terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A vela


A
li, no fundo deste negro buraco negro, bem no canto dos renegados, próximo à porta da morte, havia uma vela. Esta vela, que parecia nunca ter fim, de tão pequena nem de longe poderia simbolizar a eternidade. Tão pequena, tão efêmera. Não seria nada, a não ser por um detalhe. Detalhe amarelado, quente, luminoso. A chama. Acesa, vibrante, o sopro de vida, tão destoante daquela tristeza maior que o próprio mundo.
A vela iluminava, inebriava, trazia consigo a esperança de que, um dia, tudo aquilo fosse claridade, a esperança de um dia aquela chama ser apenas mais um ponto de luz em meio ao ofuscante sol nascente, que nasce aqui, nasce acolá. Mas nunca morre. Com este fogo. Fogo. Que queima por um combustível que sabe Deus qual é. Pode ser desejo, pode ser saudade. Pode ser até felicidade. Gasolina aditivada, querosene do amor. Essa vela, mesmo sem ser lamparina, continua acesa por bem mais do que apenas parafina.
A vela branca, que pode ser azul, preta, amarela, da cor do momento. Ela ilumina cantos, ilumina almas. As arestas da nossa existência, por completo, estão sob o clarão incessante de uma simples, não tão simples, vela acesa. Não tão simples? Ora, e quem é capaz de compreender, além da física, o motivo deste bastão de cera flamejante nunca se apagar, apesar de tudo? Quem quer descobrir? O que move as montanhas é uma força estranha, que conhecemos bem demais. É a persistência, que muitos conhecem como obstinação, vontade, entrega. O que mantém a chama acesa... Pode ser isso. Tudo, mais um pouco, muito mais, ou algo assim. Sim.
Clima quente, rajadas de vento, frio siberiano, tanto faz. Uma boa chama não depende de temperatura, muito menos de variáveis. O fogo é variável. Bendito seja o fogo, culpado pela sobrevivência de muitos, desistentes, impotentes. Descrentes. Essa vela, tão maravilhosa, constrói e segura o calor que o sangue às vezes não pode dar. Uma vela que salva vidas. Basta acender e, pronto, iluminados nos tornamos. Entretanto, a vela já vem acesa. O primeiro choro, a primeira respiração, é a faísca prima, a que acende o pavio. Se venta, somos as mãos que a protegem. Se chove, somos os que livram o fogo do frio. Se está escuro, somos nós que a usamos como guia.
Ali, no fundo deste negro buraco negro, bem no canto dos renegados, próximo à porta da morte, havia uma vela. Ainda há. Só que agora a luz parece mais intensa, como se o buraco negro não fosse mais tão negro, o fundo do poço não era mais tão fundo. A vela sustentou tudo isso. Verdadeira labareda em forma de chama curta, de uma cera que jamais se esgotará. Se ela virar um incêndio, que se deixe queimar! Se queimar, que vire cinzas! Se do pó viemos, um dia até ele voltaremos. Indo, vindo, chegando, voltando... Sempre, sempre, quando alguém olhar para aquele mesmo lugar, daquela mesma suposta escuridão, encontrará o fio de futuro, a luz do amanhã. Encontrará uma vela.


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