quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Chove

São cinco da tarde, e Belém abre seus braços para a chuva que banha esta terra todo dia, o dia todo. Uma terra abençoada, que vive intensamente cada gota que precipita, inundando nosso olhar. Lágrimas. Suor. Emoção. Viver em Belém do Pará é simplesmente viver tudo o que há. Uma selva de pedra dentro da selva de folhas, onde os galhos são feitos de ferro e a água banha corações. Uma cidade verde. E amarela. E vermelha. Branca, preta.
Uma cidade de todos. Cosmopolita, é capaz de unir como ninguém todos os sons, todos os estilos. A cena roqueira é agitadíssima, empolgante, conhecida. Nossa MPP (Música Popular Paraense), que alguns chamam de melody, outros chamam de carimbó. O que é a nossa música? A resposta é, justamente, não ter resposta. O som que chove. Os sabores que chovem. É uma mistura das mais deliciosas, desde o verde forte da maniçoba e do calor amarelado de um bom tacacá, até o cupuaçu do sorvete, a graviola do suco. Por falar em suco... Você pode até não gostar, mas admita: aqui em Belém o roxo dos dentes cai dos açaizeiros. Cai feito manga, mesmo destruindo carros, faz a alegria de um verdadeiro papa-chibé.
Ainda chove em Belém. É tempo DELA, como nós dizemos por aqui. Tempo. Olhando para o Guajará, do Mangal, da Estação, do Ver-O-Peso, esse tempo faz questão de passar tranqüilo, sereno, contemplador. As águas que das nuvens caem viram um tapete barrento, trazendo consigo um vento quente, quente como todos nós que por aqui aproveitamos o dom da vida. Apenas admirando. Nos admirando com tamanha beleza. Não são poucos os cenários que prendem nosso olhar a cada gota de chuva, a cada pingo de luz. A nossa noite é iluminada. Para todos os gostos, como um sol que faz questão de brilhar sem preconceitos. Como estrelas que não caem.
Estrelas que parecem mais brilhantes quando a vida faz nascer o mês de outubro. É chegada a hora da chuva de prata, de papel, de pedidos, de bênçãos. É a vez de brilhar soberana uma Estrela, a nossa Estrela, que conduz um rio, um mar, como a correnteza que vai, que volta, que fica. Fica na memória, no coração. Cidade de fazer amores, de conquistar valores. Belém é a chuva perfeita para esquentar alguém. Aqui os corações pulsam, os sentimentos afloram, com direito a sinos da Catedral e periquitos na Basílica.
Se Belém é uma cidade perfeita, talvez não seja. Ou será que nós devemos ser a perfeição que queremos ostentar? Eu sei que, apesar de qualquer problema, diga-se de passagem, comum a todo o Brasil, nós estamos bem servidos. Somos diariamente encharcados por tanta variedade. Música que não acaba mais, delícias que só a Amazônia tem, um clima que todos reclamam sem deixar de adorar. Belém é mais do que um lugar para morar. Belém, uma cidade para olhar, uma cidade para preservar. Uma cidade para amar.

Foto: NEY MARCONDES


Um comentário:

Jéssica Luz' disse...

Me 'arrupiei'...

Hehe! =D