domingo, 27 de março de 2011

O antes


O
lhando para trás, o que você vê? Você vê? Muitas vezes nossa memória nos trai, não nos deixa ver o que de tão bonito nós construímos ou vivemos. Ela trai, ao mostrar aquilo que tanto queremos deixar para trás. O desejo de esquecer já nos faz lembrar. É inevitável, nenhuma memória ruim se apaga, na verdade, nada se apaga dos nossos arquivos, por mais mortos que eles pareçam. Somos reféns das nossas lembranças, que nos atacam, sem avisar. O efeito desse ataque? Quem vai saber?

Tudo o que fizemos, um dia volta. E isso é mais do que praga de sogra ou frase feita de para-choque. É fato. E por vezes acabamos rezando para que isso aconteça, para que possamos, nem que seja por relances de segundo, sentir de novo sensações que marcaram nossas vidas. O frio na espinha do primeiro beijo, o emprego dos sonhos, um abraço do pai ausente. Aquela regressão que não existe, o efêmero gosto da recordação. Como é bom lembrar daquilo que fez bem um dia. Aquece nosso coração, pode até nos empurrar rumo a novas aventuras.

Aventuras que podem ter deixado cicatrizes. Essas que a memória adora guardar. Não sei o porquê, mas as dores voltam com uma facilidade tão grande, machucando mais, ainda mais, em pensamento. Flashbacks nada agradáveis, que sempre irão trazer com eles o desconforto de antes, passe o tempo que passar. Quem apanha da vida, na vida, nunca esquece. Nem adianta tentar. A demissão marca mais que a admissão, a briga soa mais alto que o sorriso. Sempre é assim? Felizmente não. Só depende do nosso estado de espírito, simples assim. Ainda há uma chance de salvar nossas memórias do limbo da amargura, e ela depende somente de nós.

Como é bom lembrar de tudo o que nós fomos um dia! Não importa se éramos mocinhos ou vilões, porque de tudo nós tiramos algo útil, nem que seja um aprendizado: “Não faça isso nunca mais!”. Ver como crescemos, ver que ainda temos muito pela frente. Recordar dos momentos sublimes de felicidade, das voltas que a vida nos deu, das pessoas que um dia cruzaram o nosso caminho. Faz bem. Revigora. Rejuvenesce. Rir das mesmas brincadeiras de criança, refazê-las. Reencontrar amigos, reencarar medos, redescobrir o mundo. Recordar.

Não posso dizer se minha caixa de memórias é facilmente pesquisável, pois se eu, que deveria ter o controle sobre ela, não tenho, imagina outra pessoa. Não, óbvio que eu não construí nada disso sozinho. Na minha ficha constam muitos, mas muitos nomes, e no meu álbum, várias paisagens diferentes. Se o passado fosse uma melodia, não seria a mais bonita, nem a mais harmoniosa. Para os outros. Eu não me canso de ouvir as notas que, em minha caminhada, já toquei. Para alguém especial, para mim, para o mundo. As imagens que tenho vivas do meu ontem são claras. O suficiente para me deixar dizer que, no fim das contas, a minha memória não falha.

Se o passado condena? Claro que sim. A quê? Isso só você pode responder. Vai que, ao invés de condenar, ele te absolve? Justifique com ele, use-o como prova. Prova de que olhar para trás nunca será problema para você. 


quarta-feira, 23 de março de 2011

A entidade

Uns dizem que ele é traiçoeiro, cruel, não deixa margens para a sorte. Já outros dizem que nós podemos controlá-lo... Ou pelo menos tentam. Para muitos ele faz um bem danado. Para outros, quanto mais ele passa, pior. E no meio de tantas suposições, opiniões, enrolações, apenas uma verdade: o tempo sabe o tempo certo de ser.

Quando você pensa em fazer alguma coisa, a chance de já ser tarde demais sempre existe, por mais tempo que você pense ter. Mesmo. Se todos nós resolvêssemos ousar menos e acreditar mais no poder que o tempo tem, talvez a humanidade fosse mais evoluída, ou menos retrógrada, do que a que vemos, a que somos. Talvez a maior preguiça que nos assola seja mental. Criaram até uma frase, o lema de qualquer pessoa que, por livre e espontânea vontade, esquece de viver. Por que fazer hoje o que se pode fazer amanhã?

A resposta é bem simples. Quem nos garante que o amanhã virá? Será que teremos mais um dia para fazer o que hoje poderíamos fazer, mas não fizemos? Mais uma vez o ser humano, arrogante e supostamente dono do mundo, tentando controlar o incontrolável. Essa mania de tentar ser Chronos! Desde que chegamos o tempo é um só, é a nossa maior condição, nosso maior tutor. Algumas pessoas preferem ser vítimas dele, desafiando, tentando vencê-lo. Sem perceber, essas pessoas acabam sendo os maiores derrotados.

Tantas coisas por fazer, e o dia acaba sendo curto para tantas vontades. Tudo bem, às vezes acabamos exagerando, achando que as horas podem se adequar a nós, quando, na verdade, deveria ser o contrário. O jeito é abortar planos, abrir mão. Esse é o problema. Seres humanos erram, e acabam tomando decisões equivocadas. Muitos, por isso, abrem mão de família, de amigos e amores, por motivos cada vez mais banais. Dinheiro, sucesso acima de tudo, egoísmo, tudo o que tempo nenhum consegue apagar.

O tempo. Muitas vezes nós damos a ele a obrigação de apagar as lembranças que nossa mente escolhe como ruins. Muitas vezes nós pensamos que somos imunes a ele. Felizmente, o tempo passa para todos, deixa suas marcas sem preconceitos. Não há beleza que dure para sempre. Nem felicidade que não possa acabar rapidamente. Rápido, intempestivo, independente, irreversível. O tempo voa mais rápido que nós.

Fingimos que ele é traiçoeiro, cruel, sem margens para a sorte. Fingimos que podemos controlá-lo. Fingimos que somos donos de tudo, que mandamos em nós. Quando mais nós precisamos dele, nos falta. Mas a verdade é que o erro está naquilo que todos querem. Buscando o “para sempre”, esquecemos do “só por hoje”, e não ouvimos que, à nossa porta, bate o “nunca mais”. O tempo é aquilo que não fingimos ser, aquilo que não sabemos entender. O tempo passa, o tempo acaba. Tente não deixar que ele acabe com você.

Dali


“The past is a history, the future is a mistery. Today is a gift. That’s why it’s called present.” – KUNG FU PANDA, 2008

domingo, 20 de março de 2011

Obrigado


Sabe como a gente pode separar o joio do trigo? Os homens dos meninos? Os homens possuem a maturidade e a grandeza de agradecer. Gratidão é coisa de gente grande. Não necessariamente em idade. Falo de concepção de mundo, de opinião, de valores. Todos nós, como precisamos viver em sociedade, prestamos e recebemos favores, seja querendo ou não, seja de outra pessoa ou da própria vida. Cultivar o dom de sempre reconhecer que alguém se moveu para que algo acontecesse por nós é dádiva. E obrigação.

Pelo menos deveria ser. Mas quem disse que, teimoso como é, o ser humano consegue dar o braço a torcer tão facilmente? Orgulho é bom, enquanto não é destrutivo, auto-destrutivo. Mais nobre do que fazer um favor, é econhecê-lo e agradecer por ele. Então, o que custa dizer um “obrigado”? Se faz tão bem, deixa a pessoa leve, orgulhosa de si mesma, abre portas para novas oportunidades? Imaginem só como isso pode fazer você subir no conceito humildade de qualquer pessoa. Pensem que tudo o que fazemos deixa rastros, deixa fios soltos. Ou nós aprendemos a usar essa ponta do fio para amarrarmos uma outra corda que nos leve para a frente, ou simplesmente deixamos que ela seja apenas uma sobra, feia, sem valor.

E vocês sabem qual é o meio mais fácil de manter relações, após um rompimento, por exemplo? Seja grato. Por mais tortuoso que tenha sido o seminário, aquilo lhe valeu experiência, conhecimento, integração com a turma, o que seja. O professor pode ser chato, mas você lhe deve gratidão. Saiu do emprego? Deixe clara a sua lisonja por ter recebido a chance de trabalhar, mesmo saindo depois de um mês. Faz bem para a nossa imagem e, de quebra, para o espírito e para a consciência. Treinem.

Uma pessoa ingrata não consegue enxergar o seu próprio umbigo, não sabe o que é ser social, não existe. E isso não faz diferença para o resto do mundo. Pelo menos não tanto quanto faz para ele mesmo. Tolice! Assim como deixar um dia passar sem notar o quanto ele foi importante, somente pelo fato de estarmos vivos, estarmos inteiros, depois de enfrentar a tensão de andar na rua, o que deixou de ser algo seguro há tempos. Quantos queriam acordar o seu amanhecer, e não tiveram a chance?

Um sol, mesmo aquele que entra no nosso quarto sem ser convidado, é um grande favor que Deus nos faz. E ninguém aqui acorda dizendo “obrigado”. Nem eu.  E é desse jeito que nos tornamos tão secos. Falta de agradecer pelo que temos, e muitos não podem. Não somos homens, se pararmos para pensar. Ainda não crescemos, ainda não aprendemos a ser homens. Se fossemos mais humildes, talvez, tudo fosse bem mais fácil. Se nossos olhos fossem mais abertos para olhar e, além disso, para VER o que o universo faz por e para nós, talvez a sociedade não fosse tão pouco social. Culpa do egoísmo besta de quem se acha auto-suficiente. 

Ser homem é se despir de orgulho, vestir a vistosa capa da modéstia e, sem medos, agradecer. Ser homem é ser digno, honrado, humilde o suficiente para agradecer pela mão que te levantou, pela palavra que te aconselhou, pela pessoa que te ajudou, pelo sol que lhe deu mais um dia. Ser homem é ser grande, é ser grato. 


quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre gatos mortos


Q
uem aqui nunca deu aquela espiadinha pelo buraco da fechadura? Ou quis saber o que tem do lado de dentro da lata de refrigerante? E aquela mania de tentar adivinhar o que há por trás do espelho? Nada demais. Apenas curiosidade, aquele mosquito que insiste em zumbir nos nossos ouvidos, sempre nos levando a querer saber qualquer coisa, seja o que for, saudável ou danosa, real ou onírica. Todos nós somos curiosos por natureza, precisamos do conhecimento como as plantas precisam de luz e como um centro-avante precisa fazer gols. Quantas chances nós temos de explorar a mata virgem que o mundo nunca deixará de ser? Todas.

Einstein já dizia que a curiosidade é mais importante do que o próprio conhecimento, e com razão. Afinal, o que seria o sabor do badejo se não houvesse quem o quisesse pescar? Tudo o que existe por aí, por aqui, acolá, só há com uma finalidade: aparecer. E como nós não temos a capacidade de conhecer todas as coisas – graças a Deus –, o gostinho delicioso de “quero mais” sempre permanecerá, vivo, pronto para nos levar a vários lugares, a várias pessoas. Nos levar ao novo. Há coisa mais excitante nessa vida do que a vontade de perguntar, de querer saber, de conhecer?

Tem sim. Descobrir. Mas que fique bem claro um detalhe. Não é sempre que conseguimos aquilo que tanto esperamos descobrir. Quando pequeno, eu gostava de pensar no que os outros pensavam. Quando comiam, quando brigavam ou conversavam comigo, eu tentava decifrar o que se passava pelas mentes deles. Quanta inocência! Eu achava que podia ver as pessoas por dentro.

Muitas outras coisinhas são impossíveis de saber, mas mesmo assim nos instigam, acionando o nosso motor da curiosidade, que nem precisa de muito combustível para funcionar feito uma Ferrari. Afinal, o que querem as mulheres? Hã? Ninguém vai conseguir vencer Freud nessa. Mas, me digam, homens, se essa eterna procura não é o mais legal? E quando nós conseguimos nossas respostas, finalmente achamos o pote de ouro, o que fica para contar aos netos é o caminho, mais até do que o destino final. Bom, até agora a curiosidade é linda, só constrói, faz bem, alimenta, etc e tal...

A questão é a seguinte: o ser humano não conhece limites. Isso pode ser muito bom, claro. O problema é que essa falta de regras, esse excesso de livre arbítrio, podem tornar uma atividade das mais saudáveis em um tormento. A janela que dá para a casa do vizinho passa a ser cada vez maior, e quando se percebe, já se está dentro de quintais que não são os nossos. Curiosidade vira intromissão, e a descoberta passa a ser objeto de inveja ou qualquer outro sentimento que corrói. É um tiro pela culatra, culpa da falta de bom senso, que é o regulador dessa fornalha que pode, de tanto aquecer nossa imaginação, nos queimar feio. E ainda machucar outras pessoas.

Pensem vocês, curiosos de plantão, que nunca faltará assunto para conversar, nem coisas novas para aprender. Cultura inútil... Nenhuma cultura é inútil. Sabem por quê? Simples. A novidade atrai, estimula, e faz tudo valer mais ainda. Dizem por aí que a curiosidade matou o gato. Talvez seja por isso que os felinos tenham sete vidas. Para terem mais chances de conhecer o ainda desconhecido mundo que sempre os espera. 


sexta-feira, 11 de março de 2011

Lentes de aumento


Q
ual é o tamanho dos nossos problemas? O quanto eles, realmente, podem nos atingir? Ninguém está livre de, algum dia, se deparar com uma dúvida, com uma carne de pescoço, com um sapo que deve engolir, e isso é mais constante do que podemos prever. Na verdade, nós não prevemos nada. Se perfeição é coisa de contos de fadas, como as nossas vidas são reais! Estrada plana é sonho de qualquer urbanista, que nunca consegue se livrar das lombadas e dos quebra-molas. Toda estrada tem buracos.

Mas será que nós mesmos não contribuímos para que esses pequenos buracos se tornem crateras irremediavelmente grandes, vendo as dificuldades com olhos desregulados? Quase sempre nós usamos as medidas erradas para os nossos problemas, e acabamos inventando monstros ferozes, para não vermos os gatos mansos que eles realmente são.

Ligar o “dane-se” nem sempre é uma boa, admito. A gente deve ser maior do que as pedras do nosso caminho, encarando-as com coragem. Mas temos que conhecer, exatamente, o tamanho e o peso delas. Gente, se tentar superar barreiras é uma das maiores satisfações do ser humano, triplicá-las é a maior burrice, puro masoquismo, que quem não tem peito para resolver a parada na primeira oportunidade, e acaba fazendo essa bola de neve crescer e crescer.

Essa é a pior parte. É cada um de nós que faz essa avalanche acontecer. Um simples copo d’água passa a ser pequeno para tanta tempestade, mesmo a nuvem sendo tão irrelevante. A  solução não é fugir dos nossos problemas, e sim vê-los como problemas, e não como tiranossauros famintos, prontos para nos devorar, como se não tivéssemos escolha. Todos tem. Se os homens não se importassem tanto com a dimensão errada do que realmente incomoda, haveria muito mais do que se orgulhar. Haveria muito mais a se fazer.

Ah, essa nossa mania torpe e autodestrutiva de sermos pessimistas! Por quê diabos nós nunca achamos que a vida é fácil, e que somos nós mesmos que a enrolamos? Basta viver para ver que nós somos cabeças duras demais para ver o simples. Há desafios realmente complicados e difíceis problemas? Claro. Mar de rosas também é conto da Carochinha.

Mas nem tudo é abismo. Muitas das noites que você já perdeu na vida poderiam ser lindas noites de sono. Só não foram por culpa da sua teimosia, de não aceitar que a solução era mais simples do que sua cabecinha medrosa poderia imaginar.Qual é o tamanho dos nossos problemas? É exatamente aquele que nós damos a ele. E é nosso dever e salvação ponderar, sentar, pensar sobre o que REALMENTE está acontecendo. Deixa a onda te levar, ela não erra nunca. Já nós...


quarta-feira, 9 de março de 2011

Quem disse que eu gosto de carnaval?


Todo ano é a mesma história. Chega janeiro e a família toda já pensa em fazer mais dívidas, como se já não bastasse o natal, e meus pais já ficam todos ouriçados com esse negócio de carnaval. Ninguém merece! Não sei de onde esse povo arranca tempo, dinheiro e disposição para gastar com tamanha bobagem. Sempre que chega fevereiro, já fico raivoso, com todo esse clima irritante de marchinhas, confetes e serpentinas.

Fui sortudo, esse ano o martírio caiu em março, então eu tive poucos dias a mais sem pensar nisso. Será que ninguém vê que isso tudo é tolice? Imaginem só se eu tenho cabeça para pensar em decorar coreografias, ouvir músicas, comprar esses malditos abadas, que depois viram roupa de dormir. As rádios só tocam esses refrões grudentos, com cantores metidos a personal trainers em aula de spinning, gritando, falando um monte de baboseiras. A degradação da música, a banalização da mulher.

Acho ridículo tudo o que expõe a figura feminina com tamanha vulgaridade. Lutaram tanto pela liberação, e hoje acabam cantando a sua própria depredação, em alto e bom som. Só lembrando que o Dia da Mulher cai na terça, no meio do carnaval. Ô palavra! Os acidentes aumentam nas estradas, é uma bebedeira sem fim, esses moleques que não sabem cuidar nem de suas próprias vidas, e ainda por cima destroem vidas alheias, por imprudência. E adianta pedir pra usar camisinha? Adianta distribuí-las aos montes? Vejam em dezembro os resultados disso que eu estou falando. Imprudência.

É como se eu fosse obrigado a ser um folião por natureza, só por eu ser brasileiro. Está escrito no nosso RG algo que nos obrigue a andar mascarado ou dançando o Rebolation por aí todo ano? As pessoas me olham torto, quase me xingam, só porque eu prefiro o meu seguro e confortável lar, enquanto todos os meus amigos se esbaldam, sujeitos a qualquer tipo de violência. Quantos casos eu já ouvi... Assaltantes brotam de árvores, nem se divertir mais é seguro. Bebem, ficam loucos, se estrepam. É pra isso que meus pais e meus amigos se desesperam todo mês de fevereiro?

Não, eu não gosto de carnaval. Não gosto dessa festa imensa, desse clima lindo que invade toda a nação, de norte a sul, em todas as suas culturas, envolvendo milhões de eternos foliões. Eu não gosto de carnaval, essa alegria inexplicável só de ver, essa vontade genuinamente brasileira, que é feliz como nem um outro povo nesse planeta, principalmente quando chega fevereiro, março. Eu não gosto de carnaval, de sua música, seja a vibe do axé baiano, o frevo contagiante, ou uma bateria que não deixa o samba morrer. Eu não gosto de carnaval, essa festa insuportavelmente feliz, pela qual todos esperam. Todos, menos eu, que não gosto de carnaval.

ILUSTRAÇÃO: Débora Vaz 

terça-feira, 8 de março de 2011

Quatro lados


Hoje é o Dia Internacional da Mulher, uma das formalidades mais absurdas desse país tão absurdo. Mais uma prova de que esta porca sociedade machista ainda não desembaçou as lentes da admiração que as mulheres precisam. Ainda falta muito, para que o 8 de março deixe de ser o único dia onde nós lembramos o valor que elas tem, e às vezes nem se dão conta. Uma mulher de tantos adjetivos de tantos lados, que se unem na mais perfeita harmonia, na mais bela canção. Paixão. Coração.

Mulher guerreira. Como lutam, verdadeiras leoas, com garras de pelica, com a força de um tigre e a sutileza de uma libélula. Voadora, sonhadora, nunca desiste de ser e viver sua missão por aqui. Brincam de querer tudo, e acabam conseguindo, nesse mundo onde as fontes de coisas boas são cada vez mais esgotáveis. Pensando melhor... Não são elas as maiores e melhores fontes, onde, com gosto, os homens se afogam sem pensar? Benditos frutos dos vossos ventres, as nossas mais ferrenhas protetoras. Tempo para casa? Elas tem. E para o trabalho? Elas também tem. E para os filhos, e para elas? Não há o que uma mulher obstinada não consiga.

Mulher poderosa. Elas nunca mandaram tanto em nós, amigos. Não mandam porque e bonito, porque vem a calhar dizer isso. Elas nos dominam, desde um sorriso despretensiosamente intencional, daqueles que derrubam qualquer insinuação besta de orgulho masculino, até as ordens que mudam a vida de um país. Estamos todos nós, brasileiros, a mercê de uma certa Dilma, o maior símbolo de que o espaço das mulheres no cotidiano nunca mais merece ser desprezado. As mulheres nos dominam. Graças a Deus.

