quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Novela das oito

E
m uma bela noite você chega em casa, senta-se na sua poltrona, liga a TV e, em um passe de mágica, sua vida estará lá, em pleno horário nobre. Na vinheta de abertura, o seu nome é seguido por todos os outros que são importantes durante a sua caminhada. E o mais engraçado de tudo: o autor não é você. Na verdade não é somente você. A novela da sua vida é escrita por mais, bem mais do que duas mãos. E qual seria a primeira cena?
Um resumo de sua história, quem sabe?! Os telespectadores precisam se situar, precisam se interessar naquilo que verão nos próximos meses. Biografia? Se sua vida foi interessante, pode ser uma boa idéia. E agora? Já sei! Um bom folhetim deve ter romance. Ah, os clichês do amor. Declarações apaixonadas, traições, encontros e desencontros. Cenas que beirem o pastelão são bem vindas. Além de, digamos, certa dose de pimenta. A essa hora as crianças já foram dormir. E não se esqueça das lágrimas. Chore. Sofra. Rasgue cartas, ligue, insista, desista. Isso garante audiência. O povo é tão sentimental mesmo, chega a ser engraçado.
Isso! Faça rir. Comédia da vida privada mesmo. Ria de você mesmo, eu tenho certeza que motivos não faltarão. Relembrar de alguma história do passado, algo que um dia foi muito hilário. Ou, se não encontrar nada, ria de você mesmo, ora bolas. Veja a graça nos seus fracassos, dê altas gargalhadas pela sua fraqueza, diante daquilo que é realidade.
 Mas o que é mesmo realidade, nesse mundo dos sonhos, que se tornam pesadelos, onde nada é mais do que cenário, roteiro, mentira? Hora de encontrar o vilão. Sempre há alguém que se encaixe perfeitamente neste personagem, nos seus mínimos e mais obscuros detalhes. Acredite. Seu colega de trabalho que insiste em querer te derrubar, sua sogra malvada, a bruxa dos seus dias. Infelizmente maus elementos não são difíceis de encontrar por aí.
Mas ainda está faltando alguma coisa nessa novela... Um toque de mistério. Claro! Prender a atenção do público faz toda a diferença. Você é mesmo o pai de sua vida? Ou será que, daqui a cem capítulos você descobrirá que a sua mulher te traiu com a insensatez e, na verdade, sua vida não passa de um fruto do pecado, do egoísmo, da covardia? Quem matou a sua felicidade? Invente suspeitos, jogue a culpa em todos, em tudo. Acuse a falta de respeito, o perrengue financeiro, a auto-estima baixa. Talvez para esconder a sua própria culpa. Pode ter sido um suicídio e você, co-autor, nem percebeu.
Mas espere! Nada está perdido, não desligue sua TV. Mesmo não sendo o senhor do teatrinho que sua vida se tornou, a historia pode sofrer reviravoltas. Até o último capítulo muita coisa muda. Mocinhos viram vilões, vilões viram mocinhos e, no final de tudo, não haverá mais mistérios a serem revelados, nem bordões a serem ditos. Escrever assistindo o folhetim da sua vida não é mais fácil por um simples detalhe: você também é personagem. E isso faz com que você nunca saiba de tudo.
Lembra dos outros co-autores? Sim, eles escrevem cenas que não estão na sua sinopse, usam falas fora do roteiro, improvisam. E nem sempre eles lhe avisarão. A vida real é cruel, ela nos esconde coisas. Saber de tudo é fácil, quando tudo se refira à vida alheia. Às vezes somos apenas audiência, espectadores, que sofrem, riem, choram, com dramas que são nossos, e por vezes decidimos esquecer, por parecerem menos nocivos a nós. Tolice tentar fugir do mundo real, do lado de cá. Desligar a TV não é a melhor solução.




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