sábado, 13 de novembro de 2010

Porto inseguro

Desde o dia em que dos céus caí feito chuva forte, vítima indefesa da gravidade, eu senti que algo me trouxe bastante felicidade. Esse algo era sorte. Maldita sorte, que me fez refém, de alguém que nem ao certo conhecia, mas que desde então e para todo o sempre me confundiria, como um labirinto, ou melhor, dez, cem.
O primeiro se chamava Carolina. A dona dos mais lindos olhos de rubi, com a candura de uma virgem menina, em cujos braços com gosto me escondi. Esconder não foi a melhor saída, pois o excesso me feriu. Então, Carolina de mim fugiu, e me restou apenas acenar em sua partida. Mas não gastei tempo demais em recuperação, logo alguém novamente me fez de bobo, me fez feliz. Era Beatriz, que arrebatou meus olhos, meus desejos, meu coração.
Era linda, graciosa, mas como era vaidosa! Toda prosa, não se fazia de rogada na hora de passear sublime pela praça. Chamava atenção por natureza, por sua rara e violenta alteza, e o mundo não tinha motivos para cegar em sua passagem rumo a qualquer lugar. Sou egoísta e talvez careta, resolvi descansar um pouco, mas vejam só que louco, nesse hiato encontrei Julieta. Nunca imaginei que eu, em plena sanidade, fosse aceitar ser chamado de Romeu como se fosse a mais pura verdade.   
De Romeu não herdei nem ao menos a nobreza, mas a minha Julieta em mim via beleza, porém aos poucos eu fui fechando meus olhos e os dela, e de repente era passado a chama da nossa vela. Acabou, Shakespeare não escreveria nada para a minha vida vazia, que de desejo e carência só se enchia quando alguém pela minha rua passava... Uma garota feito ela. Gabriela.
Como poucas me fascinou, como a primeira. Com seu rosto que a natureza salpicou, queimava feito os frutos da pimenteira, quando seus lábios me tocavam, e com vontade me beijavam, como se eu fosse de suas noites a mais gostosa, de suas tardes a mais saudosa. Infelizmente, não mudei meu jeito de ser, acabei por me esquecer que uma vida só pode se contemplar se nos dispusermos a procurar. Procurar quem nos queira pleno, quem só nos queira amar, seja qual for o nome do veneno. Eis que surge Tainá.
Seu veneno era a paciência, já que não lhe faltava experiência, que provaram o óbvio de qualquer relação: esperar demais faz o tempo agir sem perdão. O tempo, meu maior inimigo, para mim já passava devagar demais, logo eu que nasci para ver as mulheres atrás, só enxergava Tainá de longe, achando que eu era apenas um amigo, daqueles que sempre ao seu colo volta, cheio de histórias para contar. Mas eu não queria o colo de Tainá para apenas repousar e servir de escolta. Queria beijar.
Com medo de mim, Tainá fugiu enquanto eu dela já não lembrava. Mal deu tempo de descansar como eu esperava, e na minha porta bate Yasmin. Essa sim cheia de amor pra dar... E muitas coisas para falar. É mulher, esse preço eu teria que pagar se por ela eu quisesse finalmente me apaixonar. Quem diria, eu apaixonado! Quanta ironia, se eu nunca me vi acordando com alguém ao lado. Não foi dessa vez, não sei ao certo por que, mas Yasmin de sumida se fez, e acho que algo legalmente ilegal foi fazer. Sumiu, me abandonou, me deixando apenas comigo, um vazio, esse projeto pobre de sonhador.
De tanto sonhar, muitos caminhos eu segui. Alguns deles eu mesmo construí, sem saber onde iriam terminar. Conheci Luana, Andressa, Vanessa e Mariana, até que um dia me emendei. Foi por Luísa que, enfim, me apaixonei. Luísa? Não era Bianca? Quem saberá, a quem importará? A mim, por exemplo, me basta a lembrança. Tanto faz! Ainda me sinto o mesmo homem-palhaço de antes com o nariz vermelho na cara. Sigo vivendo esse tempo que não para, com meus – e só meus – devaneios delirantes. Talvez, sabe Deus, eu consiga em dois braços femininos finalmente aportar, para que alguém partilhe dos sonhos meus, e eu viva a doce e enganosa ilusão de que irei, até o fim da vida, simplesmente descansar.

Um comentário:

Isabelle Dias disse...

Meniino ! Tô passada aqui.
Me apaixonei pelo texto. Muito, MUITO bom !