quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Café da manhã

O mais popular da escola, o que organizava as festas, sempre presente nos eventos e nos caderninhos das garotas. Cresceu, e com as amizades que criou, acabou se tornando um jovem requisitado, era bonito, galante, não demorou muito para virar capa de revista. Berço de ouro, nunca precisou de doação, nem de ninguém. Mas tinha muita gente em volta. Ou melhor, abaixo. Mal acostumado desde sempre, ele não tinha mais como fugir da arrogância que o compunha. Mas de todas as manias, ele tinha a preferida, que nunca a deixou: o croissant com suco de maçã, que todos os dias deleitavam seu rico e farto café da manhã.
Seu pai, engenheiro respeitadíssimo, famoso, bem resolvido e, obviamente, rico. Sua mãe, advogada, com escritório próprio, bem relacionada, influente, igualmente abastada. Ele, filho único, nunca deixou de ser atendido por Papai Noel. Mas não por ser sempre o bom garoto. Aliás, há algum tempo ele deixou de ser um bom garoto. No colégio, ele tinha contato com todo e qualquer tipo de caráter que o dinheiro podia pagar, e justamente os mais deturpados foram os mais próximos. Nada que soasse suspeito, afinal de contas, a embalagem de ouro sempre é capaz de esconder o podre conteúdo. Pois bem, esses “amigos” começaram a o levar para longe, bem longe dos rumos e, quando ele quis voltar, era tarde demais.
Começou sorrateiro, sem assustar, sem sintomas graves, como as piores e mais danosas doenças. Uma festa aqui, outra ali, um drink, uma pílula... sem saber, ele estava entrando em uma prisão sem grades, uma cadeia sem cadeados, uma detenção sem algemas. Vícios. Cada vez mais o seu café da manhã foi ficando para trás, deixado de lado, pois não poderia ser feito cada vez mais perto do almoço... Nem fora de sua cozinha. Seus pais, ausentes, demoraram a ver que estavam perdendo seu maior bem. E perdendo sem lutar, sem saber contra o quê lutar. Foi quando começaram a sentir no bolso as conseqüências que resolveram lembrar que tinham um filho.
Era uma vez a universidade, os planos de intercâmbio, a carreira de modelo. Era uma vez os “amigos” que não eram dele, nunca foram, e sim do seu carro importado e de sua imagem. Era uma vez o mundo encantado que, em um passe de mágica, se desencantou. O garoto mais popular do condomínio se tornou o mais evitado, se tornou um exemplo de conduta às avessas, se tornou o que nunca foi: excluído. O garotão pegador deu lugar a uma figura triste, de um projeto de ser humano em autodestruição constante, como se não cansasse de se acabar. Sumia de casa, sumia de todos. Na verdade, não havia mais ninguém.
Seus pais, em um ato com pouco de amor e muito de defesa, de suas brilhantes carreiras, resolveram internar o jovem. Quem diria! A cama do príncipe, que um dia foi de ouro, passou a ser de solteiro, com lençóis simples. Seus companheiros deixaram de ser os saradões da escola e as gatas das baladas, e sim pessoas comuns, como ele, que deixaram suas vidas para ensaiarem suas mortes. Pessoas que vieram de lugares diferentes, de favelas e de apartamentos, com ou sem piscina em casa, de escola pública ou privada. Todos ali eram iguais. De nada adiantava seus requisitos que qualquer agência de atores aceitaria.
O menino que não via ninguém ao lado, que nunca precisou de ninguém por perto, nunca esteve tão carente, tão ansioso por uma mão realmente amiga, que passasse longe de seu bolso. O jovem cheio de saúde, com um futuro promissor, seja ele qual fosse, resumido a quase pó. Quase. Talvez um dia ele volte a ser popular, não por ser um viciado, mas por ser um vencedor. Mas até lá, sua vida será outra, um curso intensivo de superação. Quem sabe assim mais pessoas consigam olhar para ele com os olhos de antes. Quem sabe ele consiga olhar as pessoas. Quem sabe um dia ele volte a realizar o desejo que, desde que começou a se salvar do vício, ele nunca deixou de ter: voltar a ter seu croissant, seu suco de maçã, sua vida de volta. Ter de volta o seu café da manhã.

3 comentários:

Isabelle Dias disse...

Me apaixonando literalmente pelos teus textos .-.

P.S.: Quem quiser, http://velhapagina.blogspot.com *-*

Descanso da Alma disse...

Uma bela triste história. Pena que não é falsa, mas verdadeira em muitos lares.

Carlos Augusto Matos disse...

Uma bela história sem dúvida... Quando o vício domina, se desfazer dele pode levar a morte...

Abração...