domingo, 28 de novembro de 2010

O que é, o que é?

As mãos tremem, a testa sua, o coração acelera. Ah, que sentimento é esse, que chega sem avisar, toma de assalto, atropela e avança sem ponderar, que nos derruba e faz voar ao mesmo tempo? Como se chama esse arrepio, essa tremedeira incontrolável, que faz as pessoas mais normais agirem das maneiras mais estranhas ao ver um olhar, um bilhete ou um simples recado? É amor? É paixão? O que é?

Se for paixão, tudo bem. Você ainda tem salvação, se quiser, claro. Pode se controlar um pouco, mesmo ardendo em chamas. Agora, se isso tudo for amor, amigo, prepare-se! Você entrou em um caminho cujo retorno fica longe, bem longe... mas, afinal, qual a diferença entre o amor e a paixão? Simples! Um apaixonado consegue viver tranquilamente a distância, consegue se alimentar, suporta acordar sem ninguém ao lado na cama e, acredite, conhece seus limites. Mas quem ama de verdade não tem limites. O amor cega, ensurdece, enlouquece. Dez minutos sem uma ligação do amado viram desprezo, o buquê de flores vira traição, a distância vira eternidade.

Quem se apaixona não abre mão de sua vida; quem ama não abre mão da vida do outro. O apaixonado quer o bem da outra pessoa; quem ama quer a pessoa. O amor é egoísta, quer exclusividade, quer notoriedade. Obriga o seu alvo a mostrar ao mundo que ele existe, custe o que custar. Quantas paixões simultâneas alguém pode ter na vida? Ah, como é bom! A sensação de liberdade do apaixonado... As correntes do amor possuem sim um cadeado, com as chaves muito bem guardadas em um lugar difícil de chegar: a separação. Paixões vem e vão, amores também. O que difere um do outro são os estragos, o que eles deixam depois de passarem pela pessoa. A paixão pode nem ser notada. O amor, bem, o amor quase sempre passa feito tsunami na ásia.

Por favor, não precisa atirar seu Cinco Minutos em mim, se você é romântico inveterado. Eu não estou criticando nem um nem outro. Quem sou eu para tal! Afinal de contas, sou terráqueo, feito de carne, osso e coração, ou seja, já fui – ou ainda sou, eternamente serei – vítima destes dois ótimos venenos. Amar é bom, afaga a alma, conforta, faz felicidade brotar das esquinas, dos hidrantes, das janelas. O sol brilha mais forte, a lua é mais clara... Muito sol pode queimar, claridade demais pode cegar... Paixão também é coração, óbvio. As doses sim são distintas.

Portanto, caros leitores, o amor e a paixão são diferentes, mesmo tão próximos. Os sintomas iniciais são praticamente os mesmos. O calor do corpo e o frio da barriga, o medo, o desejo, as esperanças. Enfim, estar apaixonado nada mais é do que um estágio, um degrau, talvez o mais próximo até o amor verdadeiro, na escada alta e sem corrimãos construída pela cabeça e sustentada pelo coração. A linha que nos separa o resto de sanidade da loucura é tênue, tão tênue quanto os nossos caprichos. Se você está apaixonado, preste atenção! Você já pode estar amando e nem sabe. E o que adianta saber, se voltar atrás nem sempre é a melhor opção?



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sobreviventes

Entre balas de fuzis uma cidade tenta sobreviver. No meio de trincheiras, bombas e soldados, de bem e do mal, levantando bandeiras bastante diferentes, uma cidade tenta sobreviver. O Rio pede paz. Somente o Rio?

Reféns. Todos nós, de norte à sul deste planeta chamado Brasil, somos reféns do medo, da insegurança, do terror. Achar que apenas cariocas precisam de escudo é desconhecer a realidade de sua própria realidade, é fechar os olhos ao manto negro que, infelizmente, cobre uma nação inteira. O caos de um país cabe em uma cidade nestes dias. E agora? Cuidar das causas ou das consequências? O que gera o quê? Será que a violência é apenas física, e que os tiros perfuram somente corpos?

O sofrimento é físico, intelectual, moral. A moral de uma cidade maravilhosa, bonita por natureza, sede olímpica, de Copa do Mundo, cheia de qualidades para mostrar ao Brasil e ao mundo, mostra também o lado mais sombrio, sombra que invade favelas, condomínios, da Penha ao Leblon. Mas o buraco é bem mais embaixo. Vem de antes do primeiro gatilho apertado. Talvez o erro esteja lá no comecinho, o comecinho da vida, educação. Falhou, não atraiu, não educou. O resultado: ligue a TV, visite um site de notícias, abra o jornal. Você não verá nada de novo. Nem a sua reação será.

Assistimos ao vivo a uma guerra que somente os Estados Unidos eram capazes de nos proporcionar. A guerra é aqui. A guerra somos nós. Todos somos guerreiros, muitos lutam por todos, fardados, defendendo seus interesses. Outros lutam pela perpetuação de um mal, que mata sem pólvora, que destrói sem canhões. A maioria, no entanto, luta apenas pelas suas próprias vidas, que é mais do que o bem mais valioso para alguns. É o único bem. Apenas chegar em casa se torna uma odisseia, com heroísmo homérico, digno de aventuras clássicas. A diferença é que elas acontecem agora.

