terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Bola de cristal


“Boa tarde! Sente-se aqui, fique tranqüilo. Antes de mais nada eu quero deixar claro que, se você não quiser acreditar no que eu lhe direi, a escolha é sua. Se você estiver pronto e quiser mesmo saber o que o futuro lhe reserva, vamos começar, tudo bem?

Bom, já que é assim, deixa eu ver aqui o que a bola de cristal irá me mostrar... Nossa! Meu querido, o seu ano vai ser daqueles. Começando bem do começo. 

Virada. Nem bem começará e você terá gratas surpresas. Um emprego. Sim, um emprego, que tal? Muito bom, uma oportunidade de aprender muito, conhecer pessoas, ser profissional de verdade. Você dará aulas... Aulas de inglês. Isso! Alunos sortudos você terá, hein! Mas você ganhará mais que todos. O que eu não posso garantir é que esse momento durará bastante. Há um conflito, a sua carreira não é essa.

Essa outra linha, essa sim é a sua rota. Você fez vestibular? Então prepare-se para a maior alegria de sua vida. É, meu caro, finalmente os astros lhe colocarão no seu devido lugar. Jornalista, mensageiro, como bom geminiano. Suas letras estarão a serviço do povo. Quanto à Universidade, será uma nova casa. Acolhedora, aconchegante, um lugar que você nunca esquecerá. Até porque os seus novos amigos não o deixarão. 

Presentes. Eles serão, vocês serão. Lidar com as diferenças? Você tira de letra, ou de Letras. As experiências que este ano proporcionará, na Academia, serão únicas. Portas se abrirão, você entrevistará, será entrevistado, reconhecido. Seus trabalhos, muitos trabalhos, valerão à pena. E sabe o jornal da noite? Você irá assistir, ao vivo, do estúdio. Imagina só!

Espere!  Vejo instabilidades, talvez rupturas. Seu coração tem dona hoje, mas eu não vejo apenas flores. Me desculpe, não quero agourar sua relação, tão nova, mas ela será passageira. O limite está mais próximo do que vocês imaginam. As coisas passam, pessoas vêm e vão. Este pode ser o ano das renovações. Ano de decisões. Não prospecto só tristeza, outros olhos cruzarão com os seus, um novo sorriso, uma nova paixão. Vidas que se afastam e se unem, força dos astros. 

Sua família terá um ano tranqüilo, mas certifique-se de que a saúde de todos estará em dia. Previna-se de sustos, cuide-se. Seus parentes mais próximos, olhe por eles. O cristal não me revela grandes sustos, entretanto, haverá um momento de tensão.  Dinheiro não será problema, vocês estão seguros. 

Neste ano que vai chegar, você viverá intensamente, momentos de extrema alegria. Seja sozinho, seja com amigos, com a família. Momentos únicos, inesperados, não planejados. Uma palavra: improviso. Os minutos mais bonitos serão os mais aleatórios. Vejo luzes, cores, alegrias. Mesmo com derrotas, você aprenderá e crescerá. Olha, o ano que vem será um turbilhão de emoções diferentes pra você. Se prepare, pois a bola de cristal não mente jamais. 

A consulta custa 200 reais, tá? Feliz 2011 pra você também.” 

IMAGEM: http://www.rac.com.br/blog/admin/imagens/13112009194449.jpg
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Aos leitores do Etc, de qualquer um dos 100 posts desse ano , muito obrigado. Que a gente volte a se encontrar em 2012, até dezembro, quando possamos olhar pra trás e ver quais previsões se concretizaram. Até o ano que vem.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A árvore


Desencaixo, abro sacolas, arrumo a sala, monto minha árvore. Dezembro, hora de repensar na decoração da casa e no ano que acabou. Será que fomos crianças comportadas, que merecemos os presentes que pedimos? Será que Papai Noel vai ver nossas meias na janela? O que será que eu fiz? Por via das dúvidas, deixa eu criar meu mundo de plástico, cores e fantasia natalina, para meus olhos levarem um pouco de paz ao meu espírito. Sempre funciona.

Então, eu começo a enfeitar a minha pequena árvore de Natal. Nela, eu penduro um relógio, pra nunca esquecer que o tempo não pára, ou pra pedir que ele corra devagar nos momentos felizes que virão. Os minutos mais difíceis, que eu aprenda com eles, mesmo sendo dolorosos. As horas alegres, que eu compartilhe com aqueles que me querem bem. Que eu conte meus dias a partir de um sorriso, que o despertador não se atrase, não me atrase, e que eu saiba usar esse tempo a meu favor.

Eu também penduro uma clave de sol, para que a trilha sonora dos próximos meses seja a mais bela possível. Sejam gritos de exaltação, sejam soluços de um choro incontido, até mesmo o silêncio. As batidas de um coração, o acelerar de uma emoção, as notas de uma sinfonia que eu só posso compor para alguém ouvir. Nem que seja apenas eu. Que a minha voz ecoe quando necessário, que eu me cale na hora certa.

Na minha árvore, fotos da família, de amigos, de ídolos. Os três podem ser um só. Fotos, pra eu nunca esquecer de quem me dá apoio, carinho, vida. Mesmo os que me criticam, que eu saiba recebê-los, guardando o que puder de bom. Olhar nos olhos das pessoas mais queridas, ver nestes olhos uma solução, uma chance, ou apenas um abrigo. Fotos para saber que, a qualquer hora, eu posso precisar deles. E que eles também saibam que podem precisar de mim. Imagens que me façam olhar para trás e sorrir, por não estar desamparado.

Ah, quase me esqueço. Faltam espelhos. Espelhos, para que eu saiba quem sou, para que eu possa tirar um minuto que seja, só para olhar nos meus próprios olhos. Eu tenho que saber meus limites, tenho que saber quem sou. De preferência, nunca esquecer disso. Quero ver a gana no meu rosto, quero ter suor escorrendo pela minha testa, quero ver o sangue das minhas veias, pulsando, funcionando. Se um dia, por algum motivo, eu pensar que sou outro, que eu volte e me olhe novamente.  Espelhos que reflitam meus desejos em mim.

Para terminar, luzes. Muitas luzes, de estrelas incandescentes, que me cerquem, me guiem. Luzes para mais uma caminhada. Luzes que brilhem em meus olhos, luzes fortes, de cada mão estendida, de cada abraço sincero, de cada beijo de amor. Um ano iluminado, nos estudos, na carreira, na família. Um ano iluminado, ao seu tempo, com a sua trilha, suas lembranças, seus reflexos e reflexões. Um ano de luz.

IMAGEM: http://scienceblogs.com.br/100nexos/files/2011/08/arvore_natal_universo.jpg

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Com este texto, eu desejo a todos os leitores do Etc um Natal mais do que iluminado. Que suas árvores simbolizem seus desejos de prosperidade, de sucesso, de um futuro sempre melhor do que o presente. É essa a nossa maior dádiva: nunca deixar de acreditar. Feliz Natal a todos vocês!




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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pelos corredores



Um ano. Quantos, como esse, tão esperados?

Em janeiro, surpresa. Fevereiro, recomeço. Hoje, em dezembro, qual o saldo de tanta muvuca?

Pelos corredores amarelos da vida nova, novos nomes pra gravar, novos rostos pra recordar, novas vozes pra guardar. Mais motivos pro amanhã, desmotivos pro depois de amanhã. Entre siglas, atalhos e artigos, salvaram-se todos.

Todos quem? Aqueles filhotes do início, tímidos, receosos ao primeiro toque? Cresceram, ganharam asas, voz e, alguns deles, apelidos. De animais a animais, quantas alcunhas pra tão poucos. Multiplicados, lotando, empatando.

Lembra daquele receio? Ficou lá atrás, bem longe do colchão verde, do sofá preto... Nosso lar.

Balaio guamaense, jurunense, pedreirense, belenense. Salve simpatia! Inteligentes, espertos, risonhos (estranhamente risonhos), falastrões, comunicadores. Desse meio, botamos a mão e tiramos a sorte grande. Encontramos pares, opostos, de tudo um pouco.

Diferentes? Sim, e muito. Sem lugar pra preconceitos. Singulares e plurais, gordos ou magros, presentes ou ausentes. O tempo que passou era raro, bem sorrateiro acabava, e lá se acabava mais um dia. Calma, as manhãs voltavam rápido.

 Aliás, que tempo? Aquele que nos faltou, na véspera dos seminários? Ou aquele que sempre sobrava, no Centro Acadêmico, sagrado recanto dos egressos do almoço? De sala, ganhou vida, as nossas vidas. Muito prazer, Caco!

Reuniões, festas, reuniões, aulas, trabalhos, reuniões, formatura, festas, garrafas, reuniões, sufoco, pautas, reuniões... Professores, um caso a parte. Amor? Ódio? E agora? Lágrimas, dramalhões, piadas sem sucesso e, de repente, fim de semestre, já pode respirar.

Veteranos. Que trote, que nada! Somos e seremos bem recebidos todos os dias, por pessoas que tinham de tudo pra nem nos olhar. Onde já se viu, ser babá de calouro? Onde? Aqui. Não é bajulação, é afeto, é prazer gratuito de estar perto. Obrigado, obrigado!

Colegas. Afinidades, inimizades, abraços, gritos, tudo o que uma boa turma deve ter. Racha aqui, conserta acolá. Uma instituição, uma #Família muito unida e muito ouriçada. Você, você e você, venham comigo, sigam na minha vida. Você, você, fiquem por aqui.  Galera, como esquecer de vocês?

Calouros. Aguardem.

É fim de ano, o último trabalho foi apresentado, a última resenha entregue, a última aula encerrada. A cortina vai descendo, hora de dar até logo. Hora de agradecer pelo amigo, de pedir desculpas pelo erro, de respirar.

Férias!

Por aqueles corredores, andando naquela beira de rio, futuros se desenham, laços se formam, com ou sem aulas. Os reencontros vão além, muito além de reles razões acadêmicas. Saudade? Tá, vai rolar, e muita. Mas daqui a pouco já tá todo mundo se vendo, se aturando e se abraçando, pra falar alto e encher o Caco. Vai começar tudo de novo...

Até logo, Família!

Foto: Gustavo Ferreira

domingo, 18 de dezembro de 2011

Um menino chamado Jesus


Era uma vez, em um lugar muito distante do sertão, uma família humilde. Um homem sofrido, que trazia nas mãos os calos, e na testa o suor de uma vida dura, sob o sol do Nordeste. Uma mulher guerreira, que sustentou cinco crianças, hoje na capital, e está pronta a dividir o pouco que tem com o mais novo membro da prole.

Em uma noite estrelada, sem pedir licença, a mulher sentiu que era a hora. Com a ajuda do marido e de uma vizinha, senhora simpática, amiga da família, a mãe deu à luz um garoto chorão, cheio de vida. Talvez a última esperança de que alguém daquele solo seco vingue na cidade grande.

Nasceu Jesus. O menino cresceu ali, brincando entre os galhos secos e a terra árida, olhando sempre para o céu sem nuvens, imaginando o que não sabia nominar. Um mundo mais bonito do que a miséria que lhe cercava, e que martirizava aquela gente. Ainda não sabia como, mas já queria fazer mais do que os limites da pobreza lhe impunham. Seus pais ainda trabalhavam, porém sem a disposição de outrora. O tempo fora cruel com os dois.

Até que Jesus cresceu, e quis conhecer a cidade grande. Seu pai, já um velho doente, acamado, lhe chamou um dia e, tocando em sua face, com os olhos cheios de lágrimas, o disse: “Vai, meu filho! Vai e cumpre tua missão”. Jesus também chorou, e abraçou seu velho com a ternura de um filho que se despede do maior exemplo. Foram as últimas palavras de seu pai. Jesus não queria partir, deixando sua mãe sozinha. Ela insistiu:

“Meu filho, você nasceu para fazer os outros enxergarem melhor, enxergarem um mundo mais justo. Seu lugar não é aqui. Vai em paz, vai com Deus, meu pequeno”.

Jesus partiu, prometendo voltar e tirar a mão da miséria do sertão. Chegando na cidade grande, o jovem abrigou-se na casa de uma velha conhecida da família, em um lugarejo bem simples, que sofria com mazelas além da fome e da pobreza. O crime imperava, em todas as suas piores faces. Assaltos, mortes, drogas. A realidade mais crua Jesus conheceu. Triste, comparava a favela ao seu chão natal. Notava que precisava fazer alguma coisa.

Com muito sacrifício, Jesus trabalhou, juntou um dinheiro e estudou. Começou a descobrir um novo mundo, e o seu próprio. Jesus estava munindo-se da arma mais preciosa que alguém pode ter: o conhecimento. Começou a se engajar em mudar a situação daquele lugar. Participava de reuniões, de passeatas, se envolvia de corpo e alma na “missão” que seus pais tanto disseram que ele recebera.

Lutava com unhas, dentes e palavras, contra a insegurança e o medo na favela onde vivia. Lutava. Com o apoio do povo, Jesus reunia muita gente, vítimas do terror cotidiano da violência dominante. Lutavam. Por um dia seguro, por uma vida tranqüila, pela certeza de que voltarão para casa no fim de tarde, após um dia de trabalho. Jesus era líder, era exemplo. E sabia dos riscos que corria. Contava a vida a cada 24 horas.

Um dia, não conseguiu completá-las. Morreu, pelas mãos de um traficante. Morreu, pelas mãos do crime, que tanto tentou combater. Jesus morreu, deixando a lição de que cada um deve fazer a sua parte. O menino pobre do sertão, que venceu na vida através da educação, e deu a vida pelo seu ideal, venceu. Caiu vencedor. O povo da favela nunca mais foi o mesmo. Agora eles têm voz. E um exemplo de superação, de abdicação, de fé.

O corpo foi, as palavras ficaram. Palavras que hoje ecoam, servindo de instrumentos de transformação da humanidade. O mundo é um grande sertão, e a nossa missão é fazer chover. Essa foi a missão de Jesus. Fazer chover bondade sobre todos nós.


IMAGEM: http://www.miniweb.com.br/geografia/Artigos/geo_mundial/imagens/favelas.JPG

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Um dia




Um dia eu volto a te ver,
Bela, envolta no sol matutino.
Entre palmeiras, mangueiras, sabiás,
O sorriso que acolhe o rio-mar,
Sorriso doce, maroto, menino.

Um dia eu volto a te ver,
Sentir o perfume do verde no chão.
As luzes da noite, o calor do dia,
Ah, um tacacá! Como eu queria
Provar, aprovar, me fartar de perfeição.

Um dia eu volto a te ver,
Soltar o brado papa-chibé.
Eu sou do Norte,
Pode vir forte,
Eu tenho raça, eu tenho fé.

Um dia eu volto a te ver,
Olhar, tocar, ouvir.
Sou refém da saudade feroz,
Lá fora o frio embarga a minha voz,
Junto com lágrimas de Patchouli.

Um dia eu volto a te ver,
Úmida, sob nuvens de encanto,
Recebendo a chuva sagrada, 
Com e sem hora marcada.
Dos periquitos, o canto.

Um dia eu volto a te ver,
Cidade onde está sempre tudo bem.
Longe eu sofro de pensar
Na maravilha que é estar
Na minha bela Belém.


IMAGEM: http://www.ifmsabrazil.org/Resources/Pictures/belem.jpg

sábado, 10 de dezembro de 2011

Recauchutagem


Mudança. Alguns tremem só de ouvir esta palavra. Outros aguardam por ela ansiosamente, como quem dela precisa para viver. Sim, às vezes é muito complicado querer outra coisa, quando o que lhe enche as mãos é tão gratificante, tão especial. O certo pelo duvidoso assusta. Acreditar no fim de tudo, mais ainda. O fato é: inevitavelmente, tudo muda. E o legal disso tudo é que, quase sempre, somos nós mesmos que decidimos o quê e quando isso irá acontecer.

