domingo, 27 de fevereiro de 2011

LUTO - Benedito Nunes

Hoje o domingo é de luto e tristeza, para todos os homens de letras, filósofos, historiadores e apaixonados por cultura deste estado. O nosso grande Benedito Nunes faleceu, por volta das 10:45 de hoje, em consequência de um problema cardíaco. Com 71 anos de idade, Benedito se tornou um dos paraenses mais conhecidos a nível nacional, vencedor do Prêmio Jabuti, o mais importante prêmio brasileiro dedicado à literatura. Lançou diversos livros, muitos com base em obras de Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.

Eu tive a honra de conhecê-lo, vê-lo e ouvi-lo, quando esteve no Auditório da UEPA, onde estudava, no ano passado. Fui um dos privilegiados, que tiveram o prazer de escutar o que ele sabia. O que nós sabemos é que o nome deste pensador já está gravado, com letras de ouro, na história do Pará. A Rua Estrela perde seu morador mais ilustre, a cena literária e cultural paraense perde um grande exemplo. Hoje o domingo é de luto e tristeza, mas o que nos conforta é que a obra deste grande homem ficará eternizada em nossas mentes. E é nosso papel mante-lo vivo para as futuras gerações, que merecem esse vento forte de cultura e conhecimento. Viva Benedito! Viva!


1929 - 2011



sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mestre-sala sem porta-bandeira

Fevereiro. Quantas lembranças
boas me ocorrem quando ouço esse nome, um mês sempre cheio de alegria, de
brilho. Dessa vez é diferente. Nada brilha na minha vida, tudo é cinza, é
triste. Os arlequins não são mais os mesmos desde que a minha avenida perdeu
sua passista mais formosa. Hoje eu não consigo mais dançar o balé do samba,
estou sozinho. Hoje eu não sou nada mais do que um fevereiro sem carnaval.
A pior recordação que fevereiro
poderia me trazer, agora corrói meus pensamentos, destroça meu coração que, há
um ano atrás, transbordava de emoção, quando de sua boca ganhei o melhor
presente que Deus poderia ter nos dado. Um fruto do samba, que sofre, tão
pequeno, sem saber ainda que nunca verá sua mãe carregando o maior orgulho da
comunidade. Do jeito único, que me conquistou. As luzes que brilhavam feito
estrelas, seguindo o astro maior, que passava e ficava na memória de quem a
via, plena, flutuante.
A sorte dos nossos olhos se
cruzaram, o acaso dos nossos corações se encontraram, e tudo era um grande
fevereiro a partir de então. Vivemos intensamente cada momento, escrevemos o
melhor samba enredo, que escola nenhuma seria capaz de representar com
perfeição. Cada acorde se encaixava, os passos eram precisos, a rainha do meu
carnaval. Que me perdoem o sacrilégio, mas o manto sagrado ficou em segundo
plano. Quem o empunhava era, sim, o destaque. O monumento.
Desde então o meu samba não
perdeu o tom, agora éramos dois. Mas os deuses da Sapucaí resolveram aprontar
comigo. Te levaram, morena linda, e me deixaram sem seu perfume, seu sorriso,
sua simpatia. O mestre-sala não existia mais, as alegorias deram lugar ao negro
do luto. Tão jovem! Desandou, o carro enguiçou, meu coração se despedaçou, feito
um punhado de paetês que caem das nossas mãos. A diferença era o brilho.
Pedaços opacos, sem vida. Sem o pulsar da bateria, que regia o meu desfile.
Ainda não entendo, nem aceito, o
enredo desse samba, amor. Não consigo ver a Sapucaí sem o seu charme, eu não me
vejo mais sorrindo, encantando o público, como antes eu só fazia ao seu lado.
Nenhum jurado era capaz de achar a nota máxima para o nosso entrosamento, que
ia muito além dos limites da Passarela. Estou triste. Mas ainda tenho você como
uma estrela, linda, no céu de confetes e serpentinas, que sempre foi o nosso
amor.
E me deste um presente, maior do
que qualquer paixão musical. Ela vai seguir os seus passos, morena. Será uma
linda porta-bandeira, e um dia desfilará comigo. Quando esse fevereiro chegar,
eu poderei olhar para cima e dizer: é você que está aqui. Você nunca deixará de
ser a regente das batidas do meu coração. Sempre estará no meu grupo especial.
Eu sei que o tempo irá ajudar. Eu ficarei forte. Depois da apuração, eu
voltarei a sorrir, como fiz sempre. Esse fevereiro não tem carnaval, mas o
próximo terá, e eu passarei pela avenida, cantando para a minha escola, para a
minha comunidade. Para a minha eterna porta-bandeira.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Dois anos depois

C
omo o tempo passa. Já se foram dois anos e, agora, eu vejo o quanto o mundo era diferente quando eu cheguei por aqui, tímido, acanhado, como uma criança que entra na sua primeira escola. Nesses dois anos muita coisa mudou. Eu mudei, nós mudamos. Manias deram lugar a outras, sonhos viraram realidade, viraram outros sonhos. Concretizações, tropeços, erros e acertos, que marcaram os últimos meses, que parecem poucos para a história, mas que significaram muito nas nossas vidas.
23 de fevereiro de 2009. Barack Obama acabara de sentar na cadeira mais importante do mundo. Negro. Presidente. Os Estados Unidos deram um passo largo contra seus próprios preconceitos. O mundo se recuperava da crise de meses atrás – a mesma crise que muitos outros países ainda lutam para superar. Lula comandava o país, já esquentando a cadeira para a sua sucessora. Isso mesmo. SucessorA. Nunca o país esteve tão perto de ser comandado por uma mulher.
23 de fevereiro de 2009. O campeão brasileiro ainda era o São Paulo, e Adriano ainda não era a contratação mais badalada do ano. Naquele dia nós ainda não imaginávamos que o futuro não seria nada promissor em solos africanos. A memória de 2006 ainda era a última mancha na camisa canarinho. Bolt era a sensação, Kaká jogava em Milão, e Belém ainda tinha esperanças de ser sede da Copa. Rio 2016, ainda um grande sonho. Fevereiro, carnaval. O último pré-rebolation. Cores? Ainda eram apenas cores, não motivos de tantas polêmicas. E fazenda era apenas um lugar onde se criavam animais. Hoje é lugar onde criamos celebridades. Ou não.
23 de fevereiro de 2009. O Rei estava vivo. Mas não deixa de reinar entre seus fãs no mundo todo, aqui, no céu, na lua. Luas. Saturno tinha uma a menos. Bruno era apenas um goleiro famoso e competente, Lady Gaga estava começando a mostrar suas garras, e o maior sucesso do nosso cinema ainda era Dona Flor. Avatar era um projeto revolucionário, e Tiririca não passava de um piadista famoso. O Brasil não sabia o que era uma tragédia natural tão avassaladora, viajar de avião para a França era uma simples viagem para a França, e não uma lembrança do acidente que ninguém viu.
23 de fevereiro de 2009. Nem imaginamos que o Brasil se renderia ao sucesso de um jovem jogador, tão polemico quanto talentoso, ao lado – e por causa – de um paraense papa-chibé, cuja técnica encantou o país do futebol. Nem imaginávamos que o Rio seria palco de uma guerra. Talvez nós imaginássemos sim. Mas, por hora, a paz venceu. Paz. Coincidência ou destino, muitas semelhanças entre ontem e hoje. 23 de fevereiro de 2009, eu comemorava a realização de um grande sonho. 23 de fevereiro de 2011, e eu aqui estou, comemorando mais uma vez, outro grande sonho. O maior sonho. Há dois anos atrás eu estava quase careca e, hoje, também.
E aqui chegamos. Eu, você, o país, o planeta. Somos comandados por uma mulher, que fez história, com a ajuda de 55 milhões. O mundo vive mais preocupado com as pessoas, Ronaldo não é mais o Fenômeno dos gramados, Mubarak não manda mais no Egito, o petróleo é a grande incógnita dos próximos anos, e a mineração começa a escrever um novo e, esperamos que seja, mais seguro amanhã. Os mineiros abençoados, sob o solo do Atacama, chamaram a nossa atenção. Chamou-nos à vida. Vida que ainda nos reserva muito para os próximos 2, 20, 200 anos.


23 de fevereiro de 2009. Começava a história deste blog, que cresceu, fugiu do meu controle, e que hoje se tornou mais que um simples site; uma diversão. E é isso que eu tento levar a todos vocês, leitores, a cada texto, a cada palavra. Hoje, 23 de fevereiro de 2011, o Etc&tal completa 2 anos muito bem escritos, com o apoio de amigos de verdade, blogueiros ou não, que me ajudaram, de alguma forma, a construir todos os 165 capítulos produzidos até hoje por aqui. Um blog que abriu portas, ampliou horizontes, alimenta sonhos. Sonhos que frutificam, criam galhos... Mais um projeto, o Etc N, que nasce para informar. Nasce deste mesmo Etc&tal, que há dois anos não passava de mais um blog.
Neste 23 de fevereiro, eu não poderia fazer outra coisa, a não ser agradecer a todos os que, pelo menos uma vez, passaram por aqui para ler, sorrir, chorar, opinar, criticar, me contemplar com a sua presença. Mais um ano nos espera, dois já foram. Outros muitos, com certeza, ainda virão.


E essa é a versão final do vídeo de aniversário do Etc&tal, feito com carinho, para homenagear a cada um dos seguidores, leitores, amigos, que compartilham deste projeto comigo, da melhor maneira possível: lendo. Obrigado a todos, e que esse seja apenas o começo de uma grande história. Bem-vindos ao ANO 3 do Etc&tal!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Ciclos

I
nício, meio e fim. É a vida, que roda, e não adianta o caminho que ela traça, nós sempre chegaremos ao mesmo ponto. Ponto final, que serve como uma nova largada, a linha que marca uma nova volta, no Grande Prêmio da Existência. É claro que as curvas nem sempre são feitas da mesma maneira, cometemos erros, tropeçamos. Mas sempre, por mais perfeita que seja a nossa escolha, ela sempre terminará. Nada é para sempre, meus caros.
Nem mesmo os sentimentos são eternos, em suas formas originais. Amores mudam com o tempo, rancores idem. Mudar. Essa é nossa maior vocação. Um dia tudo volta a ser início. O preço que se paga? Terminar. Não que nós queiramos isso. Não mandamos em nada, não somos nada além de vítimas. A vida faz o favor de nos levar ao fim, mesmo quando o meio é tão bacana.
Desde sempre é assim. Nossa primeira escola, as séries vão passando, pessoas ficando pelo meio da estrada, outras novas pedem carona, mas tudo, uma hora, termina. Mesmo não mudando de escola. Escola, que quando menos se espera, se transforma em universidade. Uma etapa nova, outra rotina, outras pessoas. Crescemos. Ora, e crescer não é um exemplo mais que perfeito de que o fim sempre chega? Piscamos e deixamos de ser crianças. Dormimos e acordamos adolescentes. As contas chegam e, plim, adultos! Alguém pergunta: “E uma amizade verdadeira? E um grande amor? Não duram para sempre?”... Eu concordo, sentimentos fortes duram sim até a morte. Mas a morte não é o fim do grande ciclo, o ciclo da vida?
Despedida. Colocar o ponto final em um capítulo tão bonito e marcante da sua história. Sofrido, difícil, muitas vezes necessário. Se desfazer daquilo que foi simplesmente a sua vida, durante muito tempo, abandonar seu cotidiano, suas pessoas, seu motivo, tudo isso é cortante. Um ciclo se fecha. Outro deve começar. Sonhos se substituem, os objetivos passam a ser outros, é natural. Contra a natureza da vida, não podemos nada. Apenas esperar, torcer para que valha a pena a escolha que fizemos.
Nós não podemos adivinhar quando será o fim, mas podemos desenhar nossa trajetória. Ela só depende das nossas escolhas. Certas, tortas, isso cabe somente a cada um de nós, que sabe – ou não – as conseqüências dos seus atos. E delas nós nunca fugimos. Muitas vezes uma opção significa o ponto final em outra escolha anterior, e faz bem. Tudo precisa terminar, as fases se sucedem, e a roda vive, a roda gira... talvez nos deixe tonto, embaralhe tudo. A idéia é mesmo essa. Nos obrigar a nos arrumar. A começar, recomeçar, terminar.
Sonhar, fazer planos, querer, tudo isso é o começo. O meio é o processo, o caminho, a concretização do que tanto sonhamos. Já o fim, esse eu sempre quero, mas quero muito, chamar de sucesso.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O último gol de placa

