sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mestre-sala sem porta-bandeira

Fevereiro. Quantas lembranças
boas me ocorrem quando ouço esse nome, um mês sempre cheio de alegria, de
brilho. Dessa vez é diferente. Nada brilha na minha vida, tudo é cinza, é
triste. Os arlequins não são mais os mesmos desde que a minha avenida perdeu
sua passista mais formosa. Hoje eu não consigo mais dançar o balé do samba,
estou sozinho. Hoje eu não sou nada mais do que um fevereiro sem carnaval.
A pior recordação que fevereiro
poderia me trazer, agora corrói meus pensamentos, destroça meu coração que, há
um ano atrás, transbordava de emoção, quando de sua boca ganhei o melhor
presente que Deus poderia ter nos dado. Um fruto do samba, que sofre, tão
pequeno, sem saber ainda que nunca verá sua mãe carregando o maior orgulho da
comunidade. Do jeito único, que me conquistou. As luzes que brilhavam feito
estrelas, seguindo o astro maior, que passava e ficava na memória de quem a
via, plena, flutuante.
A sorte dos nossos olhos se
cruzaram, o acaso dos nossos corações se encontraram, e tudo era um grande
fevereiro a partir de então. Vivemos intensamente cada momento, escrevemos o
melhor samba enredo, que escola nenhuma seria capaz de representar com
perfeição. Cada acorde se encaixava, os passos eram precisos, a rainha do meu
carnaval. Que me perdoem o sacrilégio, mas o manto sagrado ficou em segundo
plano. Quem o empunhava era, sim, o destaque. O monumento.
Desde então o meu samba não
perdeu o tom, agora éramos dois. Mas os deuses da Sapucaí resolveram aprontar
comigo. Te levaram, morena linda, e me deixaram sem seu perfume, seu sorriso,
sua simpatia. O mestre-sala não existia mais, as alegorias deram lugar ao negro
do luto. Tão jovem! Desandou, o carro enguiçou, meu coração se despedaçou, feito
um punhado de paetês que caem das nossas mãos. A diferença era o brilho.
Pedaços opacos, sem vida. Sem o pulsar da bateria, que regia o meu desfile.
Ainda não entendo, nem aceito, o
enredo desse samba, amor. Não consigo ver a Sapucaí sem o seu charme, eu não me
vejo mais sorrindo, encantando o público, como antes eu só fazia ao seu lado.
Nenhum jurado era capaz de achar a nota máxima para o nosso entrosamento, que
ia muito além dos limites da Passarela. Estou triste. Mas ainda tenho você como
uma estrela, linda, no céu de confetes e serpentinas, que sempre foi o nosso
amor.
E me deste um presente, maior do
que qualquer paixão musical. Ela vai seguir os seus passos, morena. Será uma
linda porta-bandeira, e um dia desfilará comigo. Quando esse fevereiro chegar,
eu poderei olhar para cima e dizer: é você que está aqui. Você nunca deixará de
ser a regente das batidas do meu coração. Sempre estará no meu grupo especial.
Eu sei que o tempo irá ajudar. Eu ficarei forte. Depois da apuração, eu
voltarei a sorrir, como fiz sempre. Esse fevereiro não tem carnaval, mas o
próximo terá, e eu passarei pela avenida, cantando para a minha escola, para a
minha comunidade. Para a minha eterna porta-bandeira.


Um comentário:

Robson H. disse...

Égua meu brother...fodástico o texto...curti mt as metáforas...tá muito bom mesmo...publica seu, sem papo...um desses o liberal num rejeita nunk...