Mulher feminina. A pétala. O pior cego é aquele que não quer ver a beleza, o charme, os encantos exalantes do corpo feminino. Cego não, burro. Ah, quando elas passam... Tudo fica (e  fica mesmo) mais bonito de ver, a cidade fria esquenta, as trevas se iluminam. Façam de conta que são manequins ambulantes. Façam de conta que não ligam. Nos façam contar sua linda imagem para os outros, infelizes, que perderam o brilho dos seus olhos, suas curvas maliciosas, sua imersão em nossos sonhos. Quando sua parceira demora duas horas em frente ao espelho, não reclame. Saiba que sempre valerá a pena.

Mulher amorosa. A frieza desrespeitosa dos homens se compensa com o coração que pulsa, mais do que isso, vive. Um amor protetor, que envolve sem esconder o mundo como ele é. Apenas protege. Imuniza. Um amor gratuito, em cada pequeno gesto, que as torna grandes. Maiores do que um dia nós, eternos garotos, pretendemos ser um dia. Emoções que não se justificam. Somos um bando de filhos da mãe, a mais bonita, a maior referência. Sem sua doçura, a selva de pedra chamada existência seria muito mais penosa.

Faltam palavras, faltam homenagens. A maior delas seja, talvez, o respeito que ainda nos falta. Não apenas da parte de nós, homens. A degradação da imagem feminina é, também, fomentada pelo descaso de muitas delas, que enfeiam o que nunca deveria ser menos admirável do que é. A nossa fortaleza, sem medo de exagerar nos clichês. Nenhum se esgotará, nem esgotará a nossa eterna contemplação. Quem disse que atrás de um grande homem existe uma grande mulher, se enganou. A mulher sempre vem a frente!




domingo, 6 de março de 2011

Chapéu de fita


“L
á vem meu boi, lá vem, pelas ruas de Belém”. Quem já cantou esse verso sabe muito bem que o Arraial do Pavulagem é uma das manifestações folclóricas mais famosas e reconhecidas do povo paraense, exaltando e levando a cultura paraense para todos os cantos, através de músicas, danças, culinárias e, acima de tudo, alegria. O Arraial que vai além das festas, além dos Cordões e Arrastões, aliando diversão e consciência, faz sucesso há mais de duas décadas, carregando gerações.

A maior prova da importância desse símbolo do nosso folclore para o nosso povo é a multidão que segue os vários Arrastões anuais, seja no carnaval, seja na quadra junina, seja no Círio de Nazaré, três momentos festivos do nosso calendário.  São centenas, milhares de foliões que saem às ruas vestidos a caráter, empunhando estandartes e mastros, cantando e dançando sob um sol escaldante, o que não diminui a empolgação do povo. O Cordão do Peixe-Boi, que acontece no carnaval, traz uma das figuras lendárias mais populares da Amazônia, perpetuando em crianças de hoje o sentimento de valorização da nossa cultura.

No meio do ano, o Arrastão do Pavulagem reúne milhares de foliões, nos cinco domingos do período de festas juninas, destacando a cerimônia dos mastros de São João, além de shows com a banda em uma Praça da República sempre lotada. Já em outubro, o Arrastão da Cobra Grande recepciona Nossa Senhora de Nazaré na véspera de cada Círio, com destaque para uma grande cobra feita de Miriti, árvore típica de Abaetetuba, e que por eles se concentrarem em maioria na Praça do Carmo – e além da forte ligação religiosa – faz com que o destino da caminhada seja lá. Esse cortejo faz parte das homenagens à Rainha da Amazônia.

Mas não são somente os arrastões que fazem a historia do Pavulagem. Há o Instituto Arraial do Pavulagem, que acolhe jovens em busca de aprender coisas novas, a admirar e valorizar a sua arte, a sua cultura. Projetos de música, dança, teatro, além de cursos e palestras ao redor do país mostram o lado da responsabilidade social, compromisso do Arraial. Além disso, a consciência de que a preservação é o melhor caminho para a salvação do nosso meio-ambiente, através de reciclagem, projetos de sustentabilidade e conscientização dos foliões antes, durante e depois dos Arrastões.

