sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A corda

Nesses dias de outubro acontece um fenômeno nas ruas desta cidade amazônida. Pelas ruas de uma Belém quente, de trânsito caótico e repleta de lixo e falta de respeito, uma corda guia dois milhões de corações e uma berlinda, uma casinha, tão pequenina, que leva uma imagem menor ainda, inversamente proporcional ao tamanho de seu valor. A corda que acorda uma cidade inteira, trazendo mais do que pessoas. Trazendo almas.

Uma corda que conduz a correnteza humana, em suas canoas humildes, humildes como todos aqueles que nela navegam. Humildes e iguais. Iguais em cor, iguais em opção sexual, iguais em esperança. Esperança de que aquele gesto sacrificante seja, de alguma forma, recompensado. Esperança em uma cidade mais segura, em um governo mais honesto, esperança em uma rua mais limpa, em ter amigos fieis e dinheiro no bolso. Iguais na fé. Fé no seu time, fé nos seus governantes recém-eleitos, fé em um mundo mais justo. A corda que leva em cada fio um paciente que espera horas na fila do SUS, um jovem estudante, de escola pública ou particular, um empresário, micro ou mega, todos entremeados formando apenas um. Um povo. Uma gente.

A corda que segue, cansada, sofrida, mas firme, igual aos romeiros que não desistem dela, haja o que houver. Cada lágrima de dor se torna um sopro de força, cada verso cantado, uma frase de conforto. Cada parada, uma dose de energia. O sol parece nem mais atingir os brios e a vontade de levar Nazinha pra casa. E a corda segue, cada vez mais cheia de suor e calor. Muitos não agüentam. Não, muitos corpos não agüentam, mas os corações sempre suportam. A corda é pouco pra quem vive sofrendo a cada dia como se fosse uma procissão. Os pés, já calejados, continuam pelo caminho já indiferente ao tato, depois de tanto caminhar, mas as mãos continuam vivas, o suficiente para não soltarem. E a corda segue.

A corda que traz tanta gente e tantos desejos, a corda que traz as fichas de uma vida inteira, a corda que chega ao seu destino. E vem de longe, muito além da Sé. Essa corda vem da beira dos rios, debaixo de viadutos, de capelas, templos, escolas, e de cada casa onde viva uma pessoa que continua crendo em algo melhor no futuro e, ainda mais, no hoje. Pessoas que saem de todos os cantos, nesses dias de outubro, para viver e fazer o mais belo caminho de volta para casa. O caminho daquela imagenzinha, que arrasta multidões, de corpos, mentes e espíritos, por uma corda. A corda que reúne a força de um povo inteiro. A força do nosso povo.

Que essa corda continue firme por muitos e muitos dias, não apenas por esses inigualáveis dias de outubro.

Feliz Círio!




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