quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Retrato do impossível

Ah, se eu pudesse viver em um lugar onde só chovesse quando fizesse calor, e onde o sol fervesse em dias de frio? Sair a qualquer lugar, a qualquer hora, com a pessoa que eu quisesse, e passar o tempo necessário, suficiente para nos satisfazer, sem sobras nem faltas. Ter a liberdade de falar tudo o que eu pensasse, sem receios...
Ah, se eu pudesse dizer exatamente uma coisa e ser compreendido como deveria. Ser a pessoa necessária, na hora mais correta. Comandar as impressões que os outros criam de nós. Comandar os outros...
Ah, se eu pudesse controlar meu ego, meu jeito, minhas palavras. Espalhar a todos o amor ou o ódio que sinto, sem exceção. Escolher ser respeitado ao invés de enganado. Decidir o que vai ser bom pra mim, o que vai ser bom pra nós...
Ah, se eu pudesse ver tudo, ouvir tudo, sentir tudo. Ser a mosca que pousa em qualquer sopa, a mosca que invade cada janela, cada cabeça, cada coração. Perceber o que me recuso, aceitar o que nego, tentar o impossível. Abrir os olhos...
Ah, se eu pudesse fazer tudo o que é bom ser eterno, eternamente bom. Realizar todos os meus sonhos. Abraçar os que merecem carinho, ignorar quem merece desprezo. Deixar de lado um alguém por causa de outro alguém. Ser perfeito para todos. Ah, se eu pudesse mandar em mim...
Ah, se eu pudesse ter várias máscaras, pra me esconder das tormentas e dos desafetos. Transformá-los em afetos. Não parar de errar, não parar de consertar. Não ver o que é doce sempre, sempre se acabar...
Ah se eu pudesse escrever feito Camões, falar como Cícero, amar como Dirceu. Produzir meu alimento, seja ele qual for. Ser alimento, seja de quem for. Ah, se eu pudesse ser o que não sou...
Mas eu não posso.

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