Prevenir é melhor, porém não é o suficiente. Tudo não é o suficiente, perante tamanha perplexidade. Se a solução fosse apenas melhorar a educação das crianças... Se fosse apenas criar programas que unissem os jovens pelo esporte, pelas artes, pelo futuro digno... Se fosse apenas rezar... A polícia não protege, remedia. As Forças Armadas são apenas a constatação de que os tempos mudaram. Para pior. As cidades viram campos abertos de batalha, onde os civis são espectadores, protagonistas e narradores, ao mesmo tempo. São. Somos. Vítimas.

Até quando vai durar? Adianta saber? Traficantes, policiais, cariocas, quem vai saber? Nem eles sabem. Talvez a bandeira branca sejam dez, cem, mil, milhares, milhões, que nós temos a obrigação de hastear. Não apenas agora. Quando votamos, quando entramos na sala de aula, quando pagamos nossos (absurdos) impostos, quando respeitamos o próximo, todos os dias. A solução pode estar nas mais simples atitudes, que podem garantir a nós o direito básico de viver. E enquanto esse dia dos sonhos não chega, o que nos resta é torcer. O que nos resta é sobreviver.


domingo, 21 de novembro de 2010

O resto de mais nada

E quando não sobra mais nada... Tudo é nada... Fim. O que se vê é um imenso vazio, infinito clarão, claro, escuro. Nada se vê. Os olhos viram matéria, deixam de enxergar o que um dia foi alimento, o corpo perde seu alimento. O corpo se transforma em alimento. Fome. Há tempos atrás, como era lindo buscar, correr atrás, conhecer o novo, cheios de inocência, como se esse novo nunca fosse envelhecer. Velho. Somos velhos. O tempo, calculista e articulador, tramou o plano perfeito para nós. Contra ou a favor. Ele nos encheu de vida, nos iludiu com a promessa de que nunca iria terminar. Blefou. Nesse jogo todos nós, um dia, baixamos as cartas e pedimos arrego. Deixamos de apostar.
E quando o que sobra é apenas um longínquo resto, um traço quase apagado daquilo que um dia chamamos de eu... Chamaremos o quê? De fumaça? De espelho? De simples ilusão? Não chamaremos ninguém para nos ajudar, toda a cota de ombros amigos e mãos estendidas já foram alcançadas. Não há mais para onde correr, não há mais a quem recorrer. Depois do nada, o nada tudo é, simples como uma nuvem, que paira bela e serena, mas despenca sobre nós em momentos de turbulência. A chuva. Quando eu perceber que a chuva não me molha mais... Eu serei chuva. De tristeza, de melancolia, de pura e dolorosa despedida.
E quando não formos mais do que grãos, que o vento leva de um canto a outro... Seremos todos os cantos. Estaremos em cada passo que os outros derem, em cada marca que o mundo cravar no seio da terra, em todo caminho que sobre nós for traçado, por aqueles que ficaram. E quem ficou? Será que alguém pode me ouvir? Deste plano tão insólito, desta terra que mais parece refúgio, mal sei se é inferno, se é céu. Não é vermelho. Não é azul. Minha infância foi coberta por mentiras que descubro agora. Depois que não houver mais nada, para onde eu irei? Até onde eu cheguei? Pouco importa agora tudo o que eu deixei de legado para um mundo, que nunca mais lembrará de mim. Se um dia alguém lembrou.
E quando os dias não forem mais tão claros... As noites serão mais frias, o que brilhar acima de nós serão estrelas, seriam nós mesmos. Depois do nada, olhos azuis, peles e seda, almas e erros, tudo. Tudo. Mais que tudo. As coisas que um dia pude nomear, hoje são inomináveis. O que um dia eu pude sentir, meus sentidos não me permitem mais. Seria um acaso ou seria tudo uma grande e bem sucedida armação dos deuses, que somente pelo fato de serem superiores, arrumaram um jeito de mudar o rumo do meu vento? Muitos são aqueles que agem da mesma forma torpe, sem nenhum título de divindade. Desde quando precisamos ser um deus para trocar as peças de lugar, no tabuleiro da vida? Simples seria, se as peças não fossem nós mesmos.
Por fim, quando tudo não passar de um breve sonho finito, de uma serenata em seus últimos acordes, talvez acordes. Acordar. Quando isso acontecer, nada será mais óbvio do que a certeza de que estávamos imersos em um sono diferente. Um sonho vazio, que nos fez vagar pelo infinito buraco negro, branco, multicolorido, do nada. Quando não restar mais nada, nem pó do que um dia fomos, nem das esperanças do que um dia poderíamos ser, aí sim terá chegado a nossa vez. A hora. Quando nada mais restar, o resto será vazio. O vazio será fim. E o fim, quem sabe, um dia volte a ser começo. Recomeço.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

15 anos - final

- Fala, Vitor? A Fernanda... Ela tem algo a ver com isso? Fala!
Então, Vitor contou tudo:
- Nem sei como começar... Ela apareceu na minha vida quando nada estava dando certo, e me cativou. Não pude evitar, foi forte, e eu estava fraco. Ela me entendia... Me acalmava, me confortava...
Enojada com o que acabava de ouvir, Regina exclamou:
- Vitor... Você é ainda menor do que eu imaginei, você é pior do que ela...
- Eu ainda não terminei, Regina! Me deixa terminar, não posso mais guardar isso em mim. Então... A Fernanda me propôs essa idéia, de sumir, de “morrer” e nascer de novo, como uma outra pessoa... Renascer! Era disso que eu estava precisando... Eu estava cego de fracasso, nos negócios, na família... Não via outra saída a não ser essa! Fomos embora, passamos um tempo fora do país, com uma identidade falsa... Antenor Moreira... O plano estava dando certo, mas ninguém sabe o quanto eu quis recuar, mas isso só faria vocês sofrerem ainda mais... O tanto quanto eu também sofri. A Fernanda me roubou, me deixou sem nada na Argentina, eu estava arruinado, eu Vitor e eu Antenor, sem dinheiro, sem identidade, sem vida...
Regina interrompeu:
- E sem caráter. Vitor, você... Eu vivi mais de vinte anos com um estranho... Eu me casei com um covarde, com um egoísta... Meu Deus, meu Deus, como eu tentei salvar a gente, Vitor, como eu tentei... Você e a sua covardia acabaram com a minha vida... Eu me culpei por todo esse tempo pela sua morte, como eu chorei... E a Marcela? Sabe? Sua filha? Ela está aqui ao lado, em uma cela, uma CELA! Presa, sem mais nada, destroçada... Você, Vitor, não matou a si mesmo. Você matou a nós três. Hoje eu consigo entender... Você é pior do que aquela vagabunda da Fernanda... O seu caráter é aquilo que te dizem pra fazer, então você é menor, vale menos do que ela... Dela eu sinto pena, mas de você, Vitor Castanho... Nem isso!
As lágrimas de Regina provocavam as de Vitor que apenas ensaiava dizer algo, balbuciava:
- Eu não mereço perdão, o que eu fiz foi monstruoso, eu sei, não mereço piedade, mas... Talvez um dia você me escute. Talvez...
Sem mais agüentar tamanho rasgo ensangüentado em seu coração, Regina falou a Vitor aquelas que seriam suas últimas palavras a ele:
- Vitor, não haverá mais “um dia” entre nós. Naquele enterro, aquela terra cobriu o que eu sentia por você, e o que sobrou foi hoje. Você pra mim não existe mais, Vitor. Nem pra mim, nem pra Marcela. Aquela festa de 15 anos, aquela noite, foi a primeira das últimas que você estragou nas nossas vidas... E, se você ainda puder fazer algo por nós, morra. Morra de verdade. Vitor, Antenor, quem quer que você seja. O que quer que você seja. Morra!
E nunca mais voltou.
(Hoje, 5 anos depois, Regina está noiva, voltou a sorrir, voltou a viver. De Vitor nunca mais se ouviu falar... E Marcela, hoje uma mulher, comemora mais um ano de vida, em sua casa, com seus amigos, com sua família de verdade. Hoje é feliz, mesmo ainda machucada por um sonho que nunca realizou: sua festa de 15 anos).


FIM


15 anos - parte III

Ela não poderia imaginar, nem em seus melhores devaneios, reencontrar seu pai vivo. Mas, se pudesse, não escolheria situação tão cruel. Aquele homem, do qual se afastara com um pulo de susto e pavor, não era sombra do grande Vitor Castanho do passado, da imagem que ela fez questão de guardar dele durante toda a sua vida. Barbudo, sujo, sofrido. Marcela, transtornada com razão, não conseguia parar de chorar e seu pai, com a face cheia de arrependimento e vergonha, idem. Depois do susto, Marcela só queria entender como, antes de pensar em saber por quê. Ele não tinha palavras. Ela tinha.
- Mas como? Como? Você... Meu pai... Como? Você aqui, na minha frente, assim... Eu chorei por você, eu sofri, me dilacerei pela sua morte, toda a sua família, todos... A minha mãe... Eu culpei a minha mãe esse tempo todo por você ter morrido, e agora eu vejo que... Você não morreu! Logo você que sempre foi meu exemplo, meu espelho de valores, de princípios, de bondade... Como você foi capaz? Como, pai? Por quê? Por quê?
Vitor tentava balbuciar algumas palavras...
- Filha, o que eu fiz não tem perdão, nem justificativa... Eu sou um projeto de gente, não mereço nada de você nem de sua mãe, mas eu te peço, filha... Me escuta! Por favor! Me dá uma chance...
- Te dar uma chance? Você quer que eu te dê uma chance? Você deu uma chance pra mim? Pra mamãe? Pra sua família? Deu, pai? Você tem razão, você não passa de um projeto... Aliás, de tão pequeno e baixo... Nem projeto você é! Você...
Nesse momento as sirenes interromperam esse reencontro trágico, era a polícia. Alguém viu o seqüestro e denunciou, mas não vem ao caso. Na delegacia, os bandidos foram presos, Marcela também, e Vitor, surpreendendo a todos, ficou em uma sala reservada da delegacia. Pediu para falar com uma pessoa apenas. Regina. Quando sua esposa olhou nos seus olhos, parecia não acreditar no que via. O marido que ela enterrou, pelo qual se martirizou durante meses, estava ali, na sua frente, em pedaços. Vitor não teve tempo e fôlego para pronunciar uma sílaba sequer, então Regina desabafou:
- Vitor? Vitor? Que brincadeira é essa? Vitor, eu... Eu... Eu te enterrei, eu joguei flores sobre o seu caixão, eu nunca deixei de visitar seu túmulo... E você aqui? Como, meu Deus, como? Isso é surreal... Como você pôde... Comigo, com sua filha? Como, Vitor?
- Eu não sei o que dizer, Regina, nem sei como te explicar tudo isso...
- Mas explica, Vitor! Explica! Meu Deus do céu, por quê? Por quê?
- Eu não agüentava mais a vida que eu levava, eu sofria, nosso casamento não tinha mais jeito, a minha vida não tinha.
Regina, com raiva e ódio, respondeu:
- Mas bastava o divórcio, Vitor! Bastava você assinar um papel, mas não! Você preferiu destruir vidas inocentes por causa da sua fraqueza, Vitor! Isso que você é, um fraco! Fraco de alma, de espírito, de coração! Egoísta... Mas me responde uma coisa... Como? Você não fez isso sozinho... Quem foi? Era ela? Fala, Vitor!!!
Ela, no caso, foi o motivo da última briga entre o casal, no dia dos 15 anos de Marcela, que causou todo esse transtorno. Regina tinha encontrado um e-mail de outra mulher... Suspeito... Era de Fernanda, sua melhor amiga (que a avisou do desastre que “matou” Vitor).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

15 anos - parte II

O dia inteiro foi agitado para Marcela. A debutante nem conseguiu dormir na noite anterior de tanta ansiedade, que só fazia aumentar nas horas que antecediam o Baile. Entretanto uma coisa a confortava, a certeza de que tudo isso tinha servido de alguma coisa. Cabelo, maquiagem, vestido, perfeição. Para Marcela, nada poderia dar errado. Pena que foi diferente para seus pais.
Regina e Vitor estavam entrando nos rumos, parecia que a energia que aquela festa tinha tomado se transformava, finalmente, em afeto, em carinho, no amor que nunca deixaram de sentir um pelo outro. Regina estava radiante, pois nunca desistiu de seu amor por Vitor, lutando com unhas, dentes e coração pela integridade da sua família e ele, com aparência menos feliz, que chegava a soar, por instantes, um certo fingimento forçado, não expressava nada contrário. Fazia sua esposa feliz. Mas naquele dia, justamente naquele dia, o velho hábito voltou a aparecer. O casal brigou feio em casa, como se o passado recente pouco importasse. Ofensas, acusações, em graus elevados, que infelizmente Marcela flagrou. Ao chegar em casa, com sua beleza ressaltada por uma maquiagem inutilmente perfeita, estranhou os gritos. Foi quando se aproximou da porta e viu seus pais discutindo ferozmente, como antes e, logo depois, saindo transtornado de casa em direção ao carro. Marcela tentou evitar que ele dirigisse como estava, mas foi em vão.
Regina e Marcela então seguiram Vitor no carro da mãe, como se pudessem alcançá-lo. Vitor corria, acelerava, voava, até desaparecer da visão de sua filha e de sua esposa. Passaram algumas horas, eram quase 6 da tarde, quando Fernanda, a melhor amiga de Regina, trouxe a notícia que iria mudar o rumo dessa história. O carro de Vitor se transformou em uma bola de fogo e ferro, em um abismo menor do que aquele que a notícia estava abrindo nos corações de Marcela e de Regina. Estava morto. Pouco tempo depois a polícia do local confirmou o acidente fatídico. Era o fim de uma vida, o fim das esperanças de Regina, o fim dos sonhos de Marcela, que só queria ver sua família junta novamente. No dia dos seus 15 anos, Marcela perdia mais que seu pai. Perdia tudo o que chamava de futuro.
Dali em diante, a jovem doce e sensível deu lugar a um ser estranho, sombrio e cada vez mais distante. Passou a culpar a sua mãe pela morte do pai, acusando-a de ter estragado tudo e de nunca ter amado de verdade Vitor. Revolta de uma criança que tinha seu chão tirado de uma hora para outra e não tinha onde se apoiar. Passou a se afastar da escola, suas notas caíram. Suas amigas passaram a ser desconhecidas, desconheciam Marcela, a boneca que caiu de sua bolha no mundo cruel da realidade. Os meses foram passando... Um ano se passou... E foi no meio desse furacão incessante que conheceu Tony. Marcela, em uma de suas aventuras sem lei, esbarrou nesse homem, 19 anos, que passou a lhe dar o apoio que procurava. Mas Tony não fazia isso por bondade. Fazia por interesse. Criminoso, com roubos, seqüestros e homicídios em sua ficha, viu em Marcela uma parceira fiel nos seus planos, pois ela se jogou de cabeça sem pestanejar.
Então, junto com sua quadrilha, Tony conquistou a confiança de Marcela, que entrou no mundo quase sem volta do crime, empolgada, porque via que suas necessidades de afeto e atenção se supriam com adrenalina e a sensação de que era importante para alguém. Marcela, então, deu uma idéia que de pronto foi aceita pelos seus parceiros: um grande assalto à sua ex-mansão. Ela não queria nenhum bem que um dia dela foi, seu único objetivo era o de se vingar da mãe, que destruiu sua vida. Arquitetaram o plano, com minúcias, armando um bote perfeito. No dia, a tensão de Marcela se misturava com um remorso, que não conseguia ser um décimo da sede de vingança que lhe embebia os olhos com sangue. Era chegada a hora.
Chegaram em frente à casa no horário combinado, tudo ia muito bem. Até que eles avistaram uma pessoa rondando o lugar. Vestia preto, feições masculinas, coberto com um capuz, parecia esperar alguém, alguma reação, alguém na janela. Tony pensou rápido e determinou que aquele homem não iria os atrapalhar. Propôs que ele fosse levado dali, e Marcela concordou no ato. O homem ficou cercando a mansão o tempo suficiente para Tony preparar o sequestro. Os cinco, incluindo Marcela, capturaram aquele homem e, sem deixar pistas, partiram até um galpão abandonado. Lá o refém foi deixado, amarrado, ferido, transtornado. Foi quando Marcela, com voz altiva, ordenou, curiosa, que a pessoa a sua frente mostrasse seu rosto, mas o refém se negava. Sem paciência, Marcela foi até ele, tirou seu capuz e... Era Vitor. Seu pai.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

15 anos - parte I

Marcela era a menina mais feliz do mundo. Nascida em berço de cristal, sempre teve tudo o que desejava e até o que nem tinha tempo de querer. Filha de um famoso casal de empresários, figurinhas carimbadas nas colunas sociais, era linda feito uma boneca, delicada como uma pena. Sempre freqüentou as melhores escolas, viajava pelo mundo e, mesmo com pouca idade, já conhecia lugares que experiência nenhuma poderia levar alguém comum, coisa que Marcela definitivamente não era.
Sua mãe, Regina, fazia jus ao nome que impunha. Era uma rainha, dentro e fora de seus aposentos. No trabalho, era editora de uma importante revista de variedades. Em casa, uma mãe zelosa e carinhosa, além de patroa exigente, mas nunca injusta. Seu pai, o grande Vitor Castanho, um magnata da comunicação, dono da editora onde sua esposa trabalhava e brilhava, por mérito próprio, que fique claro. Mas fracassava ao sair de seu escritório e desligar o computador. Como pai, tentava ser presente, e talvez somente por isso merecesse os créditos de Marcela. Como marido, pouco fazia para evitar que seu casamento desmoronasse. Na verdade, pouco ele poderia fazer. Mas nem isso.
Aquela jovem, uma criança, já tinha visto e entendido o suficiente, o casamento dos pais estava terminando, mas ela não via alternativas, nem meios de ajudar a unir o casal. Mal sabia que ela era o próprio último fio da corda que unia Regina e Vitor. Os últimos dos mais de 20 anos de casamento dos dois vinham sendo os piores das vidas de toda a família, que se via obrigada a sorrir para as capas de revista, mesmo sangrando por dentro. Discussões graves, ameaças de agressão física, reais agressões verbais e psicológicas, não havia mais respeito, não havia mais saudade. Porém eles ainda estavam juntos e, enquanto isso, sempre haveria chance de, quem sabe, esse casamento fosse resgatado. E um evento que reunisse toda a família poderia ser o estopim dessa ressurreição.
Marcela estava prestes a completar 15 anos, um momento especial para qualquer garota, ainda mais para ela, que via no seu aniversário a chance mais real de sua vida de conseguir colar os cacos de seus pais. Não conversava sobre outra coisa, tratou de criar a festa dos sonhos, com direito a tudo e até mais, como sempre desejou. E isso de fato surtiu efeito. Vitor e Regina se reaproximaram, o amor que sentiam e por eles também era sentido por Marcela fez a indiferença sumir, dando espaço a um carinho que os dois há muito não se permitiam trocar entre eles. Fizeram o que de mais lindo conseguiram pela sua filha, a noite tinha que ser perfeita. E chegou a grande noite!

sábado, 13 de novembro de 2010

Porto inseguro

Desde o dia em que dos céus caí feito chuva forte, vítima indefesa da gravidade, eu senti que algo me trouxe bastante felicidade. Esse algo era sorte. Maldita sorte, que me fez refém, de alguém que nem ao certo conhecia, mas que desde então e para todo o sempre me confundiria, como um labirinto, ou melhor, dez, cem.
O primeiro se chamava Carolina. A dona dos mais lindos olhos de rubi, com a candura de uma virgem menina, em cujos braços com gosto me escondi. Esconder não foi a melhor saída, pois o excesso me feriu. Então, Carolina de mim fugiu, e me restou apenas acenar em sua partida. Mas não gastei tempo demais em recuperação, logo alguém novamente me fez de bobo, me fez feliz. Era Beatriz, que arrebatou meus olhos, meus desejos, meu coração.
Era linda, graciosa, mas como era vaidosa! Toda prosa, não se fazia de rogada na hora de passear sublime pela praça. Chamava atenção por natureza, por sua rara e violenta alteza, e o mundo não tinha motivos para cegar em sua passagem rumo a qualquer lugar. Sou egoísta e talvez careta, resolvi descansar um pouco, mas vejam só que louco, nesse hiato encontrei Julieta. Nunca imaginei que eu, em plena sanidade, fosse aceitar ser chamado de Romeu como se fosse a mais pura verdade.   
De Romeu não herdei nem ao menos a nobreza, mas a minha Julieta em mim via beleza, porém aos poucos eu fui fechando meus olhos e os dela, e de repente era passado a chama da nossa vela. Acabou, Shakespeare não escreveria nada para a minha vida vazia, que de desejo e carência só se enchia quando alguém pela minha rua passava... Uma garota feito ela. Gabriela.
Como poucas me fascinou, como a primeira. Com seu rosto que a natureza salpicou, queimava feito os frutos da pimenteira, quando seus lábios me tocavam, e com vontade me beijavam, como se eu fosse de suas noites a mais gostosa, de suas tardes a mais saudosa. Infelizmente, não mudei meu jeito de ser, acabei por me esquecer que uma vida só pode se contemplar se nos dispusermos a procurar. Procurar quem nos queira pleno, quem só nos queira amar, seja qual for o nome do veneno. Eis que surge Tainá.
Seu veneno era a paciência, já que não lhe faltava experiência, que provaram o óbvio de qualquer relação: esperar demais faz o tempo agir sem perdão. O tempo, meu maior inimigo, para mim já passava devagar demais, logo eu que nasci para ver as mulheres atrás, só enxergava Tainá de longe, achando que eu era apenas um amigo, daqueles que sempre ao seu colo volta, cheio de histórias para contar. Mas eu não queria o colo de Tainá para apenas repousar e servir de escolta. Queria beijar.
Com medo de mim, Tainá fugiu enquanto eu dela já não lembrava. Mal deu tempo de descansar como eu esperava, e na minha porta bate Yasmin. Essa sim cheia de amor pra dar... E muitas coisas para falar. É mulher, esse preço eu teria que pagar se por ela eu quisesse finalmente me apaixonar. Quem diria, eu apaixonado! Quanta ironia, se eu nunca me vi acordando com alguém ao lado. Não foi dessa vez, não sei ao certo por que, mas Yasmin de sumida se fez, e acho que algo legalmente ilegal foi fazer. Sumiu, me abandonou, me deixando apenas comigo, um vazio, esse projeto pobre de sonhador.
De tanto sonhar, muitos caminhos eu segui. Alguns deles eu mesmo construí, sem saber onde iriam terminar. Conheci Luana, Andressa, Vanessa e Mariana, até que um dia me emendei. Foi por Luísa que, enfim, me apaixonei. Luísa? Não era Bianca? Quem saberá, a quem importará? A mim, por exemplo, me basta a lembrança. Tanto faz! Ainda me sinto o mesmo homem-palhaço de antes com o nariz vermelho na cara. Sigo vivendo esse tempo que não para, com meus – e só meus – devaneios delirantes. Talvez, sabe Deus, eu consiga em dois braços femininos finalmente aportar, para que alguém partilhe dos sonhos meus, e eu viva a doce e enganosa ilusão de que irei, até o fim da vida, simplesmente descansar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Tango

Primeiro passaporte, passagens na mão, lá fui eu conhecer a Argentina. Buenos Aires. Muy buenos! Estava fascinado, nem ligava pro insignificante fato de que aquele país que me parecia tão interessante tivesse alguma rixa com minha pátria. Estava apenas e absolutamente encantado. Aquele clima gélido europeu, céu nublado, bem londrino, tudo o que eu esperava daquela cidade mais que graciosa. Eu e meus amigos fomos conhecer melhor aquela cidade, e nenhum achou necessária a provocação amarelinha. Passamos pela Bombonera, assustadoramente grande, conhecemos a Casa Rosada, a Catedral, o Obelisco, e o tour seguiu por horas agradabilíssimas. Até que a noite caiu e resolvemos conhecer a Argentina interessante.
Era um pub, um bar, enfim, um lugar muito bom para beber e contar as experiências e dividir a empolgação pela primeira noite fora do país. Então resolvemos procurar algum lugar onde tivesse um casal dançando tango. Claro, afinal estávamos na Argentina, é inaceitável sair de lá sem ver, ouvir e dançar o legítimo tango a lá Gardel, Piazzolla, sei lá. Achamos um restaurante e, por sorte, uma apresentação estava para começar. Só não tinha noção do quão importante seria o que eu iria ver.
Quando a luz caiu, soaram os primeiros acordes do violoncelo que chorava alto e forte, e o casal deu os primeiros passos, meus olhos vidraram naquela mulher. Inexplicavelmente eu só conseguia admirar com fervor aquele olhar fundo, fechado, sedutor. Me arrebatou! Vestido vermelho, dança quente, pernas se entrelaçando, música violenta e fatal, todo aquele cenário me fez alçar vôo naquele clima tenso e, ao mesmo tempo, delicioso. Feitiço? Paixão? Desejo? Era tudo isso junto, aquela mulher me hipnotizou. E eu deixei.
Saí daquele lugar com o pensamento nela, naquela dança, naquela moça. Tudo me encantou ali, acho que saí mais do que apaixonado. Saí diferente. Mesmo sabendo que nunca mais eu iria encontrá-la, talvez consciente disso, sabia que essa noite foi além do especial. A viagem seguiu por alguns dias, foi uma experiência maravilhosa, curtimos muito, mas sem dúvidas a imagem que terei daquela temporada em Buenos Aires será a sensualidade provocadora e envolvente daquela dança, daquela mulher.
Com o passar dos dias naquela cidade, eu fui entendendo mais o clima que me aofgou até o pescoço. Refleti, pensei muito, e todas aquelas coisas, a mulher, a música, a gravidade de tudo, a beleza que só vê quem sabe separar a tristeza cotidiana de uma arte tão inebriante. Pensando descobri que aquele trançado de pernas nada mais era do que o trançado das vidas, que se misturam, se tocam e se separam, num eterno movimento, onde cambiamos os pares a cada dança, mesmo sempre voltando aos nossos parceiros favoritos, com quem a dança se torna um clímax de tristeza e calor. Um tango da vida, com tons graves, cores sombrias, com o vermelho da vida. O vermelho de quem vive intensamente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A tendência

Eu tenho dezoito anos, e desde que eu me entendo por gente eu já passei por tantas fases que fica até difícil construir uma linha do tempo e delimitar quando começa e quando termina cada uma delas. Comecei no auge do pagode, onde um bigodinho e cabelos de macarrão faziam muito sucesso entre a mulherada e viraram mania nacional. Veio o funk, e o que eu chamo de funk é Bonde do Tigrão que, ironicamente, era animado, porém sutil. Comparando com as letras de hoje... Hoje qual é a tendência? Tudo que vem da internet, talvez. As revelações do sertanejo (?) e do chamado Happy Rock não começaram implorando nas rádios pra que tocassem suas músicas gravadas na garagem de casa. Tudo é bem diferente.
Hoje o que é diferente acaba se tornando comum, vicioso, uma epidemia que se alastra pela nossa jovem sociedade, que cada vez mais vem saindo de fábrica com entradas USB e Bluetooth. Mas é a moda. Do mesmo jeito que os anos 70 empurraram as calças pantalona nos armários mundo afora, hoje é a vez das cores. Sim, uma música e um estilo de vida que, acreditem ou não, conseguiram ofuscar – pelo menos publicamente – a mania de uns cinco anos atrás: ser emo. As franjas se mantém, mas o resto do cabelo começou a subir, a ganhar cortes diferentes, cores. Cores. Cores. Cores.
Muitos criticam bandas das calças apertadas e vozes finas, com letras que não se analisam mais em universidades e saraus, talvez por se tornarem fenômeno teen da noite pro dia, mas, o mundo hoje é tão agora, tão veloz que fica difícil definir o que não acontece de repente e, do mesmo jeito, deixa de acontecer. As críticas são um processo comum em cima de quase tudo o que é novo. E por quê criticar? Será que essas manias nacionais se tornaram cada vez mais virtuais? Será pelas letras cheias de gritinhos e cada vez menos conteúdo? Será por que perdemos o hábito de sair e comprar CDs? Será por que simplesmente é tudo diferente de dez, vinte anos atrás? O que não é diferente de dez segundos atrás?
Tudo muda, as modinhas também. Não é coisa da minha geração idolatrar um ou dois. Afinal, Legião não era unanimidade? Guardadas as devidas proporções, é claro, mas era modinha. Cazuza e o rock oitentista, a febre do moonwalk, Madonna, todos esses influenciam até hoje as pessoas que gostam de música e se ligam em estilo, justamente porque foram as tendências de seus tempos. Hoje são tantas que nem sabemos qual é a mais popular. E os Beatles? Eles são um caso curioso. Ouçam “She Loves You” e, por favor, fugindo de qualquer idolatria, analisem. O que eram os Beatles além do yeah yeah yeah e das franjas, que seja diferente de qualquer banda colorida de hoje? A diferença é que os meninos de Liverpool tiveram maturidade e tempo para crescer e ir além dos refrões-chiclete que seduziam menininhas histéricas. Eles conseguiram seduzir o mundo inteiro. E o fazem até hoje.
O que eu quero dizer é que aquilo que hoje é execrado pela crítica, pode ser amanhã a nata da cultura pop. Obviamente essas regras não são universais e, pela velocidade das coisas hoje e conhecendo um pouco do nosso contexto, sabemos que não se aplicará a todos. Se daqui a um ou dois anos as revistas teen começarem a trazer metaleiros nas capa, não se espantem. Eles não serão nada mais do que a nova tendência.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ao lado

Quanto custaria pra você uma caixa de biscoitos, uma garrafa de iogurte ou um farto prato de arroz e feijão? Com certeza, se você está lendo esse texto, é porque você tem acesso fácil à internet e a um computador e, por ele, você deve marcar seus compromissos com os amigos, faz compras, se diverte. E, para alguns de vocês, isso não tem custo nenhum. Agora parem um pouco, esqueçam um pouco, um momentinho que seja, dos seus umbigos, e tentem mensurar o quanto apenas o prato de comida do seu almoço valeria para outra pessoa. Agora imaginem que essa pessoa não tem condições de ter ao menos uma caixa de biscoitos. POR SEMANA. Depois desse exercício de reflexão, tente fazer outro exercício: o da solidariedade.
Ajudar o nosso próximo é um ato de grandeza e beleza incomparáveis, faz bem pra alma, pra consciência, faz crescer. Mas quem disse que é fácil? Muita gente por aí não consegue se desplugar da matéria em um piscar de olhos e acabam se tornando involuntariamente sovinas. O comodismo dessa nossa era nos impede de fazer tudo o que podemos, de doar tudo o que podemos doar. E nem precisamos fazer tanta coisa. Às vezes, basta um olhar, uma mão estendida, um abraço. Nem todas as necessidades humanas se suprem com comida. O alimento pode ser mais simples do que imaginamos.
Pode ser um cobertor, uma moeda, até mesmo uma ligação. O que importa mesmo é que seja uma doação espontânea e eficaz, sem medos, sem frescuras, sem preconceitos. Fazer o bem sem olhar a quem, como já diz o ditado. Melindrados em ajudar ex-presidiários, acabamos contribuindo para que voltem a ser, e nem sequer nos importamos. O mal da sociedade capitalista é justamente essa indiferença, que nos torna menores do que somos. Menores em espírito, menores em coração. E quando nossa bondade não consegue ultrapassar a barreira do preconceito, ela se transforma em modismo. Filantropia é moda, ser bonzinho traz status. O problema é que tudo um dia sai de moda e, se solidariedade passar a ser encarada como uma tendência pop, ela perde a sua essência pura, e corre o risco iminente de terminar. Fim.
Se hoje, nesse instante, você está confortável em seu mundo sem preocupações e sem contas para pagar, há muitos por aí que fazem da rua, das calçadas, o seu mundo, sem ter o que comer, o que vestir, o que esperar do amanhã. Eles podem nem ter amanhã. Quem tem? Certeza única é a morte, e dela só escapa quem por ela já passou. O frio que o seu ar condicionado te passa é saariano perto do que a gélida cidade oferece a muitos que não tem escolha. A escolha, nesses casos, é nossa! E se você precisa de um mote especial para se mover, não há talvez um mais oportuno. O Natal não demora, e se for complicado fazer o bem para muita gente, pense ao menos nas crianças que não tem culpa nenhuma de suas situações e que não merecem que suas estrelas cadentes deixem de brilhar, muito menos que suas noites não sejam felizes.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Don Juan da Silva

Teorias, teorias e mais teorias. Até hoje nenhuma consegue me explicar ainda qual é a fórmula da sedução. Talvez porque não exista alguma, se tivesse não existiriam tantos solteiros nem tantos tímidos pelo mundo, toda festa seria micareta e o índice de casamentos talvez chegasse ao céu. Nos sites e nas revistinhas adolescentes chovem reportagens do tipo “10 dicas infalíveis na hora da conquista”, e quase todas insistem em confundir mais do que explicar os jovens que precisam de uma revista para “aprender a arte da sedução”. Pelo menos eles acham isso. Agora, qual seria, de fato, a verdadeira “arte da sedução”?
Pra começar, fórmula só funciona com constantes, e se tem algo que não temos é constância. Voláteis, diferentes, nunca nos encaixaremos em padrão nenhum. Não somos manequins de carne e osso, somos apenas de carne e osso. E cabeça. E coração! Por isso mesmo, qualquer receita não serve para todos, nem para a maioria, como se fosse possível supor do que a maioria gosta. Como saber do que o outro gosta? Então, conquistar passa a ser uma tarefa mais arquitetada do que uma simples piscadinha marota ou um sorriso no canto da boca. Para alguns.
Existem aquelas pessoas que não sabem nem piscar e vivem o amor de suas vidas, aquelas que não conseguem sequer falar direito sem gaguejar e mesmo assim saem de uma festa com vários telefones, assim como os que não arriscam nem um “dois pra lá, dois pra cá” e se dão muito bem. Quem disse que é preciso saber dançar pra conquistar? Sorte dos tímidos que sempre aparece alguém que acaba se atraindo por aquele olhar desviado, e aquele sorrisinho sem jeito. Os tímidos que fogem querendo encontrar, que se calam querendo falar, que por fora ficam vermelhos de vergonha, mas por dentro ficam vermelhos de vontade, de paixão. Não dança? Pode nem fazer diferença. Mas arriscar pode até ajudar! Vão por mim.
Para quem gosta de contato, do “téti a téti”, o sair é o início de uma relação, mas pode ser o meio de quem fala muito bem. Quanta lábia! Os bons de papo são exemplos clássicos de que os acertos vem depois de muitos erros. Nem todas se derretem por frases feitas. Algumas não conseguem resistir a coisas tão banais, despretensiosas... Conversar sobre política pode mostrar seu lado inteligente e, por que não, sedutor? Desenhar bem, cozinhar bem, tuitar bem, tudo isso pode despertar o Don Juan que existe em você e que, talvez, você nem saiba que está lá. Mas se sabe, tudo bem, aproveite!
Beleza, amigo, se você consegue fazer o mítico “olhar 43” e funciona, ótimo! Mostra que você é desinibido o suficiente para conquistar as mulheres que esperam atitude. Outro erro comum é achar que as recatadas podem viver apenas com carinho e beijos na testa e as forrozeiras querem pegada. Toda mulher quer pegada, todo mundo quer pegada, isso sim é comum. Por mais que não demonstre tanto, a sedução ouriça quem é alvo e o frio na barriga faz tão bem ao conquistador. E quando digo conquistador não me refiro somente de quem usa gel no cabelo e fala com voz de locutor de rádio AM. Todos nós somos eternos conquistadores, não importa de que jeito. Com ou sem uma rosa na boca.