sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Cara estranho

Olhem! Vejam só, um menino diferente. Ele não anda como um de nós, sua aparência não é nada agradável, parece sujo, inútil. Veste-se com trapos indignos até a um mendigo, ofega com deselegância, não sabe ser homem. Ele não sabe ser. Mas quem é essa pessoa, que cheira ao fracasso, como um pedaço de alguma coisa que caiu no meio deste mundo tão perfeito? Não usa maquiagem, não esconde suas imperfeições, mostra a sua cara. Que abusado! É um louco! Como ousa este homem empobrecer e ofuscar a nossa imagem, que brilha como uma baixela de prata?

Mas quem pode ser este ser? O homem das cavernas, talvez. Como é feio, como é pobre... Fraco! Insiste em se apegar a tudo, insiste em ter alguém, insiste. O mundo é de quem tem sorte, beleza e belas curvas. Mas esse aí... Nada tem, nada traz de bom. Apenas suja. Fraco! Acha que a única solução é o amor. Tolices. Acredita que o mundo pode ser um só, se importa com gente que nunca sequer viu. Esse cara diferente, que sonha, que idealiza, que não quer crescer sozinho. Ora, os outros não ajudam! São apenas resto. Pior! São um resto que atrapalha, emporcalha o caminho de estrelas que é dado a nós. Mas esse homem insiste em amar o próximo.

Por quê? Se o amor, ah, o amor é uma armadilha, o amor não deixa ninguém crescer, só traz rugas. Chorar? Ele chora, coitado. E chora sabe lá por que motivos. O que poderia ser tão triste? Nada mesmo, a vida é perfeita, o que pode ser melhor do que ver seus nomes na rua, conhecer a elite, beber as melhores bebidas, comer os melhores pratos? Como alguém ainda pode se entristecer? Não falei que esse cara é um tolo? Absurdo. A palavra é essa: absurdo. Ele é absurdo.

Esse cara sente, chora, fala. E como fala! Baboseiras, nada que funcione. Insiste em dizer que tudo é passageiro, que a vida é efêmera, e que devemos olhar para o lado, essas coisas. Mas a vida é tão mais cômoda assim. Nenhum de nós aqui acha que ajudar quem precisa traz felicidade. O que traz mesmo sorrisos são restaurantes glamurosos, festas maravilhosas, roupas de grifes... E ainda ousa nos chamar de fúteis! Ora, que petulante! Pensa que essa sua alma vai salvar o planeta lá fora da desgraça.

Mas quem é esse cara estranho, tão diferente? Um homem que ainda acredita nas pessoas, acredita que elas são capazes de mudar. Um menino que enxerga com medo o seu futuro, pois conhece bem o seu passado. Sua estranheza pode vir dessa tamanha humanidade, que lhe dá um tom tão pessoal, lhe aproxima daqueles que estão tão longe da bolha que isola algumas poucas vítimas da indiferença. Vítimas do egoísmo. Vítimas de si mesmos. Não sabem o que são grupos, são apenas eles mesmos. Quando se deparam com um alguém sem luxo, sem marcas, de cara limpa, reagem como se fosse a bijuteria barata no meio do ouro. Mal sabem eles que essa bijuteria vale mais do que muitas arcas de tesouro. Pobre de quem enxerga estranheza em um homem como ele.




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