sexta-feira, 20 de maio de 2011

302




Lipe, um menino de 14 anos, único filho de um casal de médicos renomados na cidade, estudava na escola mais badalada, tinha o que todo menino, um dia, sonha em ter. Morava em uma mansão, templo da megalomania desvairada de seus pais, que se preocupavam mais em mostrar algo aos outros do que simplesmente enxergar. Uma mansão, tão grande quanto a solidão daquele menino, que cresceu nos cantos, que viveu à margem da vida. Dinheiro, fama, nada disso era o que ele precisava. Lipe só queria ser um menino como outro qualquer.

Bernardo, um menino de 14 anos, o mais velho de três irmãos, todos homens, seus parceiros de diversão, dos times de pelada, das primeiras piadinhas sobre virgindade. Não tinha pais, mortos há uma década, mas tinham muito conforto, já que era futuro herdeiro de um império do comércio. Morava em uma mansão, com piscina, sauna, campo de futebol e muita ostentação. Bonito, era o centro das atenções no seu colégio, o mais badalado da cidade, e não fazia o mínimo esforço para esboçar humildade. Não era de seu feitio. Dinheiro, fama, Bernardo tinha tudo o que precisava. Mas não bastava. Ele precisava aparecer, nem que para isso, outras pessoas fossem usadas de escada.
Sua vítima preferida era Lipe. Como o pequeno Lipe sofria, sempre com as mesmas piadas de Bernardo e sua “galera”. Era sempre o “gordinho”, o “estranho”, o “ET”... Bernardo não conseguia passar um dia sem humilhar alguém na escola, mas com Lipe era diferente. Ele era diferente, para ele Bernardo guardava os xingamentos mais elaborados, as gargalhadas mais intensas, as palavras mais cortantes. Diversão garantida para Bernardo, dor sem fim para Lipe.

O garoto não sofria apenas as agressões de Bernardo. Antes fosse. Toda a escola lhe olhava de cima a baixo, desprezando-o, impedindo-o de ter um amigo, como todos ali tinham. Lipe queria tanto sorrir, conversar, brincar como um garoto qualquer! Nos trabalhos, sempre solitário, a não ser que o professor “obrigasse” alguém a lhe fazer companhia. O caminho de casa era marcado por um sofrimento que, mesmo cotidiano, não deixava de doer.

E a quem Lipe podia recorrer, então? Não tinha amigos, nem colegas, nem família. Seus pais, ah, os seus nobres pais, sempre ocupados demais para perder tempo com probleminhas de colégio. Seus nobres pais, eternamente lustrando suas faces de mármore, tão frias quanto os seus corações, sempre deixados em segundo plano. Acostumados com isso, nunca assimilaram perfeitamente as alcunhas de pai e mãe. Talvez eles nunca tenham sido pai e mãe.

O tempo foi passando, e o que era violência verbal foi se transformando em truculência física. Tapas, socos, cusparadas, tudo isso se juntava ao monstruoso ritual diário que Bernardo submetia a Lipe. E ninguém percebia que tudo estava levando a situação por um caminho sem volta, sem fim. O bad boy do colégio ultrapassava todos os limites de caráter, e a pessoa mais inocente já notava que aquela postura não era mais apenas “coisa de jovem”. Era maldade.

Até que, nesta manhã, tudo o que aconteceu durante tanto tempo na vida destes dois rapazes veio à tona, da pior maneira. Era um dia comum, sala cheia, aula de Física... Mas faltava alguém. Justamente Lipe, justamente na aula de Física, a sua preferida. De repente, a porta se abre bruscamente, e os alunos da sala 302 conheceram um Felipe assustador, fechado, com o olhar de quem não olhava ninguém. E uma arma na mão, uma arma na outra. Tiros. Sangue. Mortes. Quem um dia esteve por baixo, hoje tem o poder, hoje manda. Finalmente o pequeno Lipe conseguiu o que tanto queria: respeito.

Porém, nada o deixou mais satisfeito naquele momento tão absurdo, do que os olhos de medo de Bernardo, que não correu, não fugiu, não conseguiu esconder o pavor de ter reconhecido o mal que fez a um assassino. Lipe e Bernardo, frente a frente, em lados opostos, em posições contrárias. Quem chorava, implorando por piedade, pedindo para ser deixado em paz, desta vez era Bernardo. Não houve tempo para perdão. Quatro tiros vingaram anos de violência. Com um sorriso nefasto e aliviado, Lipe vomitou as palavras que seu coração machucado sempre quis dizer:

“Justiça! Finalmente, justiça!”.

Foram as suas últimas palavras. Com as mãos que lhe vingaram, as mãos que lhe deram o descanso. Um tiro na própria cabeça, um fim. Dois jovens que se acabaram, vítimas de suas próprias vidas. Quem foi o verdadeiro culpado? Quem é a vítima? O menino Lipe, no fim, foi vítima do seu próprio martírio. O menino Bernardo, vítima de sua ignorância social. Quantos e Bernardos e quantos Lipes ainda precisam morrer, para percebermos que uma sociedade não existe sem respeito? Quantos ainda precisam sofrer gratuitamente, pelas mãos de quem não entende que as pessoas são – graças a Deus – diferentes?  

IMAGEM: http://4.bp.blogspot.com/_LBLbfZHfOoU/SxT_8Y1QKHI/AAAAAAAAAkg/4tOSv91maMc/s1600/4zwwn7.jpeg

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