sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Se eu fosse você...

Hoje a noite de um certo velhinho vai ser trabalhosa. Imaginem só que esse senhor, barbudo e gorducho, resolveu passear pelo mundo inteiro todos os anos na mesma noite, realizando os desejos de todas as pessoas. Mas não se iludam, nada é perfeito. Ele não conseguirá atender a todos. Porém, não custa tentar. Todos os anos eu faço os meus pedidos, esperando piamente que se concretizem. Na verdade eu sou muito pidão, não exijo nada menos do que a felicidade para toda a minha família. Toda mesmo. Mas hoje eu resolvi pensar um pouco e tentar me colocar no lugar de outra pessoa, por um minuto, o minuto dos pedidos.
E se eu fosse, por exemplo, o Sílvio Santos? Talvez pedisse um milhão de reais, ou dois, dois mil, já que agora é ele que quer dinheiro para não fechar o Baú, com ele dentro e as chaves do lado de fora. Já se eu fosse o Eike... O que o Eike ainda não tem, que o dinheiro dele não possa comprar? Paz? Talvez. Se eu fosse a Hebe, eu poderia pedir mais uns vinte anos. Como se fosse necessário. Se fosse um promesseiro, sem dúvidas pediria a chance de pagar o que prometi na corda do Círio ano que vem. Uma das promessas seria um vestibular, quem sabe. Falando em vestibular, eu talvez pediria outro emprego, caso fosse o Ministro da Educação.
Educação. Tiririca, se eu fosse você, meu amigo, eu desejaria um pouco mais de seriedade. É a imagem de um país mais do que arranhada que pede.  Se eu fosse acreano, pediria que meu estado fosse reconhecido; se eu fosse gaúcho, que meu estado fosse melhor reconhecido, algo além das piadas. Se eu fosse um metaleiro, um ingresso para o show do Iron. Se fosse um roqueiro, um ingresso pro Rock In Rio. Se eu fosse colorido, apenas mais uma calça laranja. Mas se eu fosse um deles, com certeza eu pediria um pouquinho mais de respeito. Menos vaias, talvez. Se eu fosse noveleiro, pediria pra saber primeiro quem matou o Saulo. Se fosse artista nacional, rezaria por incentivos decentes do governo.
Por falar em governo... Se eu fosse um senhor chamado Simão, eu pediria, não apenas hoje, mas durante as noites dos próximos quatro anos, responsabilidade. Um Estado inteiro depende de seus pedidos. E se meu nome fosse Dilma, ah, aí o Velhinho teria trabalho! Eu deveria pedir por mim e por mais 190 milhões. Consciência, respeito e um pouco de sorte, apenas para garantir que os próximos dias sejam tranqüilos. Meu nome é Obama. Então, que o Senado me apóie, apesar de ser oposição.
 Se eu fosse um holandês, iria pedir sorte na próxima. Mas se eu fosse espanhol, o que mais eu poderia pedir? Seria até indelicado, o maior presente que eu poderia ganhar foi entregue em julho, em terras africanas. Se eu fosse o Dunga, pediria um tempo, para o Brasil inteiro esquecer a raiva que sente por mim. Se eu fosse o treinador do Santos, torceria muito para conseguir controlar ímpetos, e que o Ganso voltasse logo. Já se eu fosse torcedor do Paysandu, bem, eu sou torcedor do Paysandu. O que pedir? Mais respeito? Mais raça? Menos sal no ano que vem? Tudo parece pouco. Talvez eu pedisse apenas uma temporada digna.
Mas, e se eu fosse um menino que vaga pelas frias noites mundo afora, iria suplicar por um prato de comida, por um cobertor, por esperança. Pediria um futuro. Como eu queria ser Noel nessas horas. E eu posso. Todos nós podemos. Se eu fosse um paciente na fila de espera por um transplante, pediria que o tempo voasse. Se eu estivesse em uma cama de hospital, idem. Que não acontecesse o mesmo com ninguém, esse seria o meu desejo ao jogar a flor sobre o caixão de alguém que vai e nunca mais voltará. Se eu fosse um desabrigado pela chuva, suplicaria por um teto. Se fosse um militar, só queria sobreviver por mais um ano. Mais um mês. Mais 24 horas. Esse seria o meu pedido diário, se fosse um alcoólatra buscando salvação. Se fosse um viciado em qualquer coisa. Menos em amor.
Pediria uma namorada, a minha namorada, alguém ao lado. Se eu pudesse ser Camões, gostaria de nunca perder a vontade de escrever. Se fosse Peter Pan, que eu nunca crescesse. Se eu fosse uma criança carente, que dependesse de almas amigas, como a de D. Zilda, que se foi, eu pediria que nunca essas pessoas boas deixem de olhar por nós. Se eu morasse no Haiti, uma certeza: nunca mais outro dia como aquele de fevereiro. Se eu fosse um soldado, que eu ganhasse a paz. Se eu fosse um líder, que tivesse prudência. Se fosse um liderado, sucesso. Se eu fosse candidato, que vencesse. Se eu fosse um derrotado, mais uma chance. E, se por acaso, eu fosse um daqueles mineiros chilenos, eu nada teria a pedir. Muito sim eu teria para agradecer, pelo presente mais bonito que uma pessoa pode receber, e que eu teria ganhado em dobro: a vida.
Mas eu sou apenas um menino. Um jovem, que vive em uma cidade problemática, cercado pelos perigos mais banais, que tem esperança no dia de amanhã, no ano que está chegando. Se eu fosse eu mesmo, o que eu pediria? Ser bem-sucedido, reconhecido pelo que eu faço. Ter uma cama quente, comida na mesa, uma sala de aula, uma vida cercada de amigos. Vencer os desafios, ser desafiado. Ter certezas simples, como a de voltar vivo para casa todos os dias. Morar em uma casa cheia de paz, cheia de família, cheia de amor. Amor. Muito amor. E não é isso que todos nós, independente de credo, raça e sexo tanto queremos? Queremos amor, queremos amar. Um coração limpo e sempre aberto, que erre muito, se necessário. Mas que um dia acerte. Papai Noel terá trabalho nessa noite. Não apenas comigo. Hoje a noite tem tudo para ser feliz, e se a sua não for, acredite: a de amanhã pode ser. 
Se eu fosse eu, pediria apenas a felicidade. E o quê eu pediria, se eu fosse você?                         

Muitas noites felizes a todos vocês!





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