sexta-feira, 19 de novembro de 2010

15 anos - parte III

Ela não poderia imaginar, nem em seus melhores devaneios, reencontrar seu pai vivo. Mas, se pudesse, não escolheria situação tão cruel. Aquele homem, do qual se afastara com um pulo de susto e pavor, não era sombra do grande Vitor Castanho do passado, da imagem que ela fez questão de guardar dele durante toda a sua vida. Barbudo, sujo, sofrido. Marcela, transtornada com razão, não conseguia parar de chorar e seu pai, com a face cheia de arrependimento e vergonha, idem. Depois do susto, Marcela só queria entender como, antes de pensar em saber por quê. Ele não tinha palavras. Ela tinha.
- Mas como? Como? Você... Meu pai... Como? Você aqui, na minha frente, assim... Eu chorei por você, eu sofri, me dilacerei pela sua morte, toda a sua família, todos... A minha mãe... Eu culpei a minha mãe esse tempo todo por você ter morrido, e agora eu vejo que... Você não morreu! Logo você que sempre foi meu exemplo, meu espelho de valores, de princípios, de bondade... Como você foi capaz? Como, pai? Por quê? Por quê?
Vitor tentava balbuciar algumas palavras...
- Filha, o que eu fiz não tem perdão, nem justificativa... Eu sou um projeto de gente, não mereço nada de você nem de sua mãe, mas eu te peço, filha... Me escuta! Por favor! Me dá uma chance...
- Te dar uma chance? Você quer que eu te dê uma chance? Você deu uma chance pra mim? Pra mamãe? Pra sua família? Deu, pai? Você tem razão, você não passa de um projeto... Aliás, de tão pequeno e baixo... Nem projeto você é! Você...
Nesse momento as sirenes interromperam esse reencontro trágico, era a polícia. Alguém viu o seqüestro e denunciou, mas não vem ao caso. Na delegacia, os bandidos foram presos, Marcela também, e Vitor, surpreendendo a todos, ficou em uma sala reservada da delegacia. Pediu para falar com uma pessoa apenas. Regina. Quando sua esposa olhou nos seus olhos, parecia não acreditar no que via. O marido que ela enterrou, pelo qual se martirizou durante meses, estava ali, na sua frente, em pedaços. Vitor não teve tempo e fôlego para pronunciar uma sílaba sequer, então Regina desabafou:
- Vitor? Vitor? Que brincadeira é essa? Vitor, eu... Eu... Eu te enterrei, eu joguei flores sobre o seu caixão, eu nunca deixei de visitar seu túmulo... E você aqui? Como, meu Deus, como? Isso é surreal... Como você pôde... Comigo, com sua filha? Como, Vitor?
- Eu não sei o que dizer, Regina, nem sei como te explicar tudo isso...
- Mas explica, Vitor! Explica! Meu Deus do céu, por quê? Por quê?
- Eu não agüentava mais a vida que eu levava, eu sofria, nosso casamento não tinha mais jeito, a minha vida não tinha.
Regina, com raiva e ódio, respondeu:
- Mas bastava o divórcio, Vitor! Bastava você assinar um papel, mas não! Você preferiu destruir vidas inocentes por causa da sua fraqueza, Vitor! Isso que você é, um fraco! Fraco de alma, de espírito, de coração! Egoísta... Mas me responde uma coisa... Como? Você não fez isso sozinho... Quem foi? Era ela? Fala, Vitor!!!
Ela, no caso, foi o motivo da última briga entre o casal, no dia dos 15 anos de Marcela, que causou todo esse transtorno. Regina tinha encontrado um e-mail de outra mulher... Suspeito... Era de Fernanda, sua melhor amiga (que a avisou do desastre que “matou” Vitor).

Nenhum comentário: