quarta-feira, 9 de março de 2011

Quem disse que eu gosto de carnaval?


Todo ano é a mesma história. Chega janeiro e a família toda já pensa em fazer mais dívidas, como se já não bastasse o natal, e meus pais já ficam todos ouriçados com esse negócio de carnaval. Ninguém merece! Não sei de onde esse povo arranca tempo, dinheiro e disposição para gastar com tamanha bobagem. Sempre que chega fevereiro, já fico raivoso, com todo esse clima irritante de marchinhas, confetes e serpentinas.

Fui sortudo, esse ano o martírio caiu em março, então eu tive poucos dias a mais sem pensar nisso. Será que ninguém vê que isso tudo é tolice? Imaginem só se eu tenho cabeça para pensar em decorar coreografias, ouvir músicas, comprar esses malditos abadas, que depois viram roupa de dormir. As rádios só tocam esses refrões grudentos, com cantores metidos a personal trainers em aula de spinning, gritando, falando um monte de baboseiras. A degradação da música, a banalização da mulher.

Acho ridículo tudo o que expõe a figura feminina com tamanha vulgaridade. Lutaram tanto pela liberação, e hoje acabam cantando a sua própria depredação, em alto e bom som. Só lembrando que o Dia da Mulher cai na terça, no meio do carnaval. Ô palavra! Os acidentes aumentam nas estradas, é uma bebedeira sem fim, esses moleques que não sabem cuidar nem de suas próprias vidas, e ainda por cima destroem vidas alheias, por imprudência. E adianta pedir pra usar camisinha? Adianta distribuí-las aos montes? Vejam em dezembro os resultados disso que eu estou falando. Imprudência.

É como se eu fosse obrigado a ser um folião por natureza, só por eu ser brasileiro. Está escrito no nosso RG algo que nos obrigue a andar mascarado ou dançando o Rebolation por aí todo ano? As pessoas me olham torto, quase me xingam, só porque eu prefiro o meu seguro e confortável lar, enquanto todos os meus amigos se esbaldam, sujeitos a qualquer tipo de violência. Quantos casos eu já ouvi... Assaltantes brotam de árvores, nem se divertir mais é seguro. Bebem, ficam loucos, se estrepam. É pra isso que meus pais e meus amigos se desesperam todo mês de fevereiro?

Não, eu não gosto de carnaval. Não gosto dessa festa imensa, desse clima lindo que invade toda a nação, de norte a sul, em todas as suas culturas, envolvendo milhões de eternos foliões. Eu não gosto de carnaval, essa alegria inexplicável só de ver, essa vontade genuinamente brasileira, que é feliz como nem um outro povo nesse planeta, principalmente quando chega fevereiro, março. Eu não gosto de carnaval, de sua música, seja a vibe do axé baiano, o frevo contagiante, ou uma bateria que não deixa o samba morrer. Eu não gosto de carnaval, essa festa insuportavelmente feliz, pela qual todos esperam. Todos, menos eu, que não gosto de carnaval.

ILUSTRAÇÃO: Débora Vaz 

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