sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Zona eleitoral

Mais uma vez o brasileiro se encontra com as urnas, na maior festa da democracia, para decidir o futuro do país! Será mesmo?
Primeiro que o brasileiro não vai se encontrar com a urna, porque a expressão “se encontrar com” sugere uma certa disponibilidade e até uma certa vontade de fazer, sendo que para muitos o ato de votar é odiável por ser um domingo que, quando não é jogado no lixo, é gravemente atrapalhado por uma fila de desconhecidos vestidos de varias cores que até te confundem. Ainda se torna mais penoso ter que digitar tanta coisa como agora. Em pleno domingo? Em segundo lugar, as eleições passam longe de ser uma festa para a população, principalmente para os menos favorecidos que não levam sequer um brigadeiro para casa. E dizer que é democrática parece exagero, já que somos OBRIGADOS a isso. Mas na democracia não é a voz do povo que soa mais alto? Responda você mesmo.
E o terceiro ponto é o mais engraçado. Chega a ser irônico e pouco inteligente pensar que nas eleições nós decidimos o futuro do país. Futuro? Que futuro? O cenário político atual é, em grande parte, uma continuação do que era o cenário de vinte anos atrás. Muitos sobrenomes conhecidíssimos continuam pedindo pra ficar – afinal de contas, trata-se de uma das profissões mais rentáveis, onde você decide quanto deve ganhar – e as mesmas fotos são eternizadas nos pôsteres e santinhos – que ironia! – e poluem nossas TVs e nossas ruas, como se ainda fosse necessário poluir mais. São ex-presidentes, ex-governadores, ex-prefeitos e até mesmo ex-seres vivos que não querem largar o apetitoso osso chamado política. O futuro, meus amigos, é apenas o filho ou neto do nosso passado.
Quando acordarmos nesse domingo, não iremos ver o sol mais brilhante nem passarinhos cantando em nossas janelas. Eu irei ver a mesma cidade fria como em todas as manhãs, quente feito o inferno em dia de verão e prédios, prédios, prédios. Até a minha Seção Eleitoral, as promessas de uma cidade mais limpa vão ser urgentes como nunca, os cabos eleitorais não perdoam. É papel, bandeiras e adesivos por todas as sarjetas e postes! Não irei chegar em frente ao mesário com um sorriso de comercial de amaciante de roupas. Nem sair de lá e dizer: “eu cumpri meu dever de cidadão brasileiro” ou coisa parecida. NÃO! Ninguém fará isso porque isso é gravação de programa eleitoral.
Por mais que acreditemos, nem que seja um pouco, que esse país ainda tem jeito, as eleições fazem questão de provar o contrário. A quantidade de hipocrisia que somos obrigados a assistir no horário nobre nos faz pensar se vale mesmo à pena votar. E alguns candidatos ainda fazem pior. Acabam tornando a política mais circense do que ela, por essência e experiência, é. Francamente, lugar de cantores é no palco e não no púlpito do Congresso ou das Câmaras, e o mesmo vale para ex-jogadores, frutas e comediantes – exemplos são necessários?
Não precisamos fantasiar um domingo perfeito, nem teatralizar o voto como se fosse uma Coca bem gelada. O que é necessário, acima de qualquer coisa, é consciência. A consciência supõe inteligência, que supõe o uso da cabeça. Tivemos tempo e liberdade para pensar, analisar o ruim e o menos pior, o que elas fizeram e podem fazer por nós, e no domingo só basta seguir nossa consciência. Mas que essa mesma consciência não nos cegue nem nos faça imaginar que o país vai mudar a partir do primeiro dia de 2011. Acordem! Votar não é diversão, e não somente por ser “chato”. Nosso voto é coisa séria e deve ser tratado como tal. Alguém deve agir com seriedade nessa verdadeira zona.

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