terça-feira, 12 de outubro de 2010

Um mundo perfeito

Era uma vez um mundo perfeito. Um mundo onde as nuvens eram de algodão, as pessoas se abraçavam e as crianças, muitas crianças, brincavam, se divertiam, eram felizes. Sorriam sem motivos, corriam, pulavam nos laguinhos, se sujavam sem medos. Não havia medos. Nada de homens do saco, bruxas malignas ou políticos corruptos. Apenas adultos que chutavam a bola e empinavam pipas com aqueles meninos. Apenas moças que faziam chazinho para suas lindas e bem vestidas bonecas.
Naquele mundo perfeito não havia esgotos a céu aberto, não havia lixo no chão. Havia vários lápis de cor e folhas brancas, prontas para receber todas as cores que a criatividade permitisse. Massinha, canetinha e aquarela. Tudo aquilo eram asas, as asas que toda criança precisa ter, elas nasceram para voar, voar muito antes de pousar em uma terra tão cheia de buracos e falhas. Muito diferente daquele mundo perfeito...
Um mundo repleto de doces, onde chocolate brotava das fontes e das árvores caía bolinhos de chuva. A chuva, mais doce que mel, mais gelada que refrigerante, mais bonita que qualquer computador pode ser. Nenhum computador pode ser mais bonito do que aquele pôr-do-sol. O sol, que ao se despedir dos olhos mais sinceros que o assistem, traz, como se fosse um presente, as estrelas brilhantes feito vagalumes e a lua, que lua! Parecia um travesseiro, das plumas mais fofas, prontas para receber aqueles pequenos sonhadores, a espera de mais uma noite feliz.
Aquele mundo perfeito só existe nos olhos, na cabeça e no coração de cada criança que dorme feliz, só por saber que mais um dia vai chegar rapidinho, e que não reclamam por tão pouco. Vivem muito. Intensamente, como ninguém mais consegue. Sem vergonhas, sem pudores, sem medos. A partir do dia em que alguém nos acorda desse sonho, passamos a ver o simples com simplicidade, passamos a banalizar o que é pequeno, passamos a fechar os olhos para a espontaneidade. Os sorrisos mais singelos deixam de ser apenas isso, e se tornam moeda de troca. Um giz de cera não serve mais para fazer desenhos tão puros como os de antigamente. Uma tela se torna a única – e ilusória – janela, por onde passamos a ver não o mundo em si, mas o “nosso” mundo, que criamos sem perceber que estão cada vez mais distantes da felicidade.
Naquele mundo perfeito não há espaço para a maldade, em nenhuma forma. E quando acordamos, nós nos tornamos parte e instrumento dela, querendo ou não. Como era bom aquele sonho que se tornou apenas sonho. Como era bom quando ele era o sonho mais real que sonhamos até hoje! Bom demais acordar e saber que a tarefa do dia era ser feliz e mais nada, mais nada mesmo. Entretanto, o brilho nos olhos não pode e nem deve sumir. Precisamos, mais do que nunca, de algo que nos faça acreditar, em tudo e em todos, nem que isso sejam as belas lembranças do nosso mundo que um dia foi perfeito.

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