocar na bolsa os moderadores de apetite. O ser humano esquece do trivial, de ser simples, de viver a simplicidade com a humildade de um menino que joga bola na rua, ou da menina que brinca com suas bonecas. Crescemos rápido demais.

E deixamos pelo caminho vários pequenos hábitos, tão importantes e tão banais. A importância fica de lado, infelizmente. Parece que as pessoas preferem se machucar, se jogar no olho do furacão, seja qual for o motivo, e pagar o alto preço por isso. Amarguras cotidianas, acumuladas, garrafas que se enchem e, ao menos impacto, se transformam em bombas atômicas de desaforos e desatinos. Decepções que não sabemos encarar, decisões mais difíceis do que realmente são... Nossos olhos também são vítimas freqüentes da nossa ignorância.

Sangue na primeira página. O espetáculo da tragédia humana, exposto para quem quiser ver. Deputados sem o pingo de vergonha, que roubam e saem pela porta da frente. Hipocrisia, falsidade, moralismo tosco, sem origem, nem final. Ideias tortas guiando um mundo sem leis. Tudo isso nos cerca, nos sufoca. Mas, será que nós temos saída, nem que seja um espacinho curto, onde entre ar suficiente para nos manter vivo por mais um dia?

Olhe para cima, caro amigo. No fim do expediente, no fim de uma tarde tensa, tente olhar para cima. Arrume tempo para esquecer o tempo, e pensar apenas em não pensar. Ver. Contemplar. Aproveitar o que a natureza te dá TODOS OS DIAS, de graça, e que tem valor inestimável em qualquer moeda que o homem tenha manipulado um dia. Se, por acaso, você puder estar com alguém querido, ótimo. Se não, pouco importa. Ali será só você e ele, o sol, acenando e dizendo o seu “boa noite”. Pode não ser tão fácil, mas tente mesmo assim.

Não, por favor, não pense que este texto foi concebido como manual de auto-ajuda, ou algo do tipo. Se assim serviu, que seja. A minha idéia é apenas dividir com vocês uma experiência que pode ser sua, também. Em meio a tanta barbárie, tantas guerras, tanta perda de humanidade, não custaria gastar os mais longos minutos do seu dia olhando. Apenas olhando. Dê esse momento de presente à sua memória, tão maltratada. Se dê a chance de responder a pergunta que fiz no início deste texto. Não é preciso muita coisa. Apenas abra a sua janela. 

Foto: Gustavo Ferreira (JUL/2009)

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