terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Saudade da saudade

Sinto falta de tudo o que um dia eu tive, até mesmo daquilo que não quis ter. Há tempos atrás eu pensava em ter o mundo, em ser o mundo, eu imaginava tudo ao meu redor. Hoje me restou saudade. Saudade, do que eu fui, projeto dos meus sonhos, da inebriante insensatez que me fazia voar. Leveza dúbia, feita de medo e tesão. Tudo o que um homem precisa para ser alguém. Eu sinto falta, ah, como sinto, daquela brisa que esfriava minhas tardes quentes, e me adormecia como se fosse um menino, o menino que eu nunca quis deixar de ser! Eu era feliz e sabia. De tanto saber, o deixei de ser.

Sinto falta dos meninos com quem falava de meninas, sinto falta das meninas com quem pouco falava. Sinto falta da minha rua cheia de pequenos brilhantes, artistas, protagonistas de suas vidas felizes e sem compromisso com nada que não se chamasse felicidade. Dos tempos que eu nunca vivi, da vida sem tempo. O tempo. Ele não faz questão de parar, para tristeza da minha alma, que tentou não segui-lo, mas infelizmente obedeceu ao corpo. Sim, eu cresci. Sinto falta de ser um gigante de um metro e dez, quando eu ainda tocava o céu com a mão, onde quer que eu estivesse.

Sinto falta dos humores, dos amores, do que me movia. A chuva da tarde, o sol da manhã, o luar. As estações, do clima, do ano, da minha vida. Saudades de tentar apenas conquistar meus objetivos. Nem sabia ao certo o que eram as palavras, mas sabia muito bem o que elas queriam dizer. Sinto falta de falar, de me fazer ser ouvido, por uma pessoa, por todas. Ouvir cada passo do meu passado atrás de mim, aprontando das suas e, de vez em quando, me mostrando o caminho bom. Quando eu estava em encruzilhadas, a adrenalina da pressão pela escolha certa, a frustração do erro, o horo do recomeço. Tudo isso me faz falta.

Sinto falta de sentir. Ver, a minha vida, a vida alheia, ver o que de bonito o planeta me dava, sem cobrar nada. Ouvir, palavras sábias, nunca palavras inúteis, pois tudo o que é dito tem algo de útil, por menos que seja. Comer, sentir em minha boca os sabores, o doce do beijo, o amargo do fel. Tocar, ter em minhas mãos o corpo da mulher amada, descobrir, desbravar, todos os dias, o que eu já conhecia. Cheirar, farejar a vida pelas narinas, todos os aromas, flor a flor, lençol a lençol. Sinto falta de imaginar como seria o amanhã, segundo a minha vã e breve experiência.

Sinto falta da inocência, da decência, da transparência. Como o meu espírito era bom! Como eu era bom! Todos eram. Quando olhar para o lado significava confiar, e abraçar era mesmo um ato de afeto. Provar o amor que sentia não precisava de nada mais do que simplesmente sorrir. As notas musicais se completavam, as pessoas se completavam. Hoje eu sou diferente, o mundo inteiro mudou. E sem pedir licença acabou entrando no meu mundo e revirando tudo. Saudade. Hoje eu sinto falta de sentir falta. Sinto saudade de, apenas, sentir saudade.

3 comentários:

Descanso da Alma disse...

Saudade, o ser humano é recheado com saudades de muitos tempos, seja do passado, do presente ou mesmo do futuro.

Para esse sentimento, Pedaço de Mim do Chico responde de forma avassaladora ao turbilhão que representa sentir saudades.

Creio que escritores possui muito amor no que escreve e sua alma é apenas saudade e sangram este sentimento em forma de palavras.

Adoro esse tema, lindo texto.

Abração Gustavão.

Isabelle Dias disse...

"Sinto falta de sentir." é, isso resume tudo pra mim.
Teu texto mexeu muito aqui dentro, de verdade .
Muito bom o texto, como sempre !
Beeijo Guh :*

Ana Olivia disse...

Coincidência ou nao, dá uma olhadinha no Breakfast q falamos de coisas bemmmm parecida, heheh.
beijao