Arraial do Pavulagem. A representação viva da cultura paraense, a proliferação de um folclore tão rico, cheio de lendas, histórias, personagens que identificam essa terra. Muito mais do que uma procissão, o Arraial é um movimento, a favor da nossa religiosidade, dos nossos costumes, da nossa tradição, que, se depender deles, nunca morrerá. Enquanto houver alguém que admire e respeite nossa cultura, sempre haverá um fã, de chapéu de fita na cabeça, cantando aqueles mesmos e conhecidos versos: “Lá vem meu boi, lá vem, pelas ruas de Belém”.



terça-feira, 1 de março de 2011

Diga não


D
iga não aos que não conseguem dizer não. Aos que pensam que a vida deve ser apenas uma, e que quem foge do roteiro escrito por divindade qualquer é louco. Louco é aquele que não possui espírito para mudar, coragem para enfrentar desafios, força para decidir o que quer, mesmo sendo algo que ninguém escreveu para ele. Fuja dos métodos. Fuja da rotina.

Diga não ao medo, seja ele qual for. Um dia você parará, pensará, e pode se decepcionar por saber que não encarou o seu maior monstro, quando ele ainda podia ser vencido. Esqueça os que perdem chances, os acomodados que pensam que sempre haverá uma segunda chance. Os que esperam demais o futuro, acabam perdendo o presente, e não constroem um passado.

Diga não àqueles que não acreditam. O amanhã existe, justamente, para ser desejado. Planos. Diga não a quem tanto planeja, e não realiza. Os que nada concretizam. Evite os que sonham em demasia, pois nenhum exagero é bom o suficiente para ser eterno. Se afaste de quem pensa que tudo é para sempre, sem ver que nós não somos nada perto do mundo onde vivemos.

Diga não aos que não ousam, aos que não tem ambição, aos que preferem estar onde estão. Esses são os infelizes satisfeitos. Satisfação não precisa ser sinônimo de estagnação. Devemos correr sempre atrás dela, e não nos iludir com a idéia de que chegamos ao topo. Diga não a quem tem limites.

Diga não ao preconceito, ardiloso, que insiste em nos atrasar. Preconceitos enraizados, sem fundamento. Melanina ou opção sexual não são parâmetros para nada. Fique longe de quem ama comparações. Contra a natureza. Levianos. Não há como comparar coisas tão diferentes. Nós, por exemplo. Nossa unicidade, por si só, deveria calar a boca dos que nos julgam. Como não cala, afaste-se.

Diga não ao livre direito de estar triste, a maior perda de tempo que existe. Dedique-se ao exercício da felicidade. Esqueça quem se maltrata para crescer. Esqueça quem maltrata. Faça seu passe livre aqui na Terra valer a pena. Aqueles que não brincam, não se sujam de lama, às regras. Vire as costas para tudo isso. Diga não ao pudor, que impede alguém de ser pleno.

Diga não a quem não grita de felicidade, não chora de tristeza, não sente. Ora, ninguém pode te impedir de viver. Daqui a 40 anos, não se arrependa do que não fez. Faça! Experimente os sabores, beba, faça besteiras. Diga não aos que se consideram perfeitos. Esses são iguais a nada, pois perfeição não existe. Acorde. Evite quem pensa que o tempo vai demorar, que ainda tem muito o que viver. Não tem. Certeza como essa é blasfêmia.

Diga não a quem tapa o sol com a peneira, a quem foge da verdade. Mas não pense o mundo é um poço de sinceridade, muito menos que você está imune. Diga não aos iludidos, trancados em seu mundo ideal, sem feridas, sem rachaduras, sem problemas. Você irá mentir, alguém mentirá para você, e isso todos temos que entender. Entender não significa aceitar. Significa ter certeza das possibilidades e, quem sabe, se preparar para não se ferir muito.

Diga não aos políticos mentirosos, diga não aos demagogos. Diga não à hipocrisia. Essa maldita, que tenta encobrir, sordidamente, a realidade. Assuma-se. Assuma. Esqueça o desnecessário, foque nos bens. Apenas não diga não para os fatos, não negue as notícias, nem seus inimigos. Apenas você entende o que se passa nas suas relações, nunca fuja delas.

Diga sim aos seus amigos, às tardes de verão na praia, ao pôr-do-sol, obra prima gratuita de Deus para todos nós. Diga sim aos seus amigos de verdade, aos seus projetos, aceite-se. Entenda que os seus sonhos te guiarão, mas não precisam te prender. Mude-os, se for necessário. Livre-se das amarras, não ouça apenas. Fale. Aja. Seja. Se não gostar, dispense. Se doer, cure. Se não agrada, simplesmente, diga não.