quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fecha a conta

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010. Um ano a menos nas nossas vidas, um ano a mais na nossa história. Aliás, foi o início de uma nova era. O segundo dígito mudou, agora o século começou a andar sua segunda casa. E como ele anda cada vez mais rápido!
Um ano que começou diferente. Sem festa. Com luto. Angra dos Reis, um paraíso, banquete de felicidade, um cenário lindo que sumiu sob tanta lama, sob tanta destruição. Mortes, choro, todo o preto que ofuscou as luzes que anunciavam o novo ano. Pouco tempo depois, mais perdas. O Haiti não precisava de mais um caos. O lado menos ruim foi ter a certeza de saber que anjos, como D. Zilda, voltaram ao céu, para olhar por todos nós. Aliás, em 2010 a natureza resolveu se revoltar, talvez se vingar de uma raça pérfida, que nada fez além de machucá-la. Choveu muito no Sul, choveu demais no Nordeste. O Rio de Janeiro parou, como não parava há décadas. São Paulo idem. E Belém? Ah, aqui isso de chover mais ou menos nunca importou mesmo.
Alegria, por favor? Carnaval. Confetes, serpentinas e Rebolations. Foi mais um hit, deles nunca fugimos. Piscamos e, plim, lá estava mais uma música em todas as rádios, mais nomes e fotos para as garotas colarem nos seus quartos e rabiscarem em seus diários. Não podemos negar que rolou um leve ecletismo, as novidades oscilaram entre o sertanejo de prédio e o pop feliz. Sim, POP. Foi um tal de calça colorida aqui, refrões melosos ali, franjas e histeria acolá, que fica difícil de dizer qual foi a maior modinha desse ano, dessa juventude que nunca ouviu tanta música em tão pouco tempo. Nas rádios, nos IPods, mp3, internet... A sociedade dos chips, das câmeras e redes. Engraçado, nós chamamos de redes sociais aquelas que unem pessoas por uma tela.
Acredito que não sou o único aqui que possui perfil no Facebook, mesmo sem usá-lo com freqüência. É apenas mais uma ferramenta que conseguiu deixar o Orkut, a febre de (apenas) 3 anos atrás, no chinelo. Tuitar virou verbo da nossa língua, apenas mais um dos verbos e verbetes, que andaram palavreando por aí, no mundo mágico dos blogs. Como as pessoas escreveram! Muitos talentos revelados, polêmicas iniciadas, nada que a Grande Rede já não nos ofereça há anos-luz. Foi aí (ou aqui) que avançamos em 2010. Lemos um papel que recarrega, traz Wi-Fi e não mofa. Os celulares servem cada dia menos para falar. A evolução da técnica.
Porém, não há técnica imune a erros humanos. Escavações nos deram o pré-sal, a maior futura riqueza deste país. Escavações falharam, e o mundo inteiro voltou os olhos ao Atacama. Trinta e três vidas, setenta dias, uma mina, uma esperança. Uma grande idéia que funcionou, uma necessidade que voltou à tona: segurança. Sequestros, assaltos, tiros, medo. Até quando o brasileiro continuará torcendo para voltar pra casa, e só? A resposta ainda não foi dada, mas um ensaio muito bem feito nos trouxe de volta o crédito que a polícia vive perdendo conosco. Na Penha, no Alemão, no Rio e em todo o país, um voto de confiança para o Estado. A prova de que ele ainda não faliu por completo. Por isso nós torcemos todos juntos.
Torcemos e choramos juntos. A África não nos trouxe as melhores lembranças. Nos fez enxergá-los como nunca, é verdade. O primeiro continente sediou sua primeira Copa do Mundo, sem dever nada a país europeu nenhum. A festa da mãe que recebe seus filhos de volta pra casa, ao som de insuportáveis e históricas vuvuzelas, com direito a muitas zebras. A campeã tropeçou na macarronada, e um novo nome foi escrito no pé da Taça. Olé! E no manto canarinho, mais uma mancha alaranjada. Por aqui, nada de óbvio. A não ser um peixe, que fez dos gramados, de norte a sul, o seu mar. Nadou soberano, abocanhou tudo. Porém, o gás acabou nas praias santistas. As faíscas não. O alvinegro praiano deu lugar a um tricolor, as Laranjeiras consagraram um argentino como o melhor do Brasil, bordando mais uma estrela no peito e mostraram que o futebol carioca não foi campeão brasileiro em 2009 por acidente. E por falar em campeões brasileiros... Mais uma polêmica. Tudo mudou, e a história passou a ter um novo começo. Assunto para muita discussão. O futebol paraense, coitado, nem merece ser citado, tamanho fiasco – sem exceções. A Seleção se renovou, o Mano chegou, e a Libertadores o Corinthians não ganhou. De novo. O futebol prega peças. Pra terminar o ano, os gaúchos avermelharam o Brasil inteiro de vergonha.
