domingo, 26 de dezembro de 2010

Primeiro ato

“T
oda grande caminhada começa com um primeiro passo”. Já diz o provérbio uma das maiores verdades dessa vida. Caso hoje você esteja confortável, ou até mesmo reclamando por ter entrado em uma maldita rotina, lembre-se que, um dia, você estremeceu, você chorou, você sentiu medo, aflição, ansiedade, por causa do que faz hoje. Sim, todos nós um dia começamos qualquer coisa na vida e, inevitavelmente (se você nasceu e vive neste planeta), nós viramos um turbilhão de emoções, que serão aquelas histórias que todos contarão aos netos. Seja sorrindo, seja chorando.
O primeiro dia de aula, como é traumático! Para uma criança, os primeiros meses na escola, vendo seu pai ou sua mãe indo embora pelo portão, aquela pessoa que chamamos de tia, tomando o lugar da sua mãe... Quanto chororô! Faz parte. Mesmo quando grandinhos, mudar de colégio é desconfortável, até mais. A comodidade dos amigos de sempre fica para trás e somos obrigados a começar uma nova jornada. E o primeiro beijo? Inesquecível de tanto que tentamos esquecer. Inexperientes, coitados, muitas vezes fazemos por pressão dos amigos ou de nós mesmos, e quase sempre a delícia da coisa fica em segundo plano. Em primeiro, fica o fato: eu sei beijar!
Isso porque eu nem falei da primeira vez de fato (eu sei que vocês entenderam). Frio na barriga, o suor do desejo se mistura ao suor da tensão, e tudo vai acontecendo, e vai, e vai... Foi. A primeira nunca é melhor, porém é a mais importante. Tão importante quanto o primeiro vestibular, a primeira bicicleta, a primeira viagem sem os pais. Liberdade, condição para a felicidade. Ótimo, quando temos responsabilidade, quando somos maduros o suficiente para conhecer nossos limites sem ninguém nos limitando.
A emoção da primeira comunhão, o orgulho do primeiro salário. O primeiro texto publicado que inicia uma carreira, um sonho, o primeiro show para além dos amigos da banda, aquele primeiro porre. A cabeça dói, o corpo dói, a consciência dói, entretanto algo acontece que, sempre quando lembramos das nossas cabeças enfiadas na privada, começamos a rir, nem que seja somente para nós mesmos. Mas dor de verdade nós sentimos na cruel, na terrível, na abominável experiência do primeiro fora. Caramba, isso sim deprime! O primeiro troféu nos jogos do colégio, a primeira estrelinha de bom comportamento, a primeira vez que assistimos Chaves, a primeira noite fora de casa. Depois de algumas dessas noites, já estamos casados, com a nossa família, e aí começa mais uma jornada. Pagar as primeiras contas do mês, a primeira crise de TPM da esposa, o primeiro filho...
O começo de tudo traz angústia sim, tira noites de sono sim, nos dá sempre, em qualquer situação, as pernas bambas e os calafrios que nos fazem lembrar que nós estamos nesse plano para viver. E isso é viver. Encarar desafios, vencer os medos, mergulhar nos seus ideais, realizar os sonhos. E o que teria graça nessa vida se ela não fosse um grande corredor, cheio de portas entreabertas, por onde nossa curiosidade vai nos levando? Desde a primeira escolha, aprendemos a lidar com um mundo que mais parece uma peça de teatro, com várias cenas, cheia de personagens, na qual vivemos situações diferentes a cada ato. Nada supera em emoção o primeiro dos atos, a primeira impressão, a primeira vez. Por isso ela não se esquece jamais.


(Texto publicado no jornal Folha de Óbidos, edição outubro/novembro de 2010)


2 comentários:

Raíssa Bahia disse...

Que este seja apenas o primeiro da carreira promissora que tens pela frente, tudo está acontecendo e se encaminhando naturalmente, mereces cada elogio e palavra de reconhecimento por seu trabalho. Parabéns!

Ana Olivia disse...

a palavra me causa arrepios e acho q destrinchast ela mt bem = Rotina.
aff...
parabens, o texto está fluido e gostoso.
beijocas e obg por RT a minha promoção.