sábado, 11 de setembro de 2010

Por uma noite

Pensou. Sabe aqueles dias que tiramos para esquecer de tudo e de todos, só esquecer? Esse era mais um dia desses na vida de Carol, e com razão. Brigou feio com o namorado, se atrasou pro trabalho, queimou a pipoca, nada deu certo, e a saída que ela encontrou foi curtir a noite, a madrugada e todas as outras horas que viessem pela frente, a saída era sair.

Saiu. Ela sabia que iria rolar um show muito bom naquela noite, mas nem se atentou em comprar o ingresso, mas como ainda sobrou uma gota de sorte depois daquele desastroso dia, Carol ainda conseguiu entrar, uma das amigas iria, mas ficou doente. Então ela ligou para as outras, duas, e combinaram o programa. Se arrumaram feito crianças que usavam o batom da mãe pela primeira vez, pegaram o carro e saíram desvairadas pela noite, aquela que não terminaria tão cedo.

Aproveitou. Sem ligar para as outras, Carol pulou, cantou, dançou, bebeu, enfim, sugou daquele show o melhor que podia. Mas ainda não tinha terminado o “foda-se” daquela jovem, por isso decidiu esticar, procurar algum lugar bom, que não fizesse aquela chama tão vivaz e necessária se apagar. As três pararam na primeira placa de neon que encontraram, foi instantâneo, todo aquele brilho era sugestivo demais para quem queria sair de um breu imenso chamado monotonia.

Dançou. Mas dançou demais. Se jogou mesmo, bebeu até absinto, beijou homens, mulheres, o garçom, a amiga, fez valer a pena, com direito a todo e qualquer veneno anti-monotonia que pudesse existir naquela pista. As horas iam passando como minutos para Carol, que cada vez menos lembrava que tinha chefe... Que chefe? Que namorado? Que vida chata? Não, ali a Carol da Dona Estela, a Carol do Edu e a Carol que acorda cedo todos os dias para viver sempre mais do mesmo tinha ficado em casa. Aquela mulher estava livre. Livre de qualquer compromisso, de todos os problemas da firma e de todo pudor. Nessas horas ele fica sem função nenhuma.

Amanheceu. Nem pareceu, mas já eram quase 6, e Carol ainda estava na madrugada com as amigas, que assistiam a uma borboleta saindo do casulo. Aquela noite foi inesquecível, principalmente para aquela moça frustrada, cansada e comum de todo santo dia. Não importa o quanto bebeu, as lembranças daquelas últimas horas ficariam de qualquer jeito, nem se fossem uma baita ressaca. Só acordar de ressaca já seria um presente. E acordou assim, com a cabeça pesando cem quilos, mas com a alma voando feito uma pena.

Acabou. A noite mais intensa, mais vermelha, mais “uhu” da sua vida acabou. Na segunda-feira lá estava a mesma Carol da Dona Estela, do Edu, que acordava cedo para viver mais do mesmo. Era a mesma mulher de antes, de sempre, com tudo exatamente igual, desde a sua mesa até o seu quarto. Nada mudou. Nada mudou? Quem vai saber? Talvez ela seja apenas mais uma refém da rotina, talvez ela seja ainda uma lagarta que apenas ensaiou sua libertação. De quantos dias infernais Carol ainda precisará para viver mais uma noite como aquela?


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