domingo, 31 de outubro de 2010

Meus pedidos

Belém, 31 de outubro de 2010.
Excelentíssima Senhora Presidente da República,
Como a nossa, agora sim, Presidente da República Federativa do Brasil, V. Exª terá nas mãos um dos países mais promissores do planeta. Nunca fomos tão queridos, tão desejados, tão respeitados. A senhora deve saber disso muito bem, afinal, esteve presente diretamente nos oito anos que valeram por mais que 50. Querendo ou não, o seu antecessor fez o nosso país subir vários degraus. Por linhas retas, tortas, curvas, isso agora tanto faz. O que realmente importa é que, daqui a dois meses, 190 milhões de vidas dependerão, direta ou indiretamente, da sua vida. Das suas decisões. Da sua consciência.
Nunca fui e nem pretendo, no auge da minha ideologia, chegar onde V. Exª chegou nesse domingo, mas posso imaginar o quão complexa será a sua tarefa. Sei que ter nas mãos um continente, em dimensões e em diferenças, não é simples. Governar um país como o nosso merece a dedicação de uma vida, e espero que V. Exª tenha em mente, exatamente, a noção do que isso queira dizer. Somos um país rico, em dinheiro, em bens naturais, em força de trabalho. Em sua campanha, várias foram as promessas. Peço simplesmente fidelidade. Aos seus projetos, ao seu país.
Pré-sal. Sem dúvidas a nossa menina dos olhos pelos próximos anos. Está em suas mãos. Por favor, faça o máximo para mantê-lo em suas mãos, e cuidado com os urubus que insistem em cercar o nosso banquete. E são muitos, todos nós sabemos disso, e V. Exª mais do que ninguém. Somos um país que ainda sofre com uma violência que pede cada vez menos passagem, e faz vítimas inocentes, diariamente. Nossa saúde tem carências, nosso povo ainda e carente. Carente de saneamento básico, carente de água boa e comida no prato todo dia, carente de realizações. A pobreza ainda é grande, o analfabetismo também. E ainda não perdemos a mania feia de buscar sempre o lucro pessoal, em detrimento dos interesses públicos.
Somos público, que assiste conformadamente inconformado, a sucessivos eventos de corrupção que mancham a nossa imagem, que já é tão arranhada. Então, V. Exª, que foi protagonista de mais um desses escândalos recentes, faça valer a nossa esperança e seja o cursor dessa trajetória. Esses não são os pedidos de um simples blogueiro. Esses são pedidos de um jovem, morador de uma cidade problemática, com idade, cultura e conhecimento suficientes para perceber o que de bom e o que de ruim aconteceu nesses últimos anos, e para buscar soluções. São os pedidos de eleitores esperançosos, que votaram ou não em V. Exª, mas que, acima de qualquer bandeira monocromática, ostentam um lábaro estrelado, que vale bem mais do que qualquer cor.
A primeira mulher Presidente da República, V. Exª é a primeira a ter essa honra. Logo as mulheres, que tanto sofrem por discriminação no mercado de trabalho, alcançam, pela sua pessoa, o mais alto cargo que alguém pode ocupar no Brasil. Desejo que, no mínimo, a senhora represente com honradez e com respeito todas as mulheres desse país. E peço, V. Exª, que a senhora tenha decência, competência, inteligência e, mais do que tudo, CONSCIÊNCIA. Consciência de que agora não é um ministério que está sob seu comando. É algo maior do que a Casa Civil. São as casas de milhões de brasileiros, que só querem ser felizes, que só querem um Brasil melhor. Que só querem viver em paz. Eu quero. E muito dessa paz que eu e todos nós tanto queremos, depende de V. Exª.
Com esperança,
Luiz Gustavo Dias Ferreira, um brasileiro.


sábado, 30 de outubro de 2010

Quatro em um

Nesse domingo lá vamos nós outra vez para as urnas, com a responsabilidade maior do que imaginamos, de tentar fazer uma boa escolha. Ou, pelo menos, acabar com o martírio de passar meses tentando encontrar o candidato menos pior. Sim, porque acho que muitos de vocês irão concordar que essas eleições ficarão marcadas pelos próximos anos como a mais chata desde a redemocratização. Chata não apenas por nos oferecer figuras com pouco ou quase nenhum carisma, o que se agrava pelo fato do nosso próximo mandatário ser o sucessor de um presidente aprovado por quase 80% da população desse país. Estatísticas provam isso. Mas essa campanha foi essencialmente desinteressante por ser, durante todo o seu decorrer, um ringue, onde os candidatos com culpa no cartório se atacavam e o eleitor, coitado, apenas assistia a debates rasos de políticos que pouco mostravam de propostas. Mas quem liga pra propostas, mesmo?!
Nós. Tanto ligamos que, do segundo turno, esperávamos que os candidatos à Presidência – e ao governo do Estado, aqui – fossem usar o tempo que os era concedido para, de fato, nos esclarecer e assumir compromissos. Mas o que vimos? Mais do mesmo. Infelizmente, acredito que a segunda etapa dessas eleições conseguiu levar a disputa a um nível ainda mais baixo do que a anterior. Acho que os marqueteiros disseram algo do tipo aos seus pupilos: “olha só, essa eleição tá chata, o povo quer ver mais emoção”. E desde quando é necessário usar de expressões chulas, bate-bocas e bolas de papel para conseguir prender o eleitor? Bastava sinceridade, empenho e RESPONSABILIDADE por parte da campanha. Quem quer ver puxão de cabelo, que ligue a TV na novela das oito, e não no que vem antes dela.
Se você não se deu conta disso AINDA, nesse domingo nós iremos nos tornar os culpados pelos próximos quatro anos desse país, é um dia que valerá por mais de 1400. O seu voto, seja em quem for, vai ajudar a decidir se a mudança vai ser pequena ou grande no cenário político do Brasil. Sim, pois algo vai mudar. Não temos mais o sindicalista da esperança como opção, e a sua representante passa bem longe disso. Bem como o seu oponente, que traz consigo o fantasma azul das privatizações... Ô carma! E nem mesmo você, que pensa em votar em branco ou nulo, está livre das conseqüências. A não ser que você pegue seu ônibus de volta pra Marte depois de votar, você vai continuar morando na mesma rua esburacada e sem saneamento nem luz, na mesma cidade perigosa e suja, usando o mesmo transporte público falho. Então o seu direito de cobrar dos superiores por melhorias na qualidade de vida não se anula quando você não vê os sorrisos amarelos, vermelhos ou azuis na urna eletrônica.
São os próximos quatro anos que estarão pesando no seu dedo ao apertar o botão verde da urna. Uma decisão que vai mudar os rumos do país, do estado, da sua vida. Mesmo que você se recuse a notar. Quatro anos decididos em uma campanha enfadonha, antipática e vazia, de debates vazios, de ataques que atingiram bem mais os eleitores que esperavam algo mais. Quatro anos, que podem virar oito. Quatro anos em um voto. Talvez eu não saiba, nem você saiba, mas nesse domingo o Brasil vai escolher o caminho que irá seguir, com cuidado para não cair da escada.
E... Sim, eleição não combina com feriadão!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Café da manhã

O mais popular da escola, o que organizava as festas, sempre presente nos eventos e nos caderninhos das garotas. Cresceu, e com as amizades que criou, acabou se tornando um jovem requisitado, era bonito, galante, não demorou muito para virar capa de revista. Berço de ouro, nunca precisou de doação, nem de ninguém. Mas tinha muita gente em volta. Ou melhor, abaixo. Mal acostumado desde sempre, ele não tinha mais como fugir da arrogância que o compunha. Mas de todas as manias, ele tinha a preferida, que nunca a deixou: o croissant com suco de maçã, que todos os dias deleitavam seu rico e farto café da manhã.
Seu pai, engenheiro respeitadíssimo, famoso, bem resolvido e, obviamente, rico. Sua mãe, advogada, com escritório próprio, bem relacionada, influente, igualmente abastada. Ele, filho único, nunca deixou de ser atendido por Papai Noel. Mas não por ser sempre o bom garoto. Aliás, há algum tempo ele deixou de ser um bom garoto. No colégio, ele tinha contato com todo e qualquer tipo de caráter que o dinheiro podia pagar, e justamente os mais deturpados foram os mais próximos. Nada que soasse suspeito, afinal de contas, a embalagem de ouro sempre é capaz de esconder o podre conteúdo. Pois bem, esses “amigos” começaram a o levar para longe, bem longe dos rumos e, quando ele quis voltar, era tarde demais.
Começou sorrateiro, sem assustar, sem sintomas graves, como as piores e mais danosas doenças. Uma festa aqui, outra ali, um drink, uma pílula... sem saber, ele estava entrando em uma prisão sem grades, uma cadeia sem cadeados, uma detenção sem algemas. Vícios. Cada vez mais o seu café da manhã foi ficando para trás, deixado de lado, pois não poderia ser feito cada vez mais perto do almoço... Nem fora de sua cozinha. Seus pais, ausentes, demoraram a ver que estavam perdendo seu maior bem. E perdendo sem lutar, sem saber contra o quê lutar. Foi quando começaram a sentir no bolso as conseqüências que resolveram lembrar que tinham um filho.
Era uma vez a universidade, os planos de intercâmbio, a carreira de modelo. Era uma vez os “amigos” que não eram dele, nunca foram, e sim do seu carro importado e de sua imagem. Era uma vez o mundo encantado que, em um passe de mágica, se desencantou. O garoto mais popular do condomínio se tornou o mais evitado, se tornou um exemplo de conduta às avessas, se tornou o que nunca foi: excluído. O garotão pegador deu lugar a uma figura triste, de um projeto de ser humano em autodestruição constante, como se não cansasse de se acabar. Sumia de casa, sumia de todos. Na verdade, não havia mais ninguém.
Seus pais, em um ato com pouco de amor e muito de defesa, de suas brilhantes carreiras, resolveram internar o jovem. Quem diria! A cama do príncipe, que um dia foi de ouro, passou a ser de solteiro, com lençóis simples. Seus companheiros deixaram de ser os saradões da escola e as gatas das baladas, e sim pessoas comuns, como ele, que deixaram suas vidas para ensaiarem suas mortes. Pessoas que vieram de lugares diferentes, de favelas e de apartamentos, com ou sem piscina em casa, de escola pública ou privada. Todos ali eram iguais. De nada adiantava seus requisitos que qualquer agência de atores aceitaria.
O menino que não via ninguém ao lado, que nunca precisou de ninguém por perto, nunca esteve tão carente, tão ansioso por uma mão realmente amiga, que passasse longe de seu bolso. O jovem cheio de saúde, com um futuro promissor, seja ele qual fosse, resumido a quase pó. Quase. Talvez um dia ele volte a ser popular, não por ser um viciado, mas por ser um vencedor. Mas até lá, sua vida será outra, um curso intensivo de superação. Quem sabe assim mais pessoas consigam olhar para ele com os olhos de antes. Quem sabe ele consiga olhar as pessoas. Quem sabe um dia ele volte a realizar o desejo que, desde que começou a se salvar do vício, ele nunca deixou de ter: voltar a ter seu croissant, seu suco de maçã, sua vida de volta. Ter de volta o seu café da manhã.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tragicômicos

Esses dois... Uma hora é amor, beijinhos e carinhos. Um minuto depois é ódio, socos e pontapés. Como eles mudam tão rápido. E nem podem culpar o zodíaco, pois nasceram bem longe do meio do ano. Mas são tão cambiantes quanto um geminiano. Dois. Imaginem só vocês que o casal mais perfeito do mundo no começo começou a “desperfeitar” de uns tempos pra cá e, hoje, me parece que aguou de vez. Ou não, vai saber. Esses dois...
Me lembro de quando eles começaram a se enrabichar por aí, ela é minha amiga e eu era bem próximo dos dois. Até hoje, por sinal. Naquele tempo era uma coisa que, de tão doce, enjoava só de olhar, mas em essência era muito bonito, era mais que uma paixão, era realmente um amor, que surgiu da maneira mais despretensiosa e, plim, vingou. Com direito a sinos tocando e passarinhos cantando. Ele, um rapaz recém-adulto, ainda não acostumado a compromissos (entenda-se RESPONSABILIDADES), e ela, uma jovem de mesma idade, mas de cabeça completamente diferente. Era sonhadora, era experiente em relacionamentos, caiu e levantou várias vezes, ela era uma fortaleza. Engraçado, eles pareciam tão opostos.
Se juntaram, é verdade. Mas o tempo é implacável, não perdoa. Bastaram dois meses pra que o estrago se tornasse irremediável. Não existiam mais senhas, nem segredos entre eles. Talvez esse tenha sido o grande erro. A partir do momento em que começaram a surgir os relatórios diários de conduta e as ligações de minuto a minuto, o respeito foi começando a sumir, a sumir... E hoje eles tiveram uma briga, mas uma briga, bem mais briga do que todas as outras, que sempre acabavam em um “eu te amo”, seja por qual rede social fosse. Hoje não teve nenhum “eu te amo”. Quando ela me ligou, contando o que eu já imaginava, eu consegui me chocar com algo que parecia (e era) mais comum do que arroz e feijão. O motivo da briga foi, simplesmente, um cinema.
Quando eu digo “um cinema”, eu não digo “um cinema com outra”. Na verdade nem tinha mulher no meio, por incrível que pareça. É que ele combinou que hoje eles teriam uma tarde só pra eles, sem ninguém mais, com direito a flores, jantar e, quem sabe, uma noite bem interessante. Mas esperem! Essa é a versão dela. Ela me falava tudo pelo telefone, mas ele já tinha me contado pouco antes. Atentem! Segundo ele, o que aconteceu foi o seguinte: “é que ontem a gente saiu, foi uma noite legal, até flores eu dei pra ela, então eu pedi pra ela me ligar se tivesse livre hoje à tarde, porque se desse a gente iria sair. Mas ela não ligou, então eu saí, caramba!”. Perceberam? Ele não deu certeza alguma... Pra ele. Lembrando que ele é o largadão e ela, a experiente apaixonada. Mas na hora da briga, como os dois se pareciam! Ontem eram flores, hoje foi um bolo. Ela já tinha feito isso milhares de vezes, talvez até mais do que ele. Mas não se conformou em ser trocada por Tropa de Elite. Que ironia, eles pareciam ser tão opostos, mas faziam as mesmas bobagens.
Eu juro que imaginei o pastelão virtual (sim, foi virtual, aberto a todos que quisessem curtir um belo barraco on line) de tão hilário que me parecia. Ela chegou a apelar pra coisas tão baixas, inclusive tentar humilhar a performance (preciso explicar?) dele, que começava a chamá-la de histérica, e isso ia aumentando, eles não iam parando... Até que ela desistiu e, como em uma cena de novelinha das 5, começou a confessar que tudo o que tinha acabado de falar era mentira e que ainda amava o menino. Sim, o nível de criancice boba era esse mesmo. Pode? Ele parou de falar. Sério, eu sugiro que, um dia, tenham a oportunidade de ver o que eu vi. Foi tão inusitada a situação que até chego a pensar que esse negócio chamado amor é complicado... E não é? Amar é uma eterna tragicomédia, cheia de drama, tapas, beijos e tortas na cara e no coração. É tão estranho que eu não aposto um centavo no fim definitivo desse caso dos dois, logo logo eles podem voltar a se amar sem limites como antes. Ah, esses dois...

sábado, 23 de outubro de 2010

Negativas positivas

Poderia ser mais fácil dizer um NÃO para aquela garota que não desiste de você, mesmo não tendo nenhuma chance. Poderia ser mais fácil dizer um NÃO para o seu professor, quando ele te pede para ler alguma coisa na aula. Poderia ser mais fácil dizer um NÃO se você não quer fazer alguma coisa, mesmo demonstrando – sabe lá por que – o contrário. Poderia ser mais fácil dizer um NÃO. Mas não é.
Qualquer um de nós já passou por situações em que, por falta de prudência, inteligência e, principalmente, de coragem, teve que concordar com o que discordava, aceitar o inaceitável, sorrir quando a vontade de chorar era maior, dizer um sim ao invés de negar. Ora, já que nem tudo pode ser do jeito que queremos, é inevitável que tenhamos que fazer o que não queremos, pensando em outras pessoas, em outras situações, e o que parece simples pode ser muito maléfico, mais até do que um não. Aliás, ouvir um não pode trazer mais coisas boas do que uma aceitação.
Se, por acaso, você precisou sofrer muito até conseguir conquistar uma garota, acredite, os “foras” que você levou por aí só tornou você mais experiente, e a experiência é um dos pilares de qualquer sucesso. Pelo menos eu cresci ouvindo meus pais dizerem que nenhuma guerra se vence sem batalhar. A mesma coisa se vê no mercado de trabalho. Por favor, eu não estou dizendo que ninguém pensa em se suicidar depois de ser rejeitado em mais de três empregos, eu só quero expor o lado positivo das negativas. Quem não consegue canalizar esses momentos ruins em estímulos deixa de aproveitar muitas oportunidades por medo.
Esse medo, somado a uma relação falha, resulta em várias coisinhas, e uma delas, a mais absurda, é aquela que chamamos de traição. Ah, a traição! Falo de quem trai por covardia, pura e simplesmente, por falta de coragem suficiente para abrir o jogo, e acabam pulando cercas por aí. Mas, como não é fácil dizer um NÃO... E se você acabou apostando suas fichas em uma pessoa e se arrepende? Tudo bem... se você não plantou sementinhas demais. Aí sim, fica quase impossível voltar atrás. O que fazer? Ah, se eu soubesse! O que eu sei é que sempre, sempre quando tomamos atitudes, devemos pensar muito em cada passo e, mais do que tudo, se estamos certos disso. Afinal de contas, um pingo de sentimento já deixa qualquer pessoa melindrada, impotente, incapaz de dizer um NÃO.
Um dia eu aprendi que, mesmo quando as conseqüências podem ser catastróficas, nós devemos negar, quando a situação nos exigir isso, pois fazer algo sem vontade, ficar com alguém sem estar com esse alguém, falar o que não queremos por outra pessoa querer, engolir sapos por sorrisos alheios, nada disso vale a pena, pois não deveria acontecer. Se não deveria, que não aconteça. Apenas torça pra encontrar uma pessoa compreensiva o bastante pra te entender. Senão...
E se alguém aqui ainda sente calafrios só de pensar que pode não ser dessa vez ou que, por obra e graça de alguma entidade, hoje pode não ser o dia dos seus sonhos, calma! Nada está perdido! Por favor, aprendam uma coisa: ninguém passa por aqui sem levar um não na cara, alguns levam até vários, mas, pensem no lado bom, isso pode, além de servir de incentivo em busca do sim, valorizar a conquista. É bom soltar um “até que enfim!” bem alto, alivia. Então, relaxem, porque de tudo se tira algo positivo. Até das coisas negativas.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

É ela

Mais brilhante que os raios do sol, arrepia feito a brisa de uma noite fria de luar. Encanta, fascina, alucina. Quem é ela, essa obra de arte lapidada por Deus com estacas de bronze, o bronze de uma pele aveludada, suave, onde nossos olhos e dedos deslizam sem barreiras? Quem é essa flor tão rubra, tão sedutora, a ponto de nos nocautear com seu perfume de raro poder?       Quem é essa vitrine ambulante de charme e elegância, capaz de parar o trânsito com seus livres pensamentos? Quem é ela?
Um rosto angelical, ao mesmo tempo fatal. Olhos de sedução despretensiosa, amarelos como faróis, holofotes, que anunciam a chegada de um furacão, sutil e avassalador. Um nariz que se encaixa na escultura, como se não existisse, sem atrapalhar um milímetro da apreciação alheia. E a boca, grande, vermelha, lábios de perigo, onde mergulhar é uma aventura, que nenhum risco consegue melindrar. Junte-se a tudo isso os cabelos que se misturam ao vento, leves, brilhantes, plumas de um pavão vistoso, belo e imponente perante qualquer outro.
Como desbravadores em meio a uma paisagem linda e insólita, nossos olhos brincam de conhecer aquele corpo, peça única, onde os ombros compõem uma sintonia perfeita com quadris e todas as suas curvas, sinuosas, curiosas. Entre seus seios conseguimos descobrir o calor de uma cama acolhedora e egoísta, por caminhos que nos refrescam e nos instigam, fazendo pensar. Pensar e esquecer que o mundo lá fora é frio. E o passeio não para, por sua pele com cor de pecado, com cheiro e sabor de pecado. Sabor esse que não precisa de língua para ser provado e adorado.
Como pode a perfeição existir e estar tão perto, tão longe? Em meio aos devaneios de pensar que um dia podemos possuí-la, voamos, para dentro de seus desejos e, mesmo não tendo seu coração, o que vale é que a temos nos nossos. No coração, no sangue, na cabeça. Ela não anda, desfila. Ela não fala, ela recita a lira mais leve. Ela não respira, ela inspira. Inspira. Inspira... Nos, homens, somos eternamente gratos por tanta inspiração. Quem é ela? Não sei, mas se não souber, me contento em ser um contente espectador de tal beleza que não pede nada para existir. Apenas me faz, nos faz existir.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Pares

Gêmeos. Aqueles que são iguais em aparência e em organização. Gêmeas. As almas que não se completam, se refletem. Iguais, no gosto e desgosto, na alegria e na tristeza, na alegria e na doença. Almas gêmeas, aquelas que já estão unidas antes mesmo de se encontrarem, antes mesmo de se unirem. Almas gêmeas, nessa vida, na passada, na futura, sempre gêmeas. Sempre iguais.
Se você já encontrou a sua no meio de tantos opostos, dê-se por feliz e sortudo, mas sortudo mesmo. Elas são tiragem limitada, muitas vezes limitada a dois exemplares, que às vezes são distribuídos por esse imenso labirinto chamado MUNDO e que, sabe lá como e por quê, resolveram pegar o mesmo caminho. Já que se encontraram, seguem juntos, até a saída dessa encurralada, bendita, que pode não terminar nunca e, mesmo assim, não será em vão. Almas que teimam em se desencontrar, aprontar peças, brincar com as peças, que somos nós. Enormes peças desse jogo tão engraçado, jogo da vida, jogo do amor.
Quem te completa? Necessariamente é aquele que odeia suas músicas, odeia seus pais, mas ama seu cobertor? Ou é aquele que entende seus problemas, que são dele também, e que curte a mesma balada? Como é relativo esse negócio de paixão! Talvez o seu oposto não te atraia, mas você acabe caindo de quatro pelo próprio espelho. Possível. Tão possível quanto aparecerem mais de uma alma idêntica na nossa vida. Almas tri, quadrigêmeas, que se juntam e misturam tudo e todos.
E se for amizade? Sim, podemos nos ver em uma amiga, um amigo, vários. Podemos ser espelho dos nossos pais, parentes, professores, podemos até ver a nossa alma gêmea na pessoa mais detestável, talvez detestável pelos defeitos que tanto corroem a nós mesmos. Muitos fogem dos espelhos, com medo de si mesmos, e quando se deparam com alguém tão igual, sentem mais medo do que vão encontrar, como se fosse algo bizarro demais aos olhos e corações humanos. Só se esquecem de perceber que o que de bizarro eles encontrarem nos gêmeos é o bizarro que eles tem, o bizarro que eles são.
Gêmeos, os que se juntam e se completam, mesmo incompletos que são. Gêmeas, as formas únicas e unidas. Almas gêmeas, almas duas, almas em par, almas que, de tão iguais, se tornam simplesmente alma. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Aos Mestres, com carinho

Quem nos ensina a ver as coisas com olhos de descobridores, nos ensina a viver o mundo como se ele fosse parte da família, nos ensina a andar pra frente, a olhar pra frente, sem esquecermos do caminho que foi percorrido. Quem nos ensina a aprender. Hoje é Dia do Professor, aquele que dedica seu tempo e sua atenção àqueles que tanto precisam, transmitindo, trocando conhecimentos. Matemáticos, históricos, conhecimentos da vida lá fora da sala de aula.
Quando pensamos em alguém que nos educa, que nos ensina, pensamos nos professores justamente pela imagem que trazemos da infância, daquela tia que tanto puxava nossas pequenas orelhas e nos ajudavam nos primeiros rabiscos, nas primeiras linhas, nos primeiros passos. Naquele tempo, idolatrávamos aquela figura, responsável também por muito do que acabamos nos tornando quando crescemos, afinal nós sempre crescemos saindo de uma base. O tempo passa, as coisas mudam, as tias viram professoras, as crianças viram homens e mulheres em formação, e quem está ao lado para orientar e guiar esse crescimento? Eles mesmo, esses heróis que não recebem o reconhecimento que merecem, e não falo apenas de salários. Falo de respeito, que a classe perdeu com o tempo, desde quando dar aula perdeu o status de hobby e passou a ser necessidade. Irônico, mas real. No momento em que os professores deveriam ser cada vez mais necessariamente olhadas com admiração, eles são cada vez menos olhados.
Mas, pensando um pouco, ensinar não é tarefa de quem comanda uma lousa apenas. Muitos são os professores da nossa vida, aqueles que nos fazem aprender mesmo quando não queremos. A vida é um eterno ano letivo, onde sempre surge algo novo que nos sirva e, junto, um alguém que se ofereça para ensinar. Com quem aprendemos que devemos estender a mão a quem cai? Pode ser com nosso amiguinho de infância, ao cair do balanço. E quem nos faz acreditar que as pessoas erram? Namorado, ex, quem sabe.  O tempo também é um belo professor, de paciência, de resignação ou indignação, ensinando que nem tudo se conserta com ele. Mas os maiores mestres que podemos ter nós não chamamos de tio nem de tia. Chamamos de pai e mãe.
Mais do que as quatro operações matemáticas, são eles que nos fazem saber operar com a vida, seja para adicionar, pessoas e ideologias, seja para subtrair os males, multiplicar as realizações e dividir as emoções. Nos ensinam a seguir o compasso certo, a cobrir os pontos que costuram nossa trajetória, a colorir nosso dia, nossos pensamentos, nossa vida. São nossos pais os verdadeiros guias, nos primeiros e nos mais importantes passos que damos, nos soltando quando nos sentirmos seguros para isso. Professores particulares, com conteúdo infinito e carga horária ininterrupta. Os valores que não chegam a nós em livros didáticos ou apostilas, as dicas que valem mais do que todos os macetes de vestibular, tudo isso recebemos em casa, a nossa sala de aula.
Em qualquer lugar, seja em um local refrigerado ou em uma cabana sem paredes, a bravura de seguir uma profissão que exige dedicação máxima e conhecimento alto quanto, esse ato grandioso de ceder o que sabe para outros merece todos os elogios, os cumprimentos sinceros de quem já sentou em carteiras e viu, de perto, o tamanho do sacrifício. Sacrificante, bem como edificante, recompensador. A cada diploma, a cada reencontro, o professor percebe, emocionado, que, de alguma maneira, conseguiu mudar o mundo. Sonho? Algum problema nisso? Parabéns a todos aqueles que alguma coisa nos ensinam, seja a fórmula de Pitágoras ou a fórmula da vida. Parabéns a todos nós, que somos os professores do hoje, do amanhã e do depois... Somos e seremos aprendizes para sempre.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Valorize

“Depois de tanto tempo, a luz do sol, a luz no fim do túnel. Depois de tanto tempo, o calor do abraço, o sabor do beijo, os sabores, as cores, a vida. Depois de tanto tempo, saber que o tempo não acabou”.

Para calar a boca daqueles que acham que tudo hoje tem preço, que todos tem preço, que não há nada que um cartão de crédito não compre, esses últimos dias nos mostraram que, entre tudo de vendido que nos cerca, uma coisa, a maior coisa, não tem preço: a vida. Quanto vale uma vida?
Vale um sorriso aberto, daqueles que troca todas as decepções e cansaços de um dia sacal por uma alegria que nada pode explicar, e sim, sentir? Vale ver a pessoa amada feliz, mesmo que não seja com você? Vale o dia de domingo com seu filho, vale ver seu time campeão, vale chorar ao ver uma santinha? Vale a emoção de ter a cabeça raspada, a emoção do “sim”, a emoção do abraço, vale a emoção? Vale, tudo isso e mais um pouco, mais um muito daquilo que as palavras se mínguam em explicar.
Os pequenos gestos, quaisquer que sejam, guardam uma importância que, por estarem em pequenos frascos, não é sentida, é ignorada, despercebida, mas que faz falta em grandes momentos. Uma lisonja, um elogio que você deixa de ouvir do seu chefe hoje pode te tirar do altar amanhã. Insegurança. Quem é seguro, por favor, atire a primeira pétala de flor! E não culpe sua vida, ela é tão boa. Talvez o erro esteja em quem a vive. Não existe vida ruim, o que existe é um mal vivedor. Aquele que acha que espetar o dedo acaba com o resto da semana e que seus problemas nunca são menores do que os problemas alheios. Aquele que acha que a vida está como está e, simplesmente, se conforma. Perde a forma.
Será que a vida vale um tiro no peito? Uma pedra de crack? Se é isso que eu tanto vejo na TV, nos jornais, nas ruas perto de mim... A vida vale bem mais do que isso, isso que não vale nada. Se pensarmos bem, veremos que nada que fazemos é inútil, tudo tem seu valor, sua função. Nem que seja para que nós possamos refletir, pensar duas vezes, nos arrepender. Arrependimento. Não adianta, sempre fica algo por dizer, algo por fazer, por mais que nem saibamos. O tempo não para, nós não devemos parar.
Já que a vida vale tanto para ser tão pouco, pra quê pensar que não se é capaz de tirar uma nota boa na prova de amanhã ou que aquela garota é inatingível? Pra quê pensar que não existe razão nas coisas feitas pelo coração? Pra quê? Quem parar pra se perguntar isso agora pode ganhar dúvidas que nem lembrava que tinha. É a vida! É a vida! Essa é a vida que vale, a vida que deve valer, bem mais do que os problemas que insistimos em cultivar. A vida que vale mais que tudo, mais que todos. A vida que não tem preço.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Um mundo perfeito

Era uma vez um mundo perfeito. Um mundo onde as nuvens eram de algodão, as pessoas se abraçavam e as crianças, muitas crianças, brincavam, se divertiam, eram felizes. Sorriam sem motivos, corriam, pulavam nos laguinhos, se sujavam sem medos. Não havia medos. Nada de homens do saco, bruxas malignas ou políticos corruptos. Apenas adultos que chutavam a bola e empinavam pipas com aqueles meninos. Apenas moças que faziam chazinho para suas lindas e bem vestidas bonecas.
Naquele mundo perfeito não havia esgotos a céu aberto, não havia lixo no chão. Havia vários lápis de cor e folhas brancas, prontas para receber todas as cores que a criatividade permitisse. Massinha, canetinha e aquarela. Tudo aquilo eram asas, as asas que toda criança precisa ter, elas nasceram para voar, voar muito antes de pousar em uma terra tão cheia de buracos e falhas. Muito diferente daquele mundo perfeito...
Um mundo repleto de doces, onde chocolate brotava das fontes e das árvores caía bolinhos de chuva. A chuva, mais doce que mel, mais gelada que refrigerante, mais bonita que qualquer computador pode ser. Nenhum computador pode ser mais bonito do que aquele pôr-do-sol. O sol, que ao se despedir dos olhos mais sinceros que o assistem, traz, como se fosse um presente, as estrelas brilhantes feito vagalumes e a lua, que lua! Parecia um travesseiro, das plumas mais fofas, prontas para receber aqueles pequenos sonhadores, a espera de mais uma noite feliz.
Aquele mundo perfeito só existe nos olhos, na cabeça e no coração de cada criança que dorme feliz, só por saber que mais um dia vai chegar rapidinho, e que não reclamam por tão pouco. Vivem muito. Intensamente, como ninguém mais consegue. Sem vergonhas, sem pudores, sem medos. A partir do dia em que alguém nos acorda desse sonho, passamos a ver o simples com simplicidade, passamos a banalizar o que é pequeno, passamos a fechar os olhos para a espontaneidade. Os sorrisos mais singelos deixam de ser apenas isso, e se tornam moeda de troca. Um giz de cera não serve mais para fazer desenhos tão puros como os de antigamente. Uma tela se torna a única – e ilusória – janela, por onde passamos a ver não o mundo em si, mas o “nosso” mundo, que criamos sem perceber que estão cada vez mais distantes da felicidade.
Naquele mundo perfeito não há espaço para a maldade, em nenhuma forma. E quando acordamos, nós nos tornamos parte e instrumento dela, querendo ou não. Como era bom aquele sonho que se tornou apenas sonho. Como era bom quando ele era o sonho mais real que sonhamos até hoje! Bom demais acordar e saber que a tarefa do dia era ser feliz e mais nada, mais nada mesmo. Entretanto, o brilho nos olhos não pode e nem deve sumir. Precisamos, mais do que nunca, de algo que nos faça acreditar, em tudo e em todos, nem que isso sejam as belas lembranças do nosso mundo que um dia foi perfeito.

domingo, 10 de outubro de 2010

Mar aberto

O que foi aquilo que eu vivi naqueles dias? O que é aquilo? Desde que cheguei nessa cidade que nunca tinha conhecido, Belém do Pará, pra conhecer essa festa, o Círio de Nazaré, e logo ao chegar pude confirmar algo que muita gente me falava: como Belém é quente! Quente não. Belém é CALOROSA. Isso mesmo, em letras garrafais. O medo de ser recebido como forasteiro foi de cara se transformando em uma alegria misturada com alívio, por ter uma chegada animada, festiva, cheirando a ervas do Ver-o-Peso.
Curioso, com razão, fui logo conhecer essa que é a maior feira das Américas, e fiquei com a sensação de que tudo o que você precisasse, com certeza, encontraria ali. Depois conheci o centro velho, a Cidade Velha, que traz a história desse canto do Brasil. Mas eu cheguei em tempo de Círio, o que explicava a minha ansiedade em ver de perto aquilo que mudava o clima dessa cidade e da minha vida. No meu segundo dia, era sábado.Sábado movimentado, helicópteros, carros, barcos, gente. Muita gente seguindo um navio cinza feito Sampa, mas colorido como um arco-íris de devoção e homenagens. Esperei aquela imagenzinha chegar, desembarcar, receber as honras de Chefe de Estado... Ali eu comecei a entender a importância do Círio pra esse povo daqui.
Mas quando ela começou a percorrer a avenida, eu a vi passando da janela do meu quarto de hotel, e quando as primeiras lágrimas começaram a cair sem eu perceber, uma coisa eu percebi: o Círio de Nazaré te arrebata, e você se entrega sem notar, sem questionar. Que lindo! Anoiteceu, e mais uma procissão me esperava. Desci, e me deparei com um mar. De gente, de gentes, tão diferentes, tão iguais. Algumas, muitas, apertadas, suadas, equilibradas em uma grande corda, trazendo de volta a mesma berlinda que eu vi fazendo o caminho contrário. E nesse vai-e-vem eu fui me encantando, me envolvendo... De repente, no meio da escuridão, um ponto iluminado apareceu na minha vista. Era ela. Era ELA. E veio, passou por mim de novo, e as emoções de horas antes se somaram a mais lágrimas, a mais entrega. Estava linda, brilhava em meio à multidão, como um barco de luz navegando em um mar...
E quando amanheceu, cedo, decidi que iria acompanhar aquele mar. Debaixo do sol de um belo amanhecer, enfrentei-o com força, com fé. É disso que tanto se fala nesses dias por aqui. Segui, bem perto da berlinda, como se fosse abençoado por aquela pequena imagem por todo o caminho. E não foi isso que aconteceu? Me joguei naquele mar, sem medo de me afogar, querendo me afogar, na imensidão de beleza, solidariedade e orações daquele povo. Nadei, enfrentei ondas turbulentas, nadei. Vários barcos passaram por mim, alguns de cera, outros de anjos. E chovia! Uma chuva prateada, branca, de balões e oferendas, banhava minha alma, e me fazia sorrir e chorar, feito um menino. Todos nós nos tornamos meninos, pequenos, diante de tamanho mar.
Peixinhos que nadavam da Sé à Basílica, aquela bela construção, oferenda de um povo humilde para uma santinha achada no meio do mato. Os sinos que dobravam, os promesseiros que de joelhos chegavam, a Cruz Vermelha, em meio a outras cruzes, que tornavam aquele momento o mais verdadeiro encontro do homem com o sagrado. Os sinos que anunciavam que o barco atracou, que eu tinha chegado. Que ELA chegou. Sã, salva e seca. Ao contrário de meu rosto, encharcado de lágrimas, suor e alívio. Aquele foi, sem dúvidas, o melhor mergulho da minha vida.
Amanhã eu volto pra casa, e levo dessa terra às margens do Guajará as melhores primeiras impressões que se pode ter de algo. Vou dizer, com alegria, a todos os meus parentes e amigos que, se querem viver um momento mágico e inigualável na vida, que dêem uma passadinha pelas ruas de Belém no início de outubro. Eles não irão se arrepender. Irão se apaixonar. Levo para casa muito mais do que fotos, camisas, fitinhas. Eu saio daqui levando a certeza de que, no meio de uma cidade tão grande, é possível que se pare tudo por dois dias, para que o trânsito de carros desse lugar ao trânsito de gente. De barcos. De peixinhos. Peixinhos que nadavam livres, em grupo, todos seguindo a mesma correnteza, e o mesmo objetivo. Peixinhos que nadam por um mar aberto, profundo, que banha a Capital da Amazônia de emoção e fé. Levo pra casa o que o Círio fez comigo, certamente aquilo que ele faz com todos que ele vivem. Afinal, dá pra sair igual de um Círio de Nazaré?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A corda

Nesses dias de outubro acontece um fenômeno nas ruas desta cidade amazônida. Pelas ruas de uma Belém quente, de trânsito caótico e repleta de lixo e falta de respeito, uma corda guia dois milhões de corações e uma berlinda, uma casinha, tão pequenina, que leva uma imagem menor ainda, inversamente proporcional ao tamanho de seu valor. A corda que acorda uma cidade inteira, trazendo mais do que pessoas. Trazendo almas.

Uma corda que conduz a correnteza humana, em suas canoas humildes, humildes como todos aqueles que nela navegam. Humildes e iguais. Iguais em cor, iguais em opção sexual, iguais em esperança. Esperança de que aquele gesto sacrificante seja, de alguma forma, recompensado. Esperança em uma cidade mais segura, em um governo mais honesto, esperança em uma rua mais limpa, em ter amigos fieis e dinheiro no bolso. Iguais na fé. Fé no seu time, fé nos seus governantes recém-eleitos, fé em um mundo mais justo. A corda que leva em cada fio um paciente que espera horas na fila do SUS, um jovem estudante, de escola pública ou particular, um empresário, micro ou mega, todos entremeados formando apenas um. Um povo. Uma gente.

A corda que segue, cansada, sofrida, mas firme, igual aos romeiros que não desistem dela, haja o que houver. Cada lágrima de dor se torna um sopro de força, cada verso cantado, uma frase de conforto. Cada parada, uma dose de energia. O sol parece nem mais atingir os brios e a vontade de levar Nazinha pra casa. E a corda segue, cada vez mais cheia de suor e calor. Muitos não agüentam. Não, muitos corpos não agüentam, mas os corações sempre suportam. A corda é pouco pra quem vive sofrendo a cada dia como se fosse uma procissão. Os pés, já calejados, continuam pelo caminho já indiferente ao tato, depois de tanto caminhar, mas as mãos continuam vivas, o suficiente para não soltarem. E a corda segue.

A corda que traz tanta gente e tantos desejos, a corda que traz as fichas de uma vida inteira, a corda que chega ao seu destino. E vem de longe, muito além da Sé. Essa corda vem da beira dos rios, debaixo de viadutos, de capelas, templos, escolas, e de cada casa onde viva uma pessoa que continua crendo em algo melhor no futuro e, ainda mais, no hoje. Pessoas que saem de todos os cantos, nesses dias de outubro, para viver e fazer o mais belo caminho de volta para casa. O caminho daquela imagenzinha, que arrasta multidões, de corpos, mentes e espíritos, por uma corda. A corda que reúne a força de um povo inteiro. A força do nosso povo.

Que essa corda continue firme por muitos e muitos dias, não apenas por esses inigualáveis dias de outubro.

Feliz Círio!




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Retrato do impossível

Ah, se eu pudesse viver em um lugar onde só chovesse quando fizesse calor, e onde o sol fervesse em dias de frio? Sair a qualquer lugar, a qualquer hora, com a pessoa que eu quisesse, e passar o tempo necessário, suficiente para nos satisfazer, sem sobras nem faltas. Ter a liberdade de falar tudo o que eu pensasse, sem receios...
Ah, se eu pudesse dizer exatamente uma coisa e ser compreendido como deveria. Ser a pessoa necessária, na hora mais correta. Comandar as impressões que os outros criam de nós. Comandar os outros...
Ah, se eu pudesse controlar meu ego, meu jeito, minhas palavras. Espalhar a todos o amor ou o ódio que sinto, sem exceção. Escolher ser respeitado ao invés de enganado. Decidir o que vai ser bom pra mim, o que vai ser bom pra nós...
Ah, se eu pudesse ver tudo, ouvir tudo, sentir tudo. Ser a mosca que pousa em qualquer sopa, a mosca que invade cada janela, cada cabeça, cada coração. Perceber o que me recuso, aceitar o que nego, tentar o impossível. Abrir os olhos...
Ah, se eu pudesse fazer tudo o que é bom ser eterno, eternamente bom. Realizar todos os meus sonhos. Abraçar os que merecem carinho, ignorar quem merece desprezo. Deixar de lado um alguém por causa de outro alguém. Ser perfeito para todos. Ah, se eu pudesse mandar em mim...
Ah, se eu pudesse ter várias máscaras, pra me esconder das tormentas e dos desafetos. Transformá-los em afetos. Não parar de errar, não parar de consertar. Não ver o que é doce sempre, sempre se acabar...
Ah se eu pudesse escrever feito Camões, falar como Cícero, amar como Dirceu. Produzir meu alimento, seja ele qual for. Ser alimento, seja de quem for. Ah, se eu pudesse ser o que não sou...
Mas eu não posso.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Aquarela de Domingo

Em uma tela branca, feito as nuvens que amanhecem nos céus de Belém no Segundo Domingo, muitos pintores ajudam a pintar a aquarela mais pura, mais sincera, mais bonita do que as mais bonitas, dignas de apreciação eterna. Ou, pelo menos, que durem até o próximo ano. Uma aquarela de emoções, de força, de esperança.
Qual a primeira pincelada dessa obra-prima? É a de um azul vívido, que vira laranja, até chegar ao amarelo. Amarelo de sol, o sol que nasce sempre, mas que, no Segundo Domingo, resolve nascer mais intenso, desafiador, como se fosse um guia, para aqueles que sob ele vão caminhar. Aliás, são muitos, os que continuam a pincelar o dia Dela, pincelando ainda de amarelo, mas um amarelo diferente. Um amarelo-corda, que acaba se tornando uma só cor.
Uma mistura, certa e inevitável. Graças a Deus. Preto, branco, marrom, verde, azul, vermelho... Vermelho de sangue, de força, a cor da paixão. Pela Imagem que estão ajudando a levar para casa. Pela promessa que os fizeram chegar até ali. Pela vida, vermelho-vida, a qual devemos muito, sempre. Pinceladas de verde, tão verde, aquele que quer dizer... Esperança. Esperança em um país melhor, em uma cidade melhor, em uma vida melhor, em um dia melhor. Não há dias melhores do que esses Segundos Domingos, que começam domingos antes.
E aquele azul vai ficando mais intenso, mais celeste, trilhando nossos caminhos como se fossem nuvens... Brancas, leves, confortáveis. Mesmo com o preto do asfalto quente, duro, ríspido, os pés levitam nessa aquarela, tão bela! Tinta roxa? Não estranhem, é açaí. E com ele ainda vem mais um verde da maniva, mais amarelo do tacacá...
O rastro dos carros dos anjos, os passos dos milhões, a corda, o brilho dourado da Berlinda. Ouro! Nossas almas viram ouro, nosso corpo se enriquece de alegria e de paz. Paz branca, preta, verde, amarela. Todas essas são apenas algumas das cores que os nossos pinceis espalham, deslizantes, flutuantes, sobre uma tela que, outubro após outubro, fazemos questão de recolorir. Com as mãos, com os pés, com o coração. E assim está pronta a aquarela de todo um Segundo Domingo: a aquarela da fé!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Zona eleitoral

Mais uma vez o brasileiro se encontra com as urnas, na maior festa da democracia, para decidir o futuro do país! Será mesmo?
Primeiro que o brasileiro não vai se encontrar com a urna, porque a expressão “se encontrar com” sugere uma certa disponibilidade e até uma certa vontade de fazer, sendo que para muitos o ato de votar é odiável por ser um domingo que, quando não é jogado no lixo, é gravemente atrapalhado por uma fila de desconhecidos vestidos de varias cores que até te confundem. Ainda se torna mais penoso ter que digitar tanta coisa como agora. Em pleno domingo? Em segundo lugar, as eleições passam longe de ser uma festa para a população, principalmente para os menos favorecidos que não levam sequer um brigadeiro para casa. E dizer que é democrática parece exagero, já que somos OBRIGADOS a isso. Mas na democracia não é a voz do povo que soa mais alto? Responda você mesmo.
E o terceiro ponto é o mais engraçado. Chega a ser irônico e pouco inteligente pensar que nas eleições nós decidimos o futuro do país. Futuro? Que futuro? O cenário político atual é, em grande parte, uma continuação do que era o cenário de vinte anos atrás. Muitos sobrenomes conhecidíssimos continuam pedindo pra ficar – afinal de contas, trata-se de uma das profissões mais rentáveis, onde você decide quanto deve ganhar – e as mesmas fotos são eternizadas nos pôsteres e santinhos – que ironia! – e poluem nossas TVs e nossas ruas, como se ainda fosse necessário poluir mais. São ex-presidentes, ex-governadores, ex-prefeitos e até mesmo ex-seres vivos que não querem largar o apetitoso osso chamado política. O futuro, meus amigos, é apenas o filho ou neto do nosso passado.
Quando acordarmos nesse domingo, não iremos ver o sol mais brilhante nem passarinhos cantando em nossas janelas. Eu irei ver a mesma cidade fria como em todas as manhãs, quente feito o inferno em dia de verão e prédios, prédios, prédios. Até a minha Seção Eleitoral, as promessas de uma cidade mais limpa vão ser urgentes como nunca, os cabos eleitorais não perdoam. É papel, bandeiras e adesivos por todas as sarjetas e postes! Não irei chegar em frente ao mesário com um sorriso de comercial de amaciante de roupas. Nem sair de lá e dizer: “eu cumpri meu dever de cidadão brasileiro” ou coisa parecida. NÃO! Ninguém fará isso porque isso é gravação de programa eleitoral.
Por mais que acreditemos, nem que seja um pouco, que esse país ainda tem jeito, as eleições fazem questão de provar o contrário. A quantidade de hipocrisia que somos obrigados a assistir no horário nobre nos faz pensar se vale mesmo à pena votar. E alguns candidatos ainda fazem pior. Acabam tornando a política mais circense do que ela, por essência e experiência, é. Francamente, lugar de cantores é no palco e não no púlpito do Congresso ou das Câmaras, e o mesmo vale para ex-jogadores, frutas e comediantes – exemplos são necessários?
Não precisamos fantasiar um domingo perfeito, nem teatralizar o voto como se fosse uma Coca bem gelada. O que é necessário, acima de qualquer coisa, é consciência. A consciência supõe inteligência, que supõe o uso da cabeça. Tivemos tempo e liberdade para pensar, analisar o ruim e o menos pior, o que elas fizeram e podem fazer por nós, e no domingo só basta seguir nossa consciência. Mas que essa mesma consciência não nos cegue nem nos faça imaginar que o país vai mudar a partir do primeiro dia de 2011. Acordem! Votar não é diversão, e não somente por ser “chato”. Nosso voto é coisa séria e deve ser tratado como tal. Alguém deve agir com seriedade nessa verdadeira zona.