Você nasce pequenino, cresce, ganha pelos, secreção, hormônios, isso é biológico. Fisicamente, só se nos mutilarmos (e eu incluo as cirurgias plásticas na categoria de mutilação) deliberadamente, para que haja alterações. Cabeça, meus caros, é por nossa conta. A nossa vida também. Grande é aquele que aceita sua condição volátil, pois sofre o menos possível quando precisa passar adiante.

O próximo passo, ah, o próximo passo! Como é complicado sair de um chão firme, rumo ao desconhecido. Dá um certo medo, até para os mais desbravadores. Curiosos, eternamente, nômades de espírito, incontroláveis por muito tempo. Tudo é novo para eles. Mudar é premissa, não necessidade. Guardadas as (não raras) exceções de quem exagera neste joguinho, e cansa rápido demais da brincadeira, a maioria entende que a vida é uma oficina.

Somos as máquinas. Envelhecemos, e precisamos de uma revisão, com o prazo que você mesmo estipula. Como identificar esse prazo? Basta se olhar no espelho, e responder a simples pergunta: “tá bom assim?”. Qualquer manifestação, como um franzir de testa, é sinal de que, ao menos, já se deve tentar mover uns pauzinhos, trocar o óleo, mexer na lataria, fazer um check up. Recauchutar.

Parados não podemos ficar. Inoperância, excesso de esperança. Se Gandhi disse que nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo, acreditem, ele tem razão. O que custa arriscar, buscar mais do que se tem? Pode custar uma amizade aqui, um amor acolá, mas quem sabe procurar, nunca ficará sozinho. O que você quer está ali, sempre está. O mais difícil não é achar. É o correr atrás.

Não consegue mudar? Acontece. O passado, e até mesmo o presente, podem te acorrentar a mesmice de uma rotina degradante. Os medos, as dúvidas, as pessoas de um hoje, por mais chato, por pior que ele seja, ainda têm o poder de empatar a evolução natural. Mas aí sempre chove, uma onda passa e leva, te leva, ao próximo porto. Naquela hora de pegar a estrada, muitos levam uma mala cheia de recordações, cheia de sua própria vida. O problema é quando a mala é pesada demais, até para a força do seu ímpeto.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

No fim do corredor


Mistério. Eterno enigma cor de mel, viço infinito, sabor de perdição, terra molhada, estrada sem fim. Retratos impossíveis, memórias apenas memórias, que desenham nas retinas o passado quente, recente, presente de um beijo. Saliva agridoce, entorpece e fecha os olhos da razão, cegueira noturna, sentidos aguçados. Funcionamos assim, no tato, no faro do sangue, no cheiro da pele.

Duas vidas comuns, dois manequins da nobre sociedade, mais castos do que o próprio Papa, no auge de sua castidade. Ele, ela, cela, ela dele, ele dela. Na infância, os primeiros toques. Descobrindo a libido sob escadas, em porões, no fim de longos e sombrios corredores. Brincadeiras de criança. Quem nunca?

Eles, presos em um só, beijavam perigo, transavam prazer. É como se não houvesse tempo, e ao mesmo tempo ele havia de estar ali, controlando, apertando, aumentando a aura de desejo. Adrenalina que move o sangue, um que move o outro, no compasso de uma sinfonia pesada, certamente exagerada. Nitrogênio líquido em uma cápsula de Cogumelo do Sol. Discreta, explosiva. Um movimento errado e tudo ia pelos ares.

Calculistas e arquitetos, sempre usaram o segredo como suas maiores armas. Com o passar dos anos, duas famílias, dois destinos, uma sina. Contínuos, inconstantes, apenas estavam juntos. Quem mais precisa saber? A esposa, o marido? Filhos? Jogar uma família no ralo, por quê? Por terem descoberto uma verdade de apenas duas pessoas?

Livre arbítrio. Alianças inúteis, uma certidão de papel bonito, feito pra estragar uma relação tosca, primária, primitiva. Casamento, uma construção pra desconstruir. Se há amor, não sei. Eles não sabem. Enrubescidos, talvez excesso ou ausência de respostas, excesso de privacidade. Não nasceram para o mandamento. Suas vidas são aladas, suas asas presas. O destino disse para ficarem juntos. Tão obedientes!





Universo paralelo, a libertação da rotina, sem virar rotina. De novo crianças, de novo e todo dia. Redescobertas, revivendo aventuras, traquinagens explicadas com um sorriso sacana, semblante de criança levada. Filhos órfãos de juízo, construíram sua própria lei. O que vale é o cafuné depois do sexo, é acender o cigarro do outro, é se sentir útil. Sentir. Os valores da sociedade engessada não os prendem, apenas os libertam. Os outros são inferno.  Vamos voltar ao nosso ninho, atrás das colunas da fidelidade, no fim do corredor da hipocrisia.  Lá é breu, lá podemos ser nós mesmos.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Tim tim




Essas festas da high society... Todos se preparam com semanas de antecedência, esperando mais uma “noite do ano” na cidade. Ser convidado é honra, fazer parte é luxo. Quem gostaria de perder um evento de tamanho garbo, com gente bonita e elegante. Com seus ternos e vestidos alugados, os presentes trazem no linguajar um refino admirável, e capricham na finesse. Salve simpatia!

Chegam ao salão de recepções como se estivessem no Kodak Theatre. Seguranças por todo o lado, cerimonialistas, boa noite, boa noite. Câmeras, fotos, vídeos, seus primeiros passos registrados para sempre. Afinal, você é um dos poucos homenageados com o convite, com a chance de estar lá. Você é a elite. Sinta o gosto, seja leve e sorria. Não pergunte nada. Apenas sorria.

A aniversariante lhe aguarda, ao lado da família, orgulhosa pela grande festa. Quem disse que ela precisa saber quem você é? O inverso também se aplica. Ora, de quantos dali você realmente se lembra? Não interessa. Fale com todo mundo, seja polido, finja ser popular, faça o outro pensar o mesmo. Aliás, nada mais apropriado para uma ocasião como essas do que parecer qualquer coisa.

Requinte é isso! Aqueles mesmos quitutes regados a muito refrigerante de segunda e molho rosé. Como dispensar o camarão empanado, o rissole de carne e aqueles canapés azedinhos. Confesso que dá vontade de levar muitos para casa, e que até acho fazer parte do jogo levá-los. Na bolsa da mãe, nos bolsos do paletó, um rega-bofes de primeira. Bebidas variadas, tios variados.

A música é um caso a parte. Festa jovem,com hits anacrônicos, de cinco anos atrás. Parece que você voltou uns cinco anos no tempo, e voltou a curtir músicas do tempo em que você era jovem. Mas todos dançam, curtem, se jogam na pista de dança. Inclusive seus pais. ABBA, Bee Gees e Gloria Gaynor fazem a festa dos mais velhos, enquanto os seus rebentos exercitam seus dotes de sedução pré-adolescente na boate, obviamente longe de papai e mamãe, que nem devem estar ligando tanto assim para eles.

O tempo passa, a valsa termina. Os meninos, os padrinhos, a chuva de emoções engarrafadas de quem vê mais do mesmo. Mas depois das homenagens mil, cafonices e máscaras são deixadas sobre a mesa. Sirvam-se! Damas da alta sociedade se transformam em leoas famintas, enquanto os homens constroem prédios de filé e fagia nos pratos rasos da infâmia. Comem, se empapuçam com tanta fartura. Falta verdade na compostura artificial de quem só quer se fartar com tanta comida boa.

E depois de tanto agito, entrando pela madrugada, cercada de estrelas, flashes e encenações, é hora de ir. Depois de sentir o aroma entorpecente da burguesia elitista, tão perto e tão longe, você volta para sua casa, como se nada tivesse acontecido. Na segunda-feira, você devolve as roupas alugadas, olhará as fotos da festa com certa nostalgia, e só. Na terça-feira, você já esqueceu. E tudo volta a ser a sua vida de antes. Um brinde à realidade!


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domingo, 27 de novembro de 2011

Diacronia


De repente, uma vontade incontrolável. Os dois começam a se trocar, os beijos fervem, a saliva banha os corpos de feitiço e pecado. Doce pecado! Se há público, adeus. Mãos, dedos, desejos, tudo misturado em um só caldeirão. Caldeirão das descobertas, do aprendizado, da pedagogia mais sacana. Eles entram sem fazer barulho, gritando por dentro, medindo os passos na escada por fora. Entram no quarto. Chega de pudor! Arrancam as roupas feito papel, tiram a camisinha da gaveta e se deliciam no outro, se bebem, manjar. A transa da vida, que sempre se repete. Joga emoção, medo, tesão, cabum!!!!! Nada de gritos! O papai pode acordar!

De repente, as pernas se roçam sob a mesa. Os olhos incandescem, um código que só eles entendem. A vontade súbita de ir ao banheiro, de ir ali fora, de sair dali. Pronto, inventam uma história e entram no carro. Ele dirige, ela dirige. Guiando o carro e as coxas, chegam ardendo ao apê. Abre a porta. Fecha. Agora o mundo é deles. Vestido no chão da sala, camisa na maçaneta, hormônios por todo o canto. Tudo vira cama, a cama vira de cabeça pra baixo. Eles vêm, vão, vêm, vão, não para. Pra quê parar?

De repente, alianças. Deus já deu a permissão. Reproduzam, filhos meus! Eles obedecem, ora! Muito pano entre os dois, a cor nem tranqüiliza. A noiva pede uns minutos, pro noivo, uma eternidade. Abre-se a porta do paraíso, o que no mundo real chamamos de porta do banheiro. Ele, bela, fera, linda envolta nos panos leves de amor e respeito. Ele aguarda, a recebe, a possui. Com todos os requintes de beleza, o momento pede. Uma hora as pétalas de rosa ficam de lado, e o mel escorre pelos dois, lambuzados. Lua, banha esse embrião de família, doce quanto a luxúria.

De repente, De repente, um bercinho ao lado, um berro. Sim, crianças choram, bebês choram muito. Hora de nanar. Lá vai a mãe, segurar no colo o tesourinho. Dá de mamar, canta pra ele dormir. Algum tempo depois, um anjinho. São duas da madrugada, os pais pedem arrego. Hora do recreio pra eles! Papai, mamãe... Tempo pra criar sempre há, mas rotina pra atrapalhar também há. Quase sempre vence. O jeito é brincar de pira-se esconde nos lençóis, sem gritar. Escondidos, adolescentes outra vez, se tocam, se beijam, se fundem. Nada de gritos!!! O bebê pode acordar!



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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobe som




Se você está sem sono, num sábado à noite, preso em casa, sem saco pra internet ou TV, e resolverem ligar o rádio (hipótese quase extinta ultimamente), com certeza irá escutar algum verso de “Every Breath You Take”, ou o refrão de “Careless Whispers”. Você chora.

Se você acabou de passar no vestibular, depois de muito esforço, abdicação e preces poderosas, sempre aparece alguém que bota a vitrola pra tocar. Pinducão começa a cantar aquelas palavras mágicas. Você chora.

Se você está estressado com a vida, acabou de levar um zero na prova de Física, e ainda vai de busão lotado pra casa, ao subir você se depara com um indivíduo que não deveria estar neste mundo, ouvindo Vetron no talo. Você chora. Ou mata (nem que seja você mesmo).

É, quase sempre algo marcante na sua vida tem uma trilha sonora. E eu acho que precisa, pois ela nos transporta de volta ao passado, bom ou ruim, do nada, basta que a música toque em alguma rádio de músicas velhas, ou de hits da estação passada. Claro que, em uma dessas, você não está preparado pra reviver alguma coisa, e chora, grita, pula, tenta o suicídio, e por aí vai.

Chega a ser óbvia a relação dos sons com os nossos sentimentos. Mesmo sem querer, a música entra nas nossas cabeças, associadas a recortes felizes (ou não) da nossa história. Sem perceber, seu primeiro beijo pode ser embalado por uma canção do Rei, ou um forrozão do Aviões, e a culpa nem é sua. Você nem queria uma trilha para aquele reencontro com os velhos amigos, mas um carro de som na rua pode fazer o serviço.

Outro detalhe: não se martirize se você não tira aquele funk da cabeça, mesmo que você odeie. O armazenamento não é seletivo, e não faz juízo de gosto. Gruda. Acabamos nos tornando vítimas, reféns de uma canção odiosa para nós, só por calhar com algo entranhado nas nossas lembranças.

Somos guiados pelos sons, nem que sejam os da natureza. A chuva caindo, o vento no rosto, o sorriso de um bebê, o mais inocente, espontâneo. E as palavras? As palavras de despedida, um discurso em sua homenagem, o “eu te amo”, que hoje anda tão banal e sem valor. Ouvir mais o outro. Talvez seja o que anda faltando. Quanta incompreensão! É mais fácil escutar o que queremos, tanto que o necessário não entra, o orgulho não deixa. Ouvidos demais, cabeça de menos.

Não importa quantos decibéis, nem se incomoda ou não o outro. Se te marcou, é porque estas notas ecoaram o suficiente. Sejam quais forem.


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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os outros




Olha lá, gente! Isso, olhem! Guardem todas as suas palavras, seus julgamentos todos para os dois. O mais novo casal da escola. Como eles são bonitos, como eles combinam. Que lindos! Uma vida perfeita, sem nenhum problema, afinal de contas, apenas eu sofro, e todo mundo sabe. Eu fiz questão de esconder?

É, gente, vejam isso! O destino é irônico demais. Eu erro, enfio os pés pelas mãos, viro o assunto do momento, quero me enterrar no chão, ou melhor, quero mostrar que estou bem, e justamente agora parece que eu ganhei da vida uma chance de sair dos holofotes. Tudo o que eu quero, preservar minha imagem da visão sentenciosa dos outros, já que não consigo salvar minha reputação de mim mesmo.

Olhem pra eles dois agora! Felizes, feitos um para o outro. Infelizes! Não, eles não podiam, eles não tinham o direito de pisar em mim, como se eu merecesse ser punida pelas burradas que cometi. Mas, já que agora eles são O Casal, nada mais justo do que ganharem a atenção exclusiva da imprensa marrom que cerca a minha vida.

Não olhem mais pra mim! Sei que é sádico pensar nisso, e também pode ser divertido demais. Cutucar o passado alheio dói tão menos, se dói, do que fazer isso com a gente mesmo. Não custa nada colocar lenha, acender a fogueira e queimar a grama verde do vizinho. Eu não consigo acertar com quem devo, não sei lidar com meus próprios sentimentos? Então me deixem brincar um pouquinho, vai.

Comentem, falem, espalhem isso! São eles que devem ter discrição. Eu não ganho nada com isso, só perco. A chance de ter um assunto na roda de amigos, que não seja você, é bem mais instigante. Perder minutos preciosos falando do outro, tentando destruir a estabilidade que tanto invejo, que não consigo criar, destilar o veneno reverso da minha infantilidade, tudo isso me alimenta.

Não é legal olhar pra eles? Diz a verdade, será que há passatempo mais divertido do que espalhar a intriga, jogar no ventilador o que nem existe, trazer pessoas e sentimentos a um ringue imaginário de puro entretenimento gratuito? Showzinhos na internet, indiretas bem diretas, tudo isso e mais confetes, isso aqui tá calmo demais com os outros. Chega de ser o centro, o que eu quero mesmo é ver o circo pegando fogo! Só deixa eu sair antes, pra assistir de camarote.


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sábado, 12 de novembro de 2011

Sem asas


O que tenho? Sofro quando devo sorrir, minhas lágrimas de contemplação se tornam sangue derramado pela distância. Tão perto, tão longe... Um espaço vazio em mim, sem solução nem remédio, um vazio onde ecoa meu conformismo imóvel, meu medo de errar, meu medo de tentar. Um vazio que dói, culpa dos astros, do destino, ou apenas culpa minha.

Eu olho para ela, sigo seus passos com meus olhos, mas não a alcanço. Minhas mãos podem, meu ego não deixa. Seus cabelos, fluindo com a brisa perfumada de seu corpo, em um movimento cafajeste, abençoado, passa por mim, meu corpo treme e as esperanças renascem. O fogo que nunca se apagou, incandesce, floresce o sentimento. Tortura eterna de um apaixonado, refém de si mesmo, acorrentado, enclausurado em seus próprios sonhos.

Eu quero voar, voar alto, subir com ela. Penso em besteiras, na cor de sua roupa, na sua altura, nas alturas da minha imaginação. Fantasio encontros, reencontros, um dia de sol na praia, uma música a dois no violão. As nuvens formam, no céu, a exata perfeição de seu colo, acolhedor, aquecedor. O toque de suas mãos nunca saiu de mim, e eu nunca saí do seu caminho. Raciocino, perco a linha, imagino. Apenas imagino. Eu quero voar com ela, mas onde estão minhas asas?

Pássaro anormal, estranho no ninho social, sem lenço nem documento. Apenas mais um à procura de algo necessário. Apenas alguém que deseja sentir o gosto da felicidade plena, da satisfação, da perfeição, pelo menos uma vez. Sou eu assim, um labirinto de trevas e dor, do qual eu não saio, nem sei se quero sair. Entre comigo, viva a minha vida, você me conhece bem. Identidade é eternidade.

Olha pra mim! Eu estou aqui, sempre estive. Não olha pra mim! Eu não sei te encarar, não saberia te receber. Ainda não estou pronto para ser feliz, nem para te fazer feliz. Eu fujo das pessoas, eu tento escapar dos meus problemas, eu crio problemas. Não sou exemplo de perseverança, apenas sinto algo estranho quando te vejo. Pensar em você, ver você passar, te sentir no ar, é mais vida do que meu próprio sangue.

Minhas veias pulsam. O coração, sempre quieto, acelera, mesmo sem eu perceber. Filmes me lembram você, o mundo gira e eu sei da sua presença. Tão perto, tão longe... Ah, o destino! Cruel, talvez alentador, traçou caminhos opostos, meu bem. Quero ser teu bem, te fazer bem. Vivemos, sim, em paralelas. Um dia, nessa vida ou na próxima, elas se encontrarão. Me espera mais um pouco, espera até eu aprender a voar, para conhecer o céu com você. Seja minhas asas.


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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Meu exílio


Aqui faz tanto frio! Não pensei que assim seria este lugar que me pareceu tão quente, acolhedor, com jeito de colo de mãe. Nesta terra, onde eu pensei haver palmeiras e sabiás, hoje só resta o resto de um ledo engano, um devaneio torpe, uma vaga sensação de prazer.

A viagem dos sonhos, o salto pro alto, o ir em frente que só puxou para trás o desejo de crescer. Meus olhos me traçaram um caminho, que eu apaguei com os passos, com as lágrimas, com a saudade. Arriscando todas as fichas, fiquei sem ter o que comer. Pensando nos outros, esqueci de mim. Me alimentei de minhas esperanças, mas o estoque acabou muito antes do fim da jornada.

Meu quarto, minha cama, minha bagunça! Ali sim é o meu canto, aquele que eu deixei virar passado, na tentativa corajosa de mudar. Eu cismo, sozinho, à noite, pensando nos que lá agora vivem. Quem usa as minhas gavetas desde então? Quem esquenta meu travesseiro? Quem escreve a minha vida, neste lugar que eu ousei abandonar?

Olhei para trás, vi minha mãe chorar por mim, meu pai, minha família. Hoje, aqui, nesta terra sem primores, é meu corpo que lacrimeja incessante, buscando criar um rio, um mar, por onde a nau da imaginação me leve, em segurança, de volta à fortaleza de ferro dos meus primeiros passos. A força com que vim, certamente pegou o avião da volta. Eu fiquei.

Eu me exilei do pensamento, do amor, da confiança. Eu fugi do novo, busquei o novo. Caí, levantei, caí de novo, levantei. Conheci o submundo, subi aos céus, bebi o vinho de Baco, segui o canto da Iara, me deixei levar pela loucura de Raul. Quando olhei para baixo, já estava longe demais para voltar. Arrisquei, agora quero voltar. Não sei como, nem se posso. Quero voltar.




Será que ainda o tempo irá me torturar, como faz desde sempre? Quanto mais eu preciso ficar aqui, sob os cúmulos acinzentados da tristeza, torcendo para ver e viver mais um dia, que seja, o meu berço? Fico pensando no meu retorno. Troco festa por presenças, troco pompa por abraços, troco mentiras por ela. Nunca fui daqui, eu fui feito para brincar entre várzeas e flores. Eu quero voltar.




IMAGEM: http://2.bp.blogspot.com/_4ia-lk4EbPM/S87L8Qvgk_I/AAAAAAAAB5I/4oKp6rV0e9E/s1600/13homem-caminhar-mala.jpg



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O lado de cá




Foi-se o tempo em que eu queria o mundo. O tempo em que eu desejava o céu e a terra, quando eu tinha sede de vida, vontade de subir mais alto, curiosidade pelo prazer de conseguir. Frente a frente comigo mesmo, agora, eu olho nos meus olhos e percebo que eu já consegui o que, há meses atrás, anos atrás, era apenas prospecção. E agora, José?

É engraçado! A gente imagina sempre uma hora em que nós vamos alcançar os objetivos, e que este momento é muito, muito distante. Nós suamos, pensamos, sofrendo e chorando, brigando e agregando, em prol de algo maior, quando os fins justificavam os meios. O mais excitante da ambição é o caminho que nos leva ao objeto ambicionado. Um pouco mais perto, um pouco mais longe, os dias passam e sempre a tarefa parece estar incompleta demais.

Quando a chegada está próxima, a hora do sprint final, onde tudo se explica, toda a caminhada ganha base, ganha motivo, os olhos se enchem de gana e, mesmo se o corpo fraqueja, a alma se engrandece. Três. Dois. Um. Chegamos! Fogos, luzes, lágrimas de satisfação. Realização. E depois da festa? Depois de limpar a casa, realinhar o foco, parar e pensar, o que fazer?

Hoje eu digo que consegui muito do que desejei nos últimos tempos, sou uma pessoa realizada. Agora eu cruzei a linha, estou do lado de cá, olho para trás e vejo o quanto eu busquei meu lugar, o que eu fiz, o que deixei de fazer. Quantas noites eu perdi, quanto choro eu derramei, tudo para estar onde estou agora. Os motivos me carregaram pela mão, junto com o meu ímpeto. E agora?

A análise do que já é passado, a prova dos nove. Será que valeu mesmo a pena? Será que eu não poderia ter ido além? Será esse o meu limite? Muitas são as dúvidas, a ponto de ofuscar certas alegrias da vitória. A pitada forte de frustração quando nos damos conta de que acabou. O mais legal não existe mais, eu não preciso correr atrás. Sintoma de comodismo? Não necessariamente. Talvez seja apenas uma reação natural de quem não nasceu para ficar parado... E parou.

O ciclo da vida. Querer – conseguir – querer de novo. Neste segundo estágio, o mais importante não é pensar em onde quer chegar, e sim saber administrar o que se tem. O conforto de estar na cadeira desenhada em pensamento é inexplicável. Um novo projeto não.  Até chegar na próxima página, eu não preciso – e nem devo – me esquecer do que eu já li, ou melhor, escrevi até o último parágrafo.

O jeito é continuar incompleto, evitando a plenitude, evitando a estagnação. Que não seja sempre um novo começo, mas uma continuação, por que não um aperfeiçoamento? É bom olhar o mundo daqui, ver pessoas passando pelo mesmo que nós. Sem falar que sempre bate a saudade do lado de lá...


IMAGEM: http://globoesporte.globo.com/platb/files/168/2010/08/drummond.jpg

sábado, 29 de outubro de 2011

Paradise




O belo nos parece quando o ego apetece. Conforto para os olhos, para a alma, a perfeição utópica que só existe para nós tem várias faces, diferentes sabores, perfumes e toques de prazer. Sim, meu caro! Tudo é ponto de vista neste mundo-cão, ninguém é são, ninguém não é. O sol pode apenas queimar a sua pele, e render um livro para quem o recebe melhor. Uma lágrima é alegria ou tristeza, para a inconstância humana.

Lugares. Qual é o melhor para você? O seu refúgio, seu paraíso, real ou imaginário, onde imaginar parece pouco, perto da liberdade intensa, que vem como brinde às nossas pretensões de adolescente. Um lugar onde seu suco de uva volta a ser água com gás, e a terra não dá micose nem coceiras. Um lugar onde o céu está sempre mais perto, tão perto, a ponto de as nuvens ficarem ao alcance das mãos, e as estrelas como alças para uma escalada rumo à felicidade.

É onde as pessoas não são mais do que pessoas. Onde não devem ser. A realidade é cruel, transforma uma vida em responsabilidade, em cobrança, quando essa vida poderia ser apenas uma linda companhia, um sem propósito motivo de amor e dependência. No paraíso, as nossas vontades não arredam as alheias dos seus lugares, e o livre arbítrio finalmente se torna livre.

O tempo passa como uma brisa marota, passeando pelo rosto, pelos traços, pelas vãs filosofias do saber popular, do que as enciclopédias não nos ensinam. O Manual da Vida não vale para quem escolheu passear pelo mundo que criou. O devaneio está para a realidade como a água para o óleo. Os dois se tocam, se parecem, mas nunca se misturam. Neste paraíso, seja de brigadeiro ou de alface, a grama se come, as paredes somem, os desejos viram ordens.

Neste pedaço de sonho e fantasia, os desejos são verdade. Problemas? Não! Que fiquem aqui, reservados aos inocentes, vitimados pela mortalidade física. O castigo de quem não sonha é, simplesmente, o nunca ter. O paraíso em si já é uma vontade, e nele, ninguém chora por falta de nós. Nem nós mesmos. Lá eu posso viver o que sinto, sentir o que quero, querer o que não tenho. Lá eu posso caminhar de mãos dadas com o conhecido, ainda desconhecido ao meu coração.

Quem vai saber onde está o seu paraíso? Quem tem o mapa? O que diabos é o paraíso? Que me perdoem os que acreditam em vida após a morte, mas o meu paraíso é criação da minha própria vida, reflexo invertido do que sou, do que dizem que sou. Quem sonha com seu pedaço de ilusão nunca estará sozinho. Se perde, e que se perca, no mundo proibido, cujo caminho só conhece quem o constrói, e cuja chave só ele possui. Ou a joga da janela, para nunca mais sair da prisão de marfim, que está sempre à nossa espera. 


Foto: Gustavo Ferreira (nov/2008)

sábado, 22 de outubro de 2011

Papo de sarjeta




É, meu amigo! Quem te disse que viver seria fácil? Hoje te vejo assim, encharcado em suas lágrimas, devastado pela tempestade que você mesmo criou, plantou, esperou. A vontade é grande de te dizer “eu te avisei”, meu caro. Me conhecendo como poucos, você sabe que eu não perderia a oportunidade. Talvez eu diga, daqui a pouco, quando estiveres mais seco, em melhores trajes, em menores lamentos.

Larga essa vodca, ou a bebe toda. Afogar mágoas não requer a leveza inicial de um simples mergulho. Você está preparado? Não, vai por mim. Por esse caminho eu já passei, e não saí ileso. Sei que você quer ficar o menos ferido possível, mas isso é possível? Bem que seria conveniente esquecer um trauma batom-carmim se enchendo de álcool. Não, amigo, não é! O máximo que você vai conseguir, depois desse pileque, é mais dor de cabeça. E dessa, acho que já tens demais.

Como se aquela vomitada matinal expurgasse todas as lembranças do seu passado de brigadeiro e neon. Cara, aprende uma coisa: o “pra sempre” sempre acaba, já dizia aquela cantora lá. E muitas vezes, mais vale se conhecer uma letra de música bonitinha, ao tentar entender o mundo.

Ei, vamos lá, essa não foi a primeira e nem vai ser a última vez que tu vais cair de quatro, com a cara no chão, por causa de mulher ou por qualquer outro motivo. Eu acho que é de propósito, há quem diga que “faz parte da vida”. Sim, todos esses obstáculos que Deus, Jesus, Maria, sei lá, colocam na nossa frente fazem parte da nossa vida. Agora, será que temos mesmo que pagar os pecados de dois babacas, por causa de uma maçã?

Desobediência... Balela.  Você, por exemplo, sempre foi um cara bacana, generoso, atencioso – tá certo, agora você nem deve estar me ouvindo, mas acredite: você ainda é – e, mesmo assim, levou uma patada. Meu amigo, nunca conheci alguém mais obediente quanto você, e mesmo assim, a patada. Desobediência não deveria ser pecado, e sim, diversão justificada. Perdestes a casa, a vergonha, até aquela tal dignidade, que nem todos tem, mas vivem dizendo que preservam. Ser digno é ser cult. Ser idiota também é.

Acho que já falei demais, né? Então, já que eu estou aqui, vou te levar pra casa. Carregar um bêbado é divertido, mas carregar um amigo bêbado não parece tão interessante. Tua mãe vai te dar um bom banho, trocar esses farrapos fedendo a uísque e esbórnia. Ela já se acostumou a te ver boêmio, e não vai reclamar de novo. Já são quatro da manhã, e ela nem deve ter forças pra gritar contigo. Além disso, mãe é mãe.

Então, estás entregue. Agora dorme, sei que não vais sonhar, só esperar por aquela bigorna na cabeça. Quer uma dica de quem já passou por isso? Depois de acordar, nada de sair por aí feito um porra louca, achando que a solução pra ressaca de ontem será a ressaca de amanhã. Esquece do mundo. Finge que ele esqueceu de você. Agora só finge, não vai acreditar... E chega por hoje! Me deixa, que essa tua chuva ainda vai me deixar resfriado. Te vejo na faculdade, mas só depois de amanhã. Eu vou dormir.



Texto publicado no jornal FOLHA DE ÓBIDOS, edição de outubro/11.

IMAGEM: http://issoaiounao.zip.net/images/palhaco_bebado083.jpg

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cartas de Brasília


Oi, mãe!

Antes de mais nada, deixa eu dizer que eu tô bem, fica tranqüila. Eu sei que eu deveria ter dado mais notícias, e que eu demorei um pouco mais do que o combinado pra voltar, mas é que tanta coisa aconteceu nessas férias. A senhora tá sentada? Acho melhor sentar. Do jeito que a senhora é, nem sei se vai conseguir ler essa carta até o fim.

Pra começar, Brasília é uma cidade linda, mãe! Poxa, acho que foi a melhor viagem da minha vida, obrigado mesmo. Aquelas ruas sem nome, a Esplanada, a casa do Presidente, tudo muito bacana. Ainda não conheci a Catedral, e eu sei que é pecado não ir até a igreja. Mas lhe prometo que não volto pra casa sem passar lá antes.

Agora, mais legal do que esses prédios bacanas, só isso aqui a noite. Eu e minha guitarra já fizemos muitos amigos por aqui, e rápido. A senhora conhece minha simpatia, vai! Do jeito que falo, falo, falo... Enfim, eu me encontrei nos bares de Brasília, pelas ruas. É, mãe! Pelas ruas. Mas eu tomo banho, troco de roupa, nem deixei meu cabelo crescer... Muito. Acho que a senhora e o papai ainda me reconheceriam.

Nem bebi demais nesse tempo, nem usei drogas. Prefiro economizar a mesada que o papai ainda me manda. Ouvi dizer que ele cortaria minha grana. É verdade? Se for, não mostra essa carta pra ele, por favor. Segredo nosso, pode ser?

Agora eu acho que tem uma coisinha que a senhora não vai gostar muito de saber. Eu também me envolvi com muitas garotas por aqui, daquelas viciadas em Legião e em caras de olhos verdes. Tenho culpa de ser tão bonito e talentoso? Ó, eu uso camisinha, tranqüilo, relaxa. Só esqueci uma vez... Agora a doida apareceu grávida, dizendo que o filho é meu. Mas não é, pô! Naquele dia eu nem tava tão inspirado assim...
 
Olha, agora eu vou sair. A galera da banda tá me esperando pro show, logo mais. É, agora eu tenho uma banda. Faz sucesso, a gente tem até fãs. Eu disse que iria fazer sucesso um dia!!! Depois eu lhe mando uma foto minha, mais recente, pra matar sua saudade. Só não repara, não! Eu já não uso mais topete. Nem gel no cabelo.

Manda um abraço no velho, e diz que eu vou voltar. Ele já esperou 11 meses, o que custa esperar mais uns 3 ou 4? 


Foto: Agência Estado

domingo, 9 de outubro de 2011

O promesseiro


FOTO: Gustavo Ferreira

São duas horas da manhã. Acorda José, no frio de uma noite estrelada em Belém do Pará, aquecida apenas pelo fervor dos dias correntes. Beija a testa da esposa, que acorda em seguida. Vai ao quarto dos filhos, ao lado, e os olha com ternura. Ele vai até a cozinha, onde sua mulher prepara um café da manhã reforçado. Hoje o dia vai ser longo, lindo e intenso.

São três da manhã. José mora longe, e por isso precisa sair tão cedo. Ele deixa sua casa humilde, na periferia da cidade e, sob a luz do luar, espera o ônibus que lhe leve até a Cidade Velha. A condução, precária, demora a chegar. A condução chega. José sobe, senta, reza e espera pelo que o sol lhe trará dali a poucas horas.

São quatro e quinze. José chega, em meio a aglomeração de fiéis, à Praça Frei Caetano Brandão. Está em frente à Catedral da Sé, o ponto de partida do seu desafio dominical. Fitas colorem a paisagem divina, montada pela mais pura diversidade. Cores das mais diversas, sons dos mais distintos, que formam um coro uníssono, de fé e esperança. São orações, de todos os cantos, que ecoam nos corações de todos. José começa a fazer parte do Círio de Nazaré.

São seis da manhã. O Arcebispo fala, ora por todos, e José atrela-se ao seu maior porto seguro: a corda. O guia se todos eles, naquela manhã. Para levar Nazinha de volta para casa, a força das promessas, da gratidão e da esperança em um futuro mais digno, em uma vida mais justa. O futuro de José chegou, e ele devia suas lágrimas mais cheias de brilho e alegria. Após um acidente gravíssimo de carro, há meses, José renasceu. Viu a morte de perto, mas não tocou em suas mãos. Voltou. Graças a ELA.

São seis e quarenta da manhã. Começa a luta pela graça de vencer. Quem luta para perder? A vida de José, com certeza, se mistura, se confunde com outras milhares, a partir de então. Não são mais pessoas puxando uma berlinda, são um povo que leva sua Mãe ao seu altar. Com cuidado, com calma, com o coração carregado de emoção, o combustível mais eficiente. Obstinação, raça, determinação, adjetivos que se encaixam em José, mais um na engrenagem nazarena rumo à Nazaré.

São nove e meia. Ele sofre. Os pés do promesseiro perdem proteção, pedem ar, procuram espaço inexistente no chão de dedos que encobre a Presidente Vargas. Como ele sofre. Mas canta e grita, incentiva, é incentivado, se une aos companheiros de direção, todos juntos para um lugar comum. Mas ele sofre. Cansaço, peito apertado, onde não cabe tamanho coração.

São dez para as onze. Castigando com luz forte, o sol não livra nenhum dos milhões de romeiros. O corredor de mangueiras alivia, mas o calor continua severo. Calor térmico, calor humano. José não sente mais o braço esquerdo, preso à corda como que fundidos. Ele resiste pelos outros, pela sua família, pela sua vida, o motivo de estar ali. O corpo não é páreo para a alma forte daquele homem.

São onze e meia. Grande José, que vê seu destino cada vez mais próximo. A Nazaré lhe encanta, o mar de gente que navega o lindo bote do amor e da devoção, e fazer parte daquilo nem lhe parece tão cruel. O que lhe move é a promessa, a fixa idéia de vencer, que nunca lhe abandonou, desde a infância sofrida, quase sem os pais, a quem perdeu ainda menino. A vida nunca lhe foi simpática, mas José fez disso uma arma a seu favor. Enfrentou círios e círios diariamente pela sua felicidade, por dignidade, por um amanhã.

Meio-dia e quinze. Imponente, a Basílica Santuário só não é maior do que sua alegria. Soltou a corda, chegou ao CAN e desabou. Um choro de menino, aquele menino que venceu a vida, a morte, e cumpriu mais um desafio. Suas forças irrisórias se foram ao ver, finalmente, a berlinda florida cruzar seus olhos e entrar na Praça Santuário, rumo à sua redoma. Com as mãos para o céu, aquele promesseiro entoou, junto de todo aquele povo simples, lutador, o canto da vitória, aquela que, graças a Nossa Senhora de Nazaré, nunca lhe abandonou.

E, no que depender de José, nunca abandonará. Nem a ele, nem a sua família.

Segunda-feira, dez de outubro. São quatro da manhã. Mais um ano começa na vida de José...


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nazinha


Lá estava ela, na beira do igarapé, com os pés molhados pela água doce, e o rosto marcado pelo tempo e pelo sorriso que não esmorece, um sorriso de fé infinita. Lava roupa todo dia, sem agonia, canta, os males espanta, um futuro melhor sempre desenha em sua cabeça, sem precisar chorar sempre pelo seu presente. Viver, para ela, já é o maior presente. O seu nome é Maria de Nazaré. Nazinha.

Uma mulher de fibra, mãe de cinco, casou jovem, viuvou há pouco, criou seus rebentos com muita luta e muito trabalho honesto, como feirante na sede do município. Sua casa de madeira é humilde, pequena, sem luxos. Nazinha nunca possuiu ouro, jóias, muito dinheiro. Sua riqueza está em seu coração, no respeito com que sempre encarou a vida, na dignidade que ostenta polida, na esperança de um amanhã mais bonito.

Nazinha acende velas, todas as noites, para sua santa padroeira, a padroeira de um povo inteiro. A santa que lhe deu mais do que o nome; lhe deu a própria vida. Sua mãe sempre lhe contou como se aproximou da Padroeira dos Paraenses. Sua gravidez foi complicada, e quase sua mãe não resiste ao parto. Mas Nazinha nasceu após uma promessa de sua mãe: se aquele bebê vingasse, seria por obra de Nossa Senhora de Nazaré, e além do nome, aquela criança sempre abriria as portas de sua casa para a Santinha entrar.

Já era agosto, e os preparativos para receber a imagem eram dignos de uma visita Real. O dia se aproximava, e todos os vizinhos e amigos estavam convidados. Ela tinha muitos amigos, pelo seu jeito simples e simpático de ser. Seus filhos cortavam o cabelo, vestiam roupa nova, cortavam as unhas e se perfumavam. Ela estava chegando.

A noite da novena era a mais especial do ano para Nazinha. Seus problemas, que problemas? Quando aquela imagem, carregada pela vizinhança, adentrava aquela humilde casinha, com toda a sua grandeza em tão pequenina matéria, sua luz iluminava o que nem escuro estava. Os olhos de D. Maria logo transbordavam em emoção, exaltação, devoção. Era como se as paredes ganhassem cores, as estrelas entoassem o hino, e as nuvens do céu descessem ao firmamento, e banhassem a todos ali presentes, como as águas doces dos igarapés da Amazônia.

Após todo o ritual, o terço, os cantos, as despedidas, era o momento mais especial do dia. Seus filhos iam dormir, e Nazinha ficava frente à frente com Nazinha, sua imagem, sua graça. Ali, em silêncio, aquela simples mulher, que vive em condições difíceis, a beira de um igarapé, na periferia de Belém do Pará, conversava com sua melhor amiga, sua fiel confidente. Era hora de fazer seus pedidos para mais um ano, que para ela começava em outubro. Era hora de agradecer as graças, ou melhor, a graça maior, que era o direito de viver feliz.

No dia seguinte, um clima diferente tomava conta daquele ambiente. A visita estava chegando no fim. As horas passavam lentamente, iam acabando, mas Nazinha não era egoísta, e sabia que outras casas mereciam receber a luz de Nossa Senhora. Quando a noite vencia o desafio do tempo, o momento da partida se aproximava. Escurece, e quem a trouxe, a leva.

Nazinha chora, mas sabe que, dali em diante, a mata que envolve seu terreno será mais verde. Dorme em paz. Ao acordar, volta a viver sua vida. De novo, lá estava ela, na beira do igarapé, com os pés molhados pela água doce, e o rosto marcado pelo tempo e pelo sorriso que não esmorece, um sorriso de fé infinita. Sorriso de quem tem uma certeza: Nazinha esteve ali. Esteve não, está.

FOTO: http://i30.photobucket.com/albums/c308/bicolor2005/51262376_27314c2014.jpg


sábado, 1 de outubro de 2011

Luz, lágrimas e miriti



Que brilho é esse, que inebria, enchendo os olhos do povo paraense com uma luz forte, com lágrimas puras? Uma chama que marca o tempo, justifica esperanças, move pessoas e guia os pensamentos e os esforços físicos de quem se dispõe a viver intensamente o domingo sublime. Ou melhor, aqueles domingos sublimes, que começam no sábado, na sexta, na segunda após a procissão maior.

A vida segue dura por onze longos meses, até que chega outubro. Mudança. As almas das gentes parauaras, que se tornam uma só, sentem a beleza do Círio, em qualquer canto onde o pensamento voe até Nossa Senhora. A imagem, ao contrário, torna se dez, cem, mil, milhões de desenhos próprios da divindade e do poder de tão pequena porção de matéria. O inverso de sua necessidade para nós.

As lágrimas vêm a cada oração, a cada foto, a cada canção que embale os pedidos e o esforço deste povo sofrido, valente, persistente da Amazônia. Uma fé sem limites de cor, sexo, religião. O Círio é cultura paraense, antes de ser um evento católico. Não há exclusão que resista, nem orgulho que se negue a receber aquela luz, que transforma a berlinda em lamparina, iluminando as mentes e os corações de quem a vê, de quem a segue.

Luz de miriti. O talento entra em cena, e um simples barquinho navega em um mar de devoção e simbolismo, onde todos podem passear. Viajar. O que conta mais, para gravar na memória? A singeleza das peças ou a grandiosa demonstração de afeto, carinho, devoção? Seguem pela mata verde e amarela um pedaço de madeira, envolto por vidro, flores e gente, olhos de todo o mundo, mãos de todos nós.

Erguidas, as preces vão aos céus, através daquele andor divino. Levado pela força papa-chibé, sem recusar ajudas estrangeiras. Solidariedade, bondade, ajuda pura e simples, de quem nem se conhece, mas a quem já agradece. O peito que se enche de gratidão, a voz que grita o mais sincero “obrigado” a quem confiou no seu sofrimento e, por um momento, lhe estendeu as mãos. Firmes, mãos que guiam, calejadas, o motivo material de tudo aquilo. Pois o motivo espiritual não se mensura em massa. É sentimento.

Verdade que comove, que cativa, que incentiva. Antes, durante, depois do Círio. Sempre é Círio, no coração dos paraenses. Respiramos fé, transpiramos orações, aspiramos à graça maior da felicidade. Nessa caminhada tão difícil, basta que vejamos aquela luz, a mesma que nos leva às lágrimas em todo mês de outubro. A luz da esperança, a luz de miriti, a luz de Nazaré.


Foto: Ale Amorim (http://farm2.static.flickr.com/1233/1444651543_8010c6cd10.jpg)


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Na geral




Em qualquer estádio, qualquer campinho de várzea, em qualquer rua... Em qualquer lugar onde haja uma bola rolando, sempre haverá alguém que, mesmo sem jogar, vai estar ali, vidrado, curtindo um dos melhores momentos da vida. Torcedor é assim mesmo, vai onde tenha jogo, pode ser uma pelada com bola de meia ou uma final de Brasileirão.

Nunca se cala! Aliás, fala demais. Mas é permitido, torcer é extravasar, botar para fora suas emoções mais viscerais. É paixão que não tem controle, nem lugar para ser guardada. Por isso que não sentimos vergonha de ostentar o brasão do nosso time do coração em todos os lugares. Vestir o manto sagrado da sua agremiação é uma honra, motivo de orgulho, até de status social. E não interessa se a fase é ruim, se o time não vence.

Torcedor de verdade é aquele que grita, que vibra, que chora pelo seu time, mesmo se ele só perde. Torcedor nunca perde a esperança em dias melhores. As arquibancadas são pequenas para o amor bicolor, tricolor, alvi-negro... Ganhamos cores além da pele, ganhamos uma segunda pele, até terceira, quarta, ou todas. Viram só? No final, torcedor nunca perde.

A não ser que... Ah, quando aqueles caras de amarelo perdem! Quem disse que a Seleção merece a nossa atenção apenas de quatro em quatro anos? Basta sair uma convocação, um amistoso importante, um torneio, uma final, e todo o país se veste de uma cor incomum. As roupas mudam, as casas mudam, todos se reúnem onde haja uma TV, para cornetar e achar. Como torcedor é “achista”!

Para nós, tudo poderia ser melhor. Viramos atacantes mais eficientes, meias mais habilidosos, zagueiros menos “perebas”, até treinadores de futebol todos somos. Às vezes nós temos razão... Muitas vezes nós temos razão, pois enxergamos além dos limites de quem comanda nossos times do coração. Mas o que enxergamos é o que nos conforta, quase sempre. Sim, há quem prefira ser político, comentarista, dizer que “não torce pra time nenhum”. Mas alguma preferência, sim, existe. A grande maioria prefere assumir suas cores.

Dizem que sobre política, religião e futebol não se discute. Quem disse? Futebol é povo, é emoção, é ego. Você deixa que um amigo seu, torcedor do maior rival, tire onda com você depois de uma derrota daquelas no clássico de domingo? Ou rir daquele frangaço do seu goleiro? Rivalidade. Necessária, vital, não há torcedor que viva sem. Agora, que seja saudável. Torcida saudável faz do esporte uma diversão.

Somos privilegiados, somos brasileiros. Vimos nascer grandes estrelas, dos nossos campos de bairro, jogando descalços, brincando de ser craques. Muitos dos meninos que hoje desfilam no tapete verde da realeza nasceram no barro, no asfalto. Isso é coisa nossa! Ir ao estádio, ao lado do pai, numa tarde de domingo, para torcer e vibrar pela mesma emoção. Xingar, gritar, esperar pelo momento sublime do futebol: o gol! O título. O prazer de ser torcedor, testemunha da história.

IMAGEM: http://www.oab-bnu.org.br/site/images/stories/desenho-de-jogadores1.jpg

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Eu não sei ser poeta


Eu não sei ser poeta.

Quantas linhas já escrevi,
Quantas letras já montei.
Linhas, tramas, já construí.
O caminho das rimas, não encontrei.

Eu acho lindo ser poeta.

Manejar com ternura o furor
Da cabeça fervilhante, o fogo alimentar.
Em versos curtos, a beleza mostrar,
Do vento, da vida, do amor.

Eu não consigo ser poeta.

Vejo amigos, talentos brilhantes,
Que montam a poesia com tato e leveza.
As tentativas minhas, tortas, infelizes, inconstantes,
Não se aproximam de tamanha riqueza.

Será que eu quero ser poeta?

Meu lugar no salão das Letras eu já sei,
O dom das minhas palavras tem um caminho.
Talvez me arrisque por atalhos que verei,
E que as idéias nunca me deixem sozinho.


IMAGEM: http://www.paixaoeamor.com/arquivos/fotos/38D33.jpg