quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre gatos mortos


Q
uem aqui nunca deu aquela espiadinha pelo buraco da fechadura? Ou quis saber o que tem do lado de dentro da lata de refrigerante? E aquela mania de tentar adivinhar o que há por trás do espelho? Nada demais. Apenas curiosidade, aquele mosquito que insiste em zumbir nos nossos ouvidos, sempre nos levando a querer saber qualquer coisa, seja o que for, saudável ou danosa, real ou onírica. Todos nós somos curiosos por natureza, precisamos do conhecimento como as plantas precisam de luz e como um centro-avante precisa fazer gols. Quantas chances nós temos de explorar a mata virgem que o mundo nunca deixará de ser? Todas.

Einstein já dizia que a curiosidade é mais importante do que o próprio conhecimento, e com razão. Afinal, o que seria o sabor do badejo se não houvesse quem o quisesse pescar? Tudo o que existe por aí, por aqui, acolá, só há com uma finalidade: aparecer. E como nós não temos a capacidade de conhecer todas as coisas – graças a Deus –, o gostinho delicioso de “quero mais” sempre permanecerá, vivo, pronto para nos levar a vários lugares, a várias pessoas. Nos levar ao novo. Há coisa mais excitante nessa vida do que a vontade de perguntar, de querer saber, de conhecer?

Tem sim. Descobrir. Mas que fique bem claro um detalhe. Não é sempre que conseguimos aquilo que tanto esperamos descobrir. Quando pequeno, eu gostava de pensar no que os outros pensavam. Quando comiam, quando brigavam ou conversavam comigo, eu tentava decifrar o que se passava pelas mentes deles. Quanta inocência! Eu achava que podia ver as pessoas por dentro.

Muitas outras coisinhas são impossíveis de saber, mas mesmo assim nos instigam, acionando o nosso motor da curiosidade, que nem precisa de muito combustível para funcionar feito uma Ferrari. Afinal, o que querem as mulheres? Hã? Ninguém vai conseguir vencer Freud nessa. Mas, me digam, homens, se essa eterna procura não é o mais legal? E quando nós conseguimos nossas respostas, finalmente achamos o pote de ouro, o que fica para contar aos netos é o caminho, mais até do que o destino final. Bom, até agora a curiosidade é linda, só constrói, faz bem, alimenta, etc e tal...

A questão é a seguinte: o ser humano não conhece limites. Isso pode ser muito bom, claro. O problema é que essa falta de regras, esse excesso de livre arbítrio, podem tornar uma atividade das mais saudáveis em um tormento. A janela que dá para a casa do vizinho passa a ser cada vez maior, e quando se percebe, já se está dentro de quintais que não são os nossos. Curiosidade vira intromissão, e a descoberta passa a ser objeto de inveja ou qualquer outro sentimento que corrói. É um tiro pela culatra, culpa da falta de bom senso, que é o regulador dessa fornalha que pode, de tanto aquecer nossa imaginação, nos queimar feio. E ainda machucar outras pessoas.

Pensem vocês, curiosos de plantão, que nunca faltará assunto para conversar, nem coisas novas para aprender. Cultura inútil... Nenhuma cultura é inútil. Sabem por quê? Simples. A novidade atrai, estimula, e faz tudo valer mais ainda. Dizem por aí que a curiosidade matou o gato. Talvez seja por isso que os felinos tenham sete vidas. Para terem mais chances de conhecer o ainda desconhecido mundo que sempre os espera. 


Um comentário:

Raíssa Bahia disse...

O que seria de nós sem a excitação da descoberta, o prazer do mistério desvendado e a ânsia pelo novo? Curiosidade é bom, faz parte da vida e a deixa beeeeeem mais interessante. Parabéns, mais um excelente texto.