domingo, 21 de novembro de 2010

O resto de mais nada

E quando não sobra mais nada... Tudo é nada... Fim. O que se vê é um imenso vazio, infinito clarão, claro, escuro. Nada se vê. Os olhos viram matéria, deixam de enxergar o que um dia foi alimento, o corpo perde seu alimento. O corpo se transforma em alimento. Fome. Há tempos atrás, como era lindo buscar, correr atrás, conhecer o novo, cheios de inocência, como se esse novo nunca fosse envelhecer. Velho. Somos velhos. O tempo, calculista e articulador, tramou o plano perfeito para nós. Contra ou a favor. Ele nos encheu de vida, nos iludiu com a promessa de que nunca iria terminar. Blefou. Nesse jogo todos nós, um dia, baixamos as cartas e pedimos arrego. Deixamos de apostar.
E quando o que sobra é apenas um longínquo resto, um traço quase apagado daquilo que um dia chamamos de eu... Chamaremos o quê? De fumaça? De espelho? De simples ilusão? Não chamaremos ninguém para nos ajudar, toda a cota de ombros amigos e mãos estendidas já foram alcançadas. Não há mais para onde correr, não há mais a quem recorrer. Depois do nada, o nada tudo é, simples como uma nuvem, que paira bela e serena, mas despenca sobre nós em momentos de turbulência. A chuva. Quando eu perceber que a chuva não me molha mais... Eu serei chuva. De tristeza, de melancolia, de pura e dolorosa despedida.
E quando não formos mais do que grãos, que o vento leva de um canto a outro... Seremos todos os cantos. Estaremos em cada passo que os outros derem, em cada marca que o mundo cravar no seio da terra, em todo caminho que sobre nós for traçado, por aqueles que ficaram. E quem ficou? Será que alguém pode me ouvir? Deste plano tão insólito, desta terra que mais parece refúgio, mal sei se é inferno, se é céu. Não é vermelho. Não é azul. Minha infância foi coberta por mentiras que descubro agora. Depois que não houver mais nada, para onde eu irei? Até onde eu cheguei? Pouco importa agora tudo o que eu deixei de legado para um mundo, que nunca mais lembrará de mim. Se um dia alguém lembrou.
E quando os dias não forem mais tão claros... As noites serão mais frias, o que brilhar acima de nós serão estrelas, seriam nós mesmos. Depois do nada, olhos azuis, peles e seda, almas e erros, tudo. Tudo. Mais que tudo. As coisas que um dia pude nomear, hoje são inomináveis. O que um dia eu pude sentir, meus sentidos não me permitem mais. Seria um acaso ou seria tudo uma grande e bem sucedida armação dos deuses, que somente pelo fato de serem superiores, arrumaram um jeito de mudar o rumo do meu vento? Muitos são aqueles que agem da mesma forma torpe, sem nenhum título de divindade. Desde quando precisamos ser um deus para trocar as peças de lugar, no tabuleiro da vida? Simples seria, se as peças não fossem nós mesmos.
Por fim, quando tudo não passar de um breve sonho finito, de uma serenata em seus últimos acordes, talvez acordes. Acordar. Quando isso acontecer, nada será mais óbvio do que a certeza de que estávamos imersos em um sono diferente. Um sonho vazio, que nos fez vagar pelo infinito buraco negro, branco, multicolorido, do nada. Quando não restar mais nada, nem pó do que um dia fomos, nem das esperanças do que um dia poderíamos ser, aí sim terá chegado a nossa vez. A hora. Quando nada mais restar, o resto será vazio. O vazio será fim. E o fim, quem sabe, um dia volte a ser começo. Recomeço.

Um comentário:

filizzolinha disse...

Descreves a REALidade (poeticamente e descritivamente) muito bem. EnFIM...