quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O juízo final - parte II



Então, Otávio pensou, e respondeu:

- Ora essa, quem você pensa que é para me tratar assim? Seu, seu, seu velho, nem te conheço, agora você sim me conhece bem, todos me conhecem. Eu sou Otávio Amarante, eu sou o cara!!!

- Sim, eu sou Deus e nunca me vangloriei disso! Ora, tolo! Você fez hotéis, eu fiz tudo, se você tem três filhos, eu tenho bilhões, isso sem contar os que já vieram pra cá, os que desceram e os que estão nascendo agora, e uma das vantagens de nunca ter sido casado é que eu nunca traí. Quem é “o cara” agora, ó grande Otávio Amarante?

Otávio ficou totalmente – e naturalmente – sem palavras, e nem deveria tê-las depois do que acabara de escutar. Imaginem a prepotência que seria responder qualquer coisa que fosse ao Todo Poderoso, que ainda por cima deu uma bela bronca no coitado.

Mas nem tudo era castigo:

- Mesmo com todos esses defeitos, principalmente a arrogância de ousar me desafiar, eu devo admitir que ultimamente você vem aproveitando melhor a sua vida, com a sua família, seus filhos, sua mulher, na sua casa, comendo bem, praticando esportes. Muito bem. Vendo essa sua ínfima, porém existente regeneração, eu acho que você merece uma chance. Até aquele sujeito, Barrabás, teve. Sem falar no Parreira...e no FHC.

Aquele gesto tão altruísta fez Otávio arregalar os olhos. Vendo a oportunidade de se redimir, indagou:

- Quer dizer que eu vou voltar? Mesmo?

- Vai sim, homem. Só tem uma condição: você vai sair do coma já já, como por milagre, e vai ter 24 horas pra fazer o máximo de coisas boas possíveis. Você decide o que. Caso contrário você volta imediatamente. Fechado?

Otávio concordou na hora.

De repente, para a surpresa de sua família e dos médicos, ele acordou do coma, e em algumas horas estava fora do hospital, pronto para cumprir a ordem superior. Decidiu contar tudo sobre seu filho extra-conjugal, revelou a todos seus erros, abriu o jogo, e a família, num ato extremamente generoso, perdoou-o. Logo depois ele ligou para o menino, para os seus advogados, chamou a mãe dele, e decidiu assumir o filho depois de tanto evitá-lo. Pediu perdão a quem