quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Contestação

Me contaram certo dia que a vida era muito injusta, que Deus não olha por ninguém aqui embaixo, e que nada do que a gente tem vale pra sempre. Resolvi parar e pensar. Eram palavras fortes, cuspidas, sem saber em quem iriam acertar. Acertaram justamente na minha cabeça, preguiçosa, calma feito um baiano deitado em uma rede colorida. Refletindo, acabei viajando. Até que ponto essas lamúrias tinham fundamento? Será que a vida é mesmo esse monstro que fiz na minha mente após tanta fúria relatada?
Logo imaginei que a pessoa que me disse todas essas coisas não tinha noção do que possuía nas mãos. Culpa de um par de chifres, de um não, algum problema “cardíaco”, que de tão forte nos leva a dizer cada balela. Sei lá. A vida é injusta? Mas é claro que sim. Pensem comigo! Se o conceito de justiça defendido pela pessoa – que, por sinal, é o que está arraigado em muitas mentalidades mundo afora – for o de plenitude de realizações, onde eu tenho que ter as mesmas chances do vizinho, que essa pessoa considere-se morta sentada, se resolver esperar por ela. Igualar a todos já não é desigualar? Se todo mundo é diferente, as oportunidades não podem ser iguais, e idealizar que você tem que ganhar na loteria só porque sua tia ganhou não tem nada de justiça. Isto eu chamo de inveja.
Outra coisa importante: as oportunidades são criadas por quem delas quer ter. Eu guardo comigo uma frase de um cidadão, acho que vocês o conhecem, o nome dele é Gandhi, que dizia “seja a mudança que você quer ver no mundo”. Ora, injusto é que você espere tudo cair do céu, imaginando que Deus tem a obrigação de realizar todos os nossos caprichos. Ele nos botou na terra justamente para que façamos o nosso caminho, e mesmo assim muitos de nós insistimos em não largar a barra da túnica do Pai, como filhinhos birrentos e reclamões. Se a humanidade resolvesse crescer um pouco mais, talvez tudo fosse mais fácil.
Se eu tenho medo de não ir pro céu, falando tudo isso? Me digam vocês, então: o que é o céu? E o inferno? Isso existe? Obviamente. O céu é aqui, o inferno é aqui, não preciso morrer para ir às nuvens ou sofrer no borbulhante caldeirão de mágoas e castigos. Se me perguntarem se no céu existe álcool, direi que sim. Se existe sexo, direi que SIM. Amor, compaixão, bondade, sorriso no rosto, harpas e liras, tudo isso se encontra aqui, aqui mesmo, sem precisarmos subir um degrauzinho da escada final. E quando falamos de inferno, caramba... Olhem as favelas cariocas, olhem para os lados. Quantos aqui dormem em calçadas? Quantos aqui não sabem o que é banho quente, almoço no prato, cama coberta? Torcem pro Palmeiras, são alunos da rede pública, enfrentam filas burocráticas. Quer inferno melhor?
Que me perdoem o sacrilégio, mas sacrilégio é pensar que nada do que temos vale para sempre. Honestidade, afeto, dignidade, são qualidades feitas não de matéria, mas de puro sentimento, e isso tem valor eterno. Eu ainda torço por um futuro onde as pessoas não pensem que só se admira algo quando vem de fora. Não. Nós temos que nos transformar nos nossos objetivos, a mudança deve nascer em nós, e não cair de uma mangueira. Viver não é questão de justiça. É questão de oportunidade. Então, o melhor truque para se realizar vai ser sempre ter giz no taco e bala na agulha. O passarinho pode não passar duas vezes no seu céu.

2 comentários:

Descanso da Alma disse...

Essa é a doce heresia que todos nós gostamos de cometer.

Creio que fé não signifique acreditar em tudo que falam, mas ter ousadia de duvidar e perguntar tudo o que vê.

Recomendo ler sem as amarras da religiosidade o Livro de Eclesiastes, é uma paulada na cabeça, primeiro porque tem tudo haver com Vinícius de Moraes e sua música "Sei lá, a vida é uma grande ilusão, sei lá, só sei que ela está com a razão..."

Abração Gustavão.

Robson H. disse...

Mais um excelente texto desse rapaz promissor...
Não foge em nada do estilo e da qualidade que nos acostumamos a ler nesse blog...enfim...sem mais
farofa...tá bom demais muleq...
O sr. é o cara...valew