quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sobreviventes

Entre balas de fuzis uma cidade tenta sobreviver. No meio de trincheiras, bombas e soldados, de bem e do mal, levantando bandeiras bastante diferentes, uma cidade tenta sobreviver. O Rio pede paz. Somente o Rio?

Reféns. Todos nós, de norte à sul deste planeta chamado Brasil, somos reféns do medo, da insegurança, do terror. Achar que apenas cariocas precisam de escudo é desconhecer a realidade de sua própria realidade, é fechar os olhos ao manto negro que, infelizmente, cobre uma nação inteira. O caos de um país cabe em uma cidade nestes dias. E agora? Cuidar das causas ou das consequências? O que gera o quê? Será que a violência é apenas física, e que os tiros perfuram somente corpos?

O sofrimento é físico, intelectual, moral. A moral de uma cidade maravilhosa, bonita por natureza, sede olímpica, de Copa do Mundo, cheia de qualidades para mostrar ao Brasil e ao mundo, mostra também o lado mais sombrio, sombra que invade favelas, condomínios, da Penha ao Leblon. Mas o buraco é bem mais embaixo. Vem de antes do primeiro gatilho apertado. Talvez o erro esteja lá no comecinho, o comecinho da vida, educação. Falhou, não atraiu, não educou. O resultado: ligue a TV, visite um site de notícias, abra o jornal. Você não verá nada de novo. Nem a sua reação será.

Assistimos ao vivo a uma guerra que somente os Estados Unidos eram capazes de nos proporcionar. A guerra é aqui. A guerra somos nós. Todos somos guerreiros, muitos lutam por todos, fardados, defendendo seus interesses. Outros lutam pela perpetuação de um mal, que mata sem pólvora, que destrói sem canhões. A maioria, no entanto, luta apenas pelas suas próprias vidas, que é mais do que o bem mais valioso para alguns. É o único bem. Apenas chegar em casa se torna uma odisseia, com heroísmo homérico, digno de aventuras clássicas. A diferença é que elas acontecem agora.

Prevenir é melhor, porém não é o suficiente. Tudo não é o suficiente, perante tamanha perplexidade. Se a solução fosse apenas melhorar a educação das crianças... Se fosse apenas criar programas que unissem os jovens pelo esporte, pelas artes, pelo futuro digno... Se fosse apenas rezar... A polícia não protege, remedia. As Forças Armadas são apenas a constatação de que os tempos mudaram. Para pior. As cidades viram campos abertos de batalha, onde os civis são espectadores, protagonistas e narradores, ao mesmo tempo. São. Somos. Vítimas.

Até quando vai durar? Adianta saber? Traficantes, policiais, cariocas, quem vai saber? Nem eles sabem. Talvez a bandeira branca sejam dez, cem, mil, milhares, milhões, que nós temos a obrigação de hastear. Não apenas agora. Quando votamos, quando entramos na sala de aula, quando pagamos nossos (absurdos) impostos, quando respeitamos o próximo, todos os dias. A solução pode estar nas mais simples atitudes, que podem garantir a nós o direito básico de viver. E enquanto esse dia dos sonhos não chega, o que nos resta é torcer. O que nos resta é sobreviver.


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