domingo, 27 de março de 2011

O antes


O
lhando para trás, o que você vê? Você vê? Muitas vezes nossa memória nos trai, não nos deixa ver o que de tão bonito nós construímos ou vivemos. Ela trai, ao mostrar aquilo que tanto queremos deixar para trás. O desejo de esquecer já nos faz lembrar. É inevitável, nenhuma memória ruim se apaga, na verdade, nada se apaga dos nossos arquivos, por mais mortos que eles pareçam. Somos reféns das nossas lembranças, que nos atacam, sem avisar. O efeito desse ataque? Quem vai saber?

Tudo o que fizemos, um dia volta. E isso é mais do que praga de sogra ou frase feita de para-choque. É fato. E por vezes acabamos rezando para que isso aconteça, para que possamos, nem que seja por relances de segundo, sentir de novo sensações que marcaram nossas vidas. O frio na espinha do primeiro beijo, o emprego dos sonhos, um abraço do pai ausente. Aquela regressão que não existe, o efêmero gosto da recordação. Como é bom lembrar daquilo que fez bem um dia. Aquece nosso coração, pode até nos empurrar rumo a novas aventuras.

Aventuras que podem ter deixado cicatrizes. Essas que a memória adora guardar. Não sei o porquê, mas as dores voltam com uma facilidade tão grande, machucando mais, ainda mais, em pensamento. Flashbacks nada agradáveis, que sempre irão trazer com eles o desconforto de antes, passe o tempo que passar. Quem apanha da vida, na vida, nunca esquece. Nem adianta tentar. A demissão marca mais que a admissão, a briga soa mais alto que o sorriso. Sempre é assim? Felizmente não. Só depende do nosso estado de espírito, simples assim. Ainda há uma chance de salvar nossas memórias do limbo da amargura, e ela depende somente de nós.

Como é bom lembrar de tudo o que nós fomos um dia! Não importa se éramos mocinhos ou vilões, porque de tudo nós tiramos algo útil, nem que seja um aprendizado: “Não faça isso nunca mais!”. Ver como crescemos, ver que ainda temos muito pela frente. Recordar dos momentos sublimes de felicidade, das voltas que a vida nos deu, das pessoas que um dia cruzaram o nosso caminho. Faz bem. Revigora. Rejuvenesce. Rir das mesmas brincadeiras de criança, refazê-las. Reencontrar amigos, reencarar medos, redescobrir o mundo. Recordar.

Não posso dizer se minha caixa de memórias é facilmente pesquisável, pois se eu, que deveria ter o controle sobre ela, não tenho, imagina outra pessoa. Não, óbvio que eu não construí nada disso sozinho. Na minha ficha constam muitos, mas muitos nomes, e no meu álbum, várias paisagens diferentes. Se o passado fosse uma melodia, não seria a mais bonita, nem a mais harmoniosa. Para os outros. Eu não me canso de ouvir as notas que, em minha caminhada, já toquei. Para alguém especial, para mim, para o mundo. As imagens que tenho vivas do meu ontem são claras. O suficiente para me deixar dizer que, no fim das contas, a minha memória não falha.

Se o passado condena? Claro que sim. A quê? Isso só você pode responder. Vai que, ao invés de condenar, ele te absolve? Justifique com ele, use-o como prova. Prova de que olhar para trás nunca será problema para você. 


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