sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Tango

Primeiro passaporte, passagens na mão, lá fui eu conhecer a Argentina. Buenos Aires. Muy buenos! Estava fascinado, nem ligava pro insignificante fato de que aquele país que me parecia tão interessante tivesse alguma rixa com minha pátria. Estava apenas e absolutamente encantado. Aquele clima gélido europeu, céu nublado, bem londrino, tudo o que eu esperava daquela cidade mais que graciosa. Eu e meus amigos fomos conhecer melhor aquela cidade, e nenhum achou necessária a provocação amarelinha. Passamos pela Bombonera, assustadoramente grande, conhecemos a Casa Rosada, a Catedral, o Obelisco, e o tour seguiu por horas agradabilíssimas. Até que a noite caiu e resolvemos conhecer a Argentina interessante.
Era um pub, um bar, enfim, um lugar muito bom para beber e contar as experiências e dividir a empolgação pela primeira noite fora do país. Então resolvemos procurar algum lugar onde tivesse um casal dançando tango. Claro, afinal estávamos na Argentina, é inaceitável sair de lá sem ver, ouvir e dançar o legítimo tango a lá Gardel, Piazzolla, sei lá. Achamos um restaurante e, por sorte, uma apresentação estava para começar. Só não tinha noção do quão importante seria o que eu iria ver.
Quando a luz caiu, soaram os primeiros acordes do violoncelo que chorava alto e forte, e o casal deu os primeiros passos, meus olhos vidraram naquela mulher. Inexplicavelmente eu só conseguia admirar com fervor aquele olhar fundo, fechado, sedutor. Me arrebatou! Vestido vermelho, dança quente, pernas se entrelaçando, música violenta e fatal, todo aquele cenário me fez alçar vôo naquele clima tenso e, ao mesmo tempo, delicioso. Feitiço? Paixão? Desejo? Era tudo isso junto, aquela mulher me hipnotizou. E eu deixei.
Saí daquele lugar com o pensamento nela, naquela dança, naquela moça. Tudo me encantou ali, acho que saí mais do que apaixonado. Saí diferente. Mesmo sabendo que nunca mais eu iria encontrá-la, talvez consciente disso, sabia que essa noite foi além do especial. A viagem seguiu por alguns dias, foi uma experiência maravilhosa, curtimos muito, mas sem dúvidas a imagem que terei daquela temporada em Buenos Aires será a sensualidade provocadora e envolvente daquela dança, daquela mulher.
Com o passar dos dias naquela cidade, eu fui entendendo mais o clima que me aofgou até o pescoço. Refleti, pensei muito, e todas aquelas coisas, a mulher, a música, a gravidade de tudo, a beleza que só vê quem sabe separar a tristeza cotidiana de uma arte tão inebriante. Pensando descobri que aquele trançado de pernas nada mais era do que o trançado das vidas, que se misturam, se tocam e se separam, num eterno movimento, onde cambiamos os pares a cada dança, mesmo sempre voltando aos nossos parceiros favoritos, com quem a dança se torna um clímax de tristeza e calor. Um tango da vida, com tons graves, cores sombrias, com o vermelho da vida. O vermelho de quem vive intensamente.

Um comentário:

Descanso da Alma disse...

Eu estou louco para conhecer a Argentina. Seu clima e a poética do local me deixam fascinado e após ler o que você escreveu, me deu mais vontade ainda para visitar os nossos hermanos.