quinta-feira, 18 de novembro de 2010

15 anos - parte II

O dia inteiro foi agitado para Marcela. A debutante nem conseguiu dormir na noite anterior de tanta ansiedade, que só fazia aumentar nas horas que antecediam o Baile. Entretanto uma coisa a confortava, a certeza de que tudo isso tinha servido de alguma coisa. Cabelo, maquiagem, vestido, perfeição. Para Marcela, nada poderia dar errado. Pena que foi diferente para seus pais.
Regina e Vitor estavam entrando nos rumos, parecia que a energia que aquela festa tinha tomado se transformava, finalmente, em afeto, em carinho, no amor que nunca deixaram de sentir um pelo outro. Regina estava radiante, pois nunca desistiu de seu amor por Vitor, lutando com unhas, dentes e coração pela integridade da sua família e ele, com aparência menos feliz, que chegava a soar, por instantes, um certo fingimento forçado, não expressava nada contrário. Fazia sua esposa feliz. Mas naquele dia, justamente naquele dia, o velho hábito voltou a aparecer. O casal brigou feio em casa, como se o passado recente pouco importasse. Ofensas, acusações, em graus elevados, que infelizmente Marcela flagrou. Ao chegar em casa, com sua beleza ressaltada por uma maquiagem inutilmente perfeita, estranhou os gritos. Foi quando se aproximou da porta e viu seus pais discutindo ferozmente, como antes e, logo depois, saindo transtornado de casa em direção ao carro. Marcela tentou evitar que ele dirigisse como estava, mas foi em vão.
Regina e Marcela então seguiram Vitor no carro da mãe, como se pudessem alcançá-lo. Vitor corria, acelerava, voava, até desaparecer da visão de sua filha e de sua esposa. Passaram algumas horas, eram quase 6 da tarde, quando Fernanda, a melhor amiga de Regina, trouxe a notícia que iria mudar o rumo dessa história. O carro de Vitor se transformou em uma bola de fogo e ferro, em um abismo menor do que aquele que a notícia estava abrindo nos corações de Marcela e de Regina. Estava morto. Pouco tempo depois a polícia do local confirmou o acidente fatídico. Era o fim de uma vida, o fim das esperanças de Regina, o fim dos sonhos de Marcela, que só queria ver sua família junta novamente. No dia dos seus 15 anos, Marcela perdia mais que seu pai. Perdia tudo o que chamava de futuro.
Dali em diante, a jovem doce e sensível deu lugar a um ser estranho, sombrio e cada vez mais distante. Passou a culpar a sua mãe pela morte do pai, acusando-a de ter estragado tudo e de nunca ter amado de verdade Vitor. Revolta de uma criança que tinha seu chão tirado de uma hora para outra e não tinha onde se apoiar. Passou a se afastar da escola, suas notas caíram. Suas amigas passaram a ser desconhecidas, desconheciam Marcela, a boneca que caiu de sua bolha no mundo cruel da realidade. Os meses foram passando... Um ano se passou... E foi no meio desse furacão incessante que conheceu Tony. Marcela, em uma de suas aventuras sem lei, esbarrou nesse homem, 19 anos, que passou a lhe dar o apoio que procurava. Mas Tony não fazia isso por bondade. Fazia por interesse. Criminoso, com roubos, seqüestros e homicídios em sua ficha, viu em Marcela uma parceira fiel nos seus planos, pois ela se jogou de cabeça sem pestanejar.
Então, junto com sua quadrilha, Tony conquistou a confiança de Marcela, que entrou no mundo quase sem volta do crime, empolgada, porque via que suas necessidades de afeto e atenção se supriam com adrenalina e a sensação de que era importante para alguém. Marcela, então, deu uma idéia que de pronto foi aceita pelos seus parceiros: um grande assalto à sua ex-mansão. Ela não queria nenhum bem que um dia dela foi, seu único objetivo era o de se vingar da mãe, que destruiu sua vida. Arquitetaram o plano, com minúcias, armando um bote perfeito. No dia, a tensão de Marcela se misturava com um remorso, que não conseguia ser um décimo da sede de vingança que lhe embebia os olhos com sangue. Era chegada a hora.
Chegaram em frente à casa no horário combinado, tudo ia muito bem. Até que eles avistaram uma pessoa rondando o lugar. Vestia preto, feições masculinas, coberto com um capuz, parecia esperar alguém, alguma reação, alguém na janela. Tony pensou rápido e determinou que aquele homem não iria os atrapalhar. Propôs que ele fosse levado dali, e Marcela concordou no ato. O homem ficou cercando a mansão o tempo suficiente para Tony preparar o sequestro. Os cinco, incluindo Marcela, capturaram aquele homem e, sem deixar pistas, partiram até um galpão abandonado. Lá o refém foi deixado, amarrado, ferido, transtornado. Foi quando Marcela, com voz altiva, ordenou, curiosa, que a pessoa a sua frente mostrasse seu rosto, mas o refém se negava. Sem paciência, Marcela foi até ele, tirou seu capuz e... Era Vitor. Seu pai.

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