domingo, 23 de janeiro de 2011

Minha vez

S
abe, eu estive pensando muito nesses dias. Pensei no quanto nós nos entendemos, no quanto é bom estar com você. Naqueles momentos que, propositalmente casuais, se transformam em tudo, em amor. Os minutos que viram meses, os limites que nos tiram do chão, o calor do medo, do erro, dos corpos. Quando nossos olhos se encontram, meu bem, o resto é apenas resto. Apenas nada. Eu estive pensando nos nossos encontros, no quanto eles revigoram, estimulam. É, eu pensei em como é bom estar com você.
Porém, amor, eu pensei mais. Pensei em mim. Como eu estou me destruindo! Esse mesmo segredo que me enche de vida, me corrói por dentro. Esta certa incerteza, presente entre nós desde o início, e que um dia foi o adubo da nossa relação, não me satisfaz como antes. Eu descobri que tenho necessidades, que eu faço planos, por mais que sejam escondidos. Escondidos como nós dois. Eu acho que agora eu começo, pela primeira vez, a pensar em mim.
Quando nos conhecemos, eu sempre soube do meu espaço, e sabia que ele estaria ali, dentro de você, independente de qualquer coisa. Jovens, nosso ímpeto ia muito além de qualquer papel assinado, quaisquer alianças. A nossa aliança era bem mais forte. Me bastava te ter nos momentos que, raros, se tornavam eternos. Alimentavam uma saudade imensa, e a próxima vez sempre seria melhor. Eu fui abrindo mão, sem perceber, sem querer ver, da minha própria vida. Você foi meu primeiro plano, meu sonho secreto, meu perigo mais valioso.
Eu sempre te esperei, eu sempre suportei. Os atrasos, os encontros cancelados, sempre pelo mesmo motivo, tudo isso eu engolia, com a justificativa de que, no dia seguinte, eu seria recompensado. Perdi a conta de quantas noites sem você eu perdi, pensando em você, em vocês. Eu me sentia pior do que ele, se descobrisse. Ah, amor! Como eu me torturei ao imaginar que os seus beijos não eram meus por inteiro. Você não era minha por inteiro. Então, eu resolvi ser um pouco mais meu, para o bem de nós dois.
Chega! Agora é a minha vez de dar as cartas. Me perdoe a indelicadeza, meu amor, mas eu só quero ser mais do que você precisa. Não deixe que eu pense que sou uma diversão, não deixe que eu subestime meu coração. Não, nem de longe estou reclamando, cuspindo no melhor prato da minha vida. O que temos ainda é precioso. Meu espaço no seu coração continua lá; ele só está ficando pequeno, para tanto sentimento. Não quero me afastar, muito menos te esquecer. Eu só quero sair dos bastidores da sua vida, e ser protagonista da sua história. Aumente o cartaz da nossa peça.
Eu não acho que isto é pedir demais, não. Demais é tudo aquilo que eu suportei, única e simplesmente por amor a você. Por acreditar em você. Eu acredito que um dia você vai me assumir como seu. Só peço que seja agora. Por mais gostoso, delirante, excitante que seja a sensação de pecado, de coisa errada, como crianças levadas que aprontam com medo de serem pegos, eu não me vejo mais assim. Eu cresci. Por isso, por tudo o que nós dois vivemos, eu te peço: me deixe ser a sua vida. Se vai perder a graça? Duvido muito. Temos muita lenha para queimar. Se vai ser melhor? Que o tempo diga. Se vão falar. Deixe! Encare, me encare, não pare. O mundo pode ser mais nosso, meu bem. Basta você querer.

De: Frejat/Leoni
Por: Leoni

Um comentário:

Isabelle disse...

Uau, esse texto de início parecia uma despedida,
me pareceu tão curioso que não pude deixar de ler até o fim.
Muito bom.
bjs