H
oje foi um dia daqueles que a gente um dia vai chamar de história. Nesta segunda-feira chegou ao fim a carreira de um dos melhores do mundo naquilo que fazia. Ronaldo Nazário de Lima, três vezes escolhido pela FIFA como o Melhor, duas vezes campeão do Mundo, artilheiro máximo dos Mundiais, colocou o ponto final em uma história escrita com muito talento, muitas conquistas, algumas polêmicas e muita, mas muita genialidade.
Um menino que conquistou o planeta. Começou no São Cristóvão, se mostrou no Cruzeiro, e conseguiu a proeza de ser ídolo de quatro das maiores e mais apaixonadas torcidas da Europa. Sorte dos espanhóis, de Real e Barça, e dos italianos, milaneses, que tiveram a sorte de ver ao vivo uma estrela brilhar em seus gramados. O PSV foi a casa holandesa desse dentuço, que sabia como poucos o significado da expressão “futebol-arte”.
Mas o caminho desse garoto nem sempre foi cheio de flores. O destino pregou peças em Ronaldo, assustou os amantes de futebol, botou em risco o futuro de um craque. Lesões graves quase interromperam a carreira de Ronaldo de maneira precoce, o que seria um pesar muito grande para todos nós. Imaginem só se os joelhos do dentuço resolvessem parar de funcionar? O mundo deixaria de se encantar com os dribles, as arrancadas e os golaços que o transformaram em um fenômeno.
2002. Na Ásia, ele brilhou. A melhor Seleção de futebol do século, a geração do Penta, a geração do cabelo cascão, que virou moda entre a garotada, que sentia orgulho em ostentar ir sua idolatria pelo melhor jogador do planeta na atualidade. Como era bom acordar de madrugada, se vestir de verde e amarelo, e ver mais um baile brasileiro no oriente. E, vamos combinar, que massacrar o goleiro invencível, o paredão chamado Oliver Kahn, em plena final de Copa do Mundo, não é o que qualquer jogador pode contar para os seus netos.
Se foi polêmico, é porque se expôs, como a celebridade que era. Virou piada, chacota, tema de conversas de bar, mas nunca deixou de ser aquele dentuço, craque de bola, que fascinou uma, duas gerações de garotos, que sonharam e sonham seguir os seus passos. Passos que o trouxeram de volta ao seu Brasil, ao nosso futebol, e logo de cara uma disputa, entre as maiores torcidas do país. Se tornou mais um entre o bando de loucos, e foi vitorioso. Porém, como nada é perfeito, foi o principal culpado pelo maior insucesso da história do alvinegro paulista. Ossos do ofício.
Ofício que o fez ídolo. Muitos ainda o verão em vídeos, e perceberão o quanto esse cara era bom. Ronaldo só não venceu as dores, que abreviaram sua carreira. Mas venceu nos gramados, fazendo deles o tapete da realeza, enchendo seus súditos de alegria, não importando a camisa e o escudo que defendesse. Por cada gol, por cada lance bonito, por cada demonstração de talento usando o sagrado manto amarelo, muito obrigado. Meu avô sempre me diz que viu Pelé jogar, meu pai se orgulha de ter testemunhado Zico, Garrincha, Rivelino. Eu, com certeza, vou me orgulhar em dizer aos meus filhos e netos, que tive a honra de ver Ronaldo.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Invento

E
ureka! Hoje eu consegui realizar meu sonho. Depois de muitos anos de pesquisas, de trabalho duro, eu finalmente consegui fazer funcionar, com plenitude, a minha maior criação. Eis aqui a grande Máquina Transformadora de Personalidade! O invento do século, que irá revolucionar a maneira como as pessoas vivem no planeta Terra. Basta um clique e, pronto! Todos os problemas estarão resolvidos. Chega de corrupção, chega de maldade, chega de chateações. Agora é possível controlar o ser humano.
Durante o longo período de estudos sobre o comportamento das pessoas, eu fiz várias entrevistas, e nelas eu descobri que o principal desejo da maioria era o de que tudo fosse do jeito que elas quisessem. Ora, daí foi bem mais fácil concentrar meus trabalhos em algo que pudesse satisfazer essas pessoas. Vi nos desenhos que criar grandes máquinas, como a do tempo, a rejuvenescedora, sempre funcionavam, e por isso tentei eu construir a minha própria. E qual seria o melhor jeito de satisfazer os anseios de todas as pessoas? Oferecendo a elas a chance de mudar, elas mesmas, o que não agradasse.
O resultado foi essa maravilhosa cabine ultramoderna, com o que há de mais caro na área da personalidade humana. Como funciona? Simples. Por exemplo, se você não agüenta mais que seus pais lhe dêem ordens, lhe proíbam de fazer o que você quer, basta colocá-los dentro da cabine, apertar o botão verde e pronto! Em dois segundos eles saem seus melhores amigos. O chefe não quer dar aquele aumento? Um clique, dois segundos na cabine e o contracheque engorda na hora. Que maravilha! O poder de mudar nas nossas mãos.
Só tem uma coisa que eu não consegui evitar enquanto construía meu invento. A Máquina Transformadora de Personalidades pode ter efeitos colaterais. Sim. Eu descobri que, assim como uma pessoa é capaz de mexer em outra personalidade em segundos, o mesmo pode acontecer contra ela. Meus estudos só me mostraram isso quando viraram resultados. Me espantei, me assustei com algo que não tinha pensado ainda: eu também posso ser vítima. Como eu faço para evitar? Mas, depois de alguns poucos milésimos de segundo, eu relaxei. Afinal de contas, quem disse que eu preciso ser mudado?
Agora eu não temo ser alvo da minha invenção, pois sei que sou um homem completo, perfeito, sem motivos para que alguém não goste de mim. Consegui criar o invento do século, com minha inteligência e galhardia, por isso eu não preciso ser mudado. Imaginem só se alguém tão importante para a humanidade pode se misturar aos fracos, que foram o foco das minhas pesquisas! Ora! Aqueles que não sabem o que é companheirismo, humildade, simplicidade, todos esses sim, necessitam passar pela Máquina Transformadora de Personalidade. Eu não!
Esse é o meu invento, essa é a minha marca para esse mundo tão cheio de futilidades e utopias. Essa é a Máquina Transformadora de Personalidade, o invento do século. Agora é possível controlar o ser humano.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Novela das oito

E
m uma bela noite você chega em casa, senta-se na sua poltrona, liga a TV e, em um passe de mágica, sua vida estará lá, em pleno horário nobre. Na vinheta de abertura, o seu nome é seguido por todos os outros que são importantes durante a sua caminhada. E o mais engraçado de tudo: o autor não é você. Na verdade não é somente você. A novela da sua vida é escrita por mais, bem mais do que duas mãos. E qual seria a primeira cena?
Um resumo de sua história, quem sabe?! Os telespectadores precisam se situar, precisam se interessar naquilo que verão nos próximos meses. Biografia? Se sua vida foi interessante, pode ser uma boa idéia. E agora? Já sei! Um bom folhetim deve ter romance. Ah, os clichês do amor. Declarações apaixonadas, traições, encontros e desencontros. Cenas que beirem o pastelão são bem vindas. Além de, digamos, certa dose de pimenta. A essa hora as crianças já foram dormir. E não se esqueça das lágrimas. Chore. Sofra. Rasgue cartas, ligue, insista, desista. Isso garante audiência. O povo é tão sentimental mesmo, chega a ser engraçado.
Isso! Faça rir. Comédia da vida privada mesmo. Ria de você mesmo, eu tenho certeza que motivos não faltarão. Relembrar de alguma história do passado, algo que um dia foi muito hilário. Ou, se não encontrar nada, ria de você mesmo, ora bolas. Veja a graça nos seus fracassos, dê altas gargalhadas pela sua fraqueza, diante daquilo que é realidade.
 Mas o que é mesmo realidade, nesse mundo dos sonhos, que se tornam pesadelos, onde nada é mais do que cenário, roteiro, mentira? Hora de encontrar o vilão. Sempre há alguém que se encaixe perfeitamente neste personagem, nos seus mínimos e mais obscuros detalhes. Acredite. Seu colega de trabalho que insiste em querer te derrubar, sua sogra malvada, a bruxa dos seus dias. Infelizmente maus elementos não são difíceis de encontrar por aí.
Mas ainda está faltando alguma coisa nessa novela... Um toque de mistério. Claro! Prender a atenção do público faz toda a diferença. Você é mesmo o pai de sua vida? Ou será que, daqui a cem capítulos você descobrirá que a sua mulher te traiu com a insensatez e, na verdade, sua vida não passa de um fruto do pecado, do egoísmo, da covardia? Quem matou a sua felicidade? Invente suspeitos, jogue a culpa em todos, em tudo. Acuse a falta de respeito, o perrengue financeiro, a auto-estima baixa. Talvez para esconder a sua própria culpa. Pode ter sido um suicídio e você, co-autor, nem percebeu.
Mas espere! Nada está perdido, não desligue sua TV. Mesmo não sendo o senhor do teatrinho que sua vida se tornou, a historia pode sofrer reviravoltas. Até o último capítulo muita coisa muda. Mocinhos viram vilões, vilões viram mocinhos e, no final de tudo, não haverá mais mistérios a serem revelados, nem bordões a serem ditos. Escrever assistindo o folhetim da sua vida não é mais fácil por um simples detalhe: você também é personagem. E isso faz com que você nunca saiba de tudo.
Lembra dos outros co-autores? Sim, eles escrevem cenas que não estão na sua sinopse, usam falas fora do roteiro, improvisam. E nem sempre eles lhe avisarão. A vida real é cruel, ela nos esconde coisas. Saber de tudo é fácil, quando tudo se refira à vida alheia. Às vezes somos apenas audiência, espectadores, que sofrem, riem, choram, com dramas que são nossos, e por vezes decidimos esquecer, por parecerem menos nocivos a nós. Tolice tentar fugir do mundo real, do lado de cá. Desligar a TV não é a melhor solução.




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Segunda-feira de cinzas

H
oje pela manhã um grande incêndio destruiu quatro galpões da Cidade do Samba, complexo que comporta os barracões das escolas de samba do Grupo Especial do carnaval do Rio de Janeiro, mais a LIESA (Liga Das Escolas de Samba do RJ). Há um mês do fim de semana mais esperado por muitas comunidades cariocas, o fogo destruiu o trabalho de um ano, e investimentos milionários, que deveriam proporcionar ao Brasil e ao mundo imagens de beleza e encantamento que, todos os anos, desfilam pela Marquês de Sapucaí, envolvendo corações do país inteiro.
As imagens que vimos foram exatamente o oposto do normal. Ao invés da boa surpresa, um choque trágico. Surpreendentes, não pela beleza, mas pela violência com que as chamas tomavam conta dos barracões, fazendo o Rio chorar, o Brasil parar. Para quatro comunidades, que respiram samba, o sofrimento foi ainda mais intenso. Três das maiores escolas de samba do país foram diretamente atingidas. A União da Ilha do Governador, a Portela, de Madureira e Oswaldo Cruz, e a Grande Rio, de Duque de Caxias, perderam mais do que fantasias e carros alegóricos. Perderam o trabalho árduo de muita gente, que dedicou seu tempo e sua disposição para ver sua escola do coração brilhar na Avenida.
Segundo a LIESA, não haverá rebaixamento na disputa de 2011, já marcada como uma das mais tristes da história. E, neste momento, a união de todas as outras agremiações é fundamental Paulo Barros, carnavalesco da atual campeã, Unidos da Tijuca, Anísio Abraão David, presidente da Beija-Flor de Nilópolis, e a presidente do Salgueiro, Regina Celi, já mostraram que estarão abertas a qualquer tipo de suporte às escolas atingidas pelo fogo. “Vamos ajudar com o que puder, fantasias, carros alegóricos, até presidente, se puder”, é o que diz Regina Celi. Exemplo que, com certeza, será seguido por todas as outras agremiações que, de certa forma, também sofrem com essa tragédia.
Sofrem, pois foi um revés contra o samba, contra o carnaval, o maior bem cultural desse povo, dessa terra que vem estampando jornais com notícias feias, e que vêem no carnaval uma chance de comemorar, de ser feliz. Infelizmente, fatalidades como essas não escolhem hora nem lugar para acontecerem. As causas do incêndio ainda não foram apuradas, é cedo, a perícia deve demorar semanas. Porém, neste momento, o que nos resta fazer é torcer para que União da Ilha, Portela e Grande Rio – a escola mais atingida, com quase 100% das fantasias e dos carros alegóricos destruídos, um prejuízo de, aproximadamente, 6 milhões – consigam honrar suas tradições e as pessoas que lutaram para colocá-las no teatro do carnaval nacional.
Mas não há dor inacabável, nem prejuízos irreparáveis. Nenhuma vida foi perdida, felizmente. O que o fogo levou foi material, que se refaz, com esforço e dedicação, que todos nós sabemos que não falta aos brasileiros de Caxias, Madureira e Ilha do Governador. O Presidente da União, Ney Filardes, disse que a escola irá desfilar “nem que seja de shorts e camiseta”. Eles irão começar do zero, e esse deve ser o espírito: superação. Que a dor desses trabalhadores, dessas comunidades, se canalize em esforço para reerguer os patrimônios perdidos. Amanhã é um novo começo para essas escolas, que se reerguerão.  O fogo destruiu plumas, paetês, alegorias. Mas nunca queimará a força de quem vive de levar alegrias ao povo brasileiro. Nunca queimará a força do samba.


Foto: RAFAEL ANDRADE/FOLHAPRESS

Fontes: G1


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Meu presente, seu presente

Nesse mês de fevereiro, o Etc&tal completará 2 ANOS e, para comemorar, eu fiz esse vídeo. Na verdade, uma homenagem a vocês, seguidores, amigos e leitores, que ajudam a construir esse blog, dia após dia, texto após texto. Foram 8 horas desde a criação, passando pela produção - busca de imagens em posts antigos, os nomes de todos os 70 seguidores, edição de texto -, até que aqui está o resultado. Espero que todos gostem do presente que eu faço questão de dar a todos vocês, que curtem o Etc&tal!



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A vela


A
li, no fundo deste negro buraco negro, bem no canto dos renegados, próximo à porta da morte, havia uma vela. Esta vela, que parecia nunca ter fim, de tão pequena nem de longe poderia simbolizar a eternidade. Tão pequena, tão efêmera. Não seria nada, a não ser por um detalhe. Detalhe amarelado, quente, luminoso. A chama. Acesa, vibrante, o sopro de vida, tão destoante daquela tristeza maior que o próprio mundo.
A vela iluminava, inebriava, trazia consigo a esperança de que, um dia, tudo aquilo fosse claridade, a esperança de um dia aquela chama ser apenas mais um ponto de luz em meio ao ofuscante sol nascente, que nasce aqui, nasce acolá. Mas nunca morre. Com este fogo. Fogo. Que queima por um combustível que sabe Deus qual é. Pode ser desejo, pode ser saudade. Pode ser até felicidade. Gasolina aditivada, querosene do amor. Essa vela, mesmo sem ser lamparina, continua acesa por bem mais do que apenas parafina.
A vela branca, que pode ser azul, preta, amarela, da cor do momento. Ela ilumina cantos, ilumina almas. As arestas da nossa existência, por completo, estão sob o clarão incessante de uma simples, não tão simples, vela acesa. Não tão simples? Ora, e quem é capaz de compreender, além da física, o motivo deste bastão de cera flamejante nunca se apagar, apesar de tudo? Quem quer descobrir? O que move as montanhas é uma força estranha, que conhecemos bem demais. É a persistência, que muitos conhecem como obstinação, vontade, entrega. O que mantém a chama acesa... Pode ser isso. Tudo, mais um pouco, muito mais, ou algo assim. Sim.
Clima quente, rajadas de vento, frio siberiano, tanto faz. Uma boa chama não depende de temperatura, muito menos de variáveis. O fogo é variável. Bendito seja o fogo, culpado pela sobrevivência de muitos, desistentes, impotentes. Descrentes. Essa vela, tão maravilhosa, constrói e segura o calor que o sangue às vezes não pode dar. Uma vela que salva vidas. Basta acender e, pronto, iluminados nos tornamos. Entretanto, a vela já vem acesa. O primeiro choro, a primeira respiração, é a faísca prima, a que acende o pavio. Se venta, somos as mãos que a protegem. Se chove, somos os que livram o fogo do frio. Se está escuro, somos nós que a usamos como guia.
Ali, no fundo deste negro buraco negro, bem no canto dos renegados, próximo à porta da morte, havia uma vela. Ainda há. Só que agora a luz parece mais intensa, como se o buraco negro não fosse mais tão negro, o fundo do poço não era mais tão fundo. A vela sustentou tudo isso. Verdadeira labareda em forma de chama curta, de uma cera que jamais se esgotará. Se ela virar um incêndio, que se deixe queimar! Se queimar, que vire cinzas! Se do pó viemos, um dia até ele voltaremos. Indo, vindo, chegando, voltando... Sempre, sempre, quando alguém olhar para aquele mesmo lugar, daquela mesma suposta escuridão, encontrará o fio de futuro, a luz do amanhã. Encontrará uma vela.