Mas será que pode haver vergonha maior do que ver o deputado federal que mais votos recebeu ter sua alfabetização testada... Com uma prova digna de analfabetos? Essas eleições! E ainda teve gente que achou sem graça. Quer piada maior? Não foi engraçado. Nada foi nesse pleito, e isso não foi necessariamente bom. Sem sal, os candidatos simplesmente não debatiam. Queriam aparecer. E quem irá dizer que as mulheres não foram protagonistas em 2010? A grande promessa que veio do Acre e abalou as estruturas tão enfadonhas da nossa política. Sem falar da maior vitoriosa destas eleições, a ex-guerrilheira que venceu seu primeiro teste como candidata a um cargo público. Conquistou O CARGO. Nós agora estaremos sob o comando de uma mulher, chamada Dilma. Tudo bem que algumas não tem muito do que lembrar de 2010, como algumas governadoras que colheram o que plantaram nos últimos 4 anos. Mas a grande conquista do ano foi delas. Machistas, tremei!
Machistas, ciumentos, psicopatas. Um advogado – ADVOGADO – mata a namorada brutalmente por ciúmes. Um goleiro famoso que não aceitava a paternidade exigida pela mãe de um filho seu e, sem pena e com ajuda, esquartejou uma vida, manchou uma bandeira vermelha e preta, envergonhou uma nação. A mesma nação que vibrou ao ver que a justiça do povo ainda funciona. A prisão dos Nardoni foi um marco de participação popular, de eficiência do nosso judiciário. Tudo bem, nada é perfeito! Muita corrupção, a Casa Civil escandalizou o país, crimes chocantes, propina, ladrões. Políticos. Alguns não conseguiram voltar, outros se livraram, mesmo não tendo a ficha limpa.
Um ano bastante diferente. A Rússia entrou no caminho da bola, vai ser sede de Copa. O Qatar idem. Por favor, não pensem que essas escolhas foram baseadas em qualquer grau de tradição futebolística dos dois. Afinal, qual seria esse grau? Talvez um que se aproxime do clima na Sibéria. Foi por dinheiro, meus caros! O dinheiro. Engraçado como ele pode escorrer pelo ralo e te levar junto. Quem quer dinheiro? Eu quero, você quer, e o Homem do Baú... Bem, ele nunca precisou tanto. Um rombo pan-americano, do tamanho da grandeza de um império.
Um império que se retira do Iraque pela porta dos fundos, sem muito alarde. As tropas americanas desistem e agora os olhares yankees se voltam para o vizinho, Irã. Mas, falando em tropas, por aqui quem mandou foi outra. A Elite do cinema nacional, recorde de público, sucesso de crítica – duplo, pois foi o mais badalado filme brasileiro em 2010, e conseguiu captar com realismo a dura face corrupta da polícia. Um ano para lembrar grandes figuras da história. Chico Xavier, Odorico Paraguassú, Quincas Berro D’agua. Um ano onde apostadores quebraram. “Avatar”, a sensação do cinema mundial, com o diretor de Titanic, em 3D, cheio de surrealismo, trazendo uma mensagem bonita de proteção à vida, a grande onda do século... Perdeu o Oscar para um filme quase-amador, cru, sangrento, sobre uma guerra. Incrível? Muito pelo contrário. Não há mais espaço para clichês em Hollywood.
Pessoas nos deixaram, Nazinha nos abençoou, o Brasil se consolidou, o dólar baixou, muita coisa mudou. E todos chegamos até aqui nos perguntando: e agora?
O que adianta saber? Essa história de tentar adivinhar o que vem por aí nunca dá certo. Se o novo governo vai ser bom, se a Seleção vai voltar a ser campeã, se a educação vai melhorar... Tudo são expectativas. Essas sim nós temos todo o direito de nutrir. Mais um ano vem chegando. A gente se encontra por lá!
E fecha a conta.  



Um comentário:

Robson H. disse...

É meu brother...dane-se a retrospectiva da globo...depois desse teu texto estou mais que informado...tô dizendo rapah, ainda vou te ver escrevendo em jornal burguês...questão de tempo...valew irmão...feliz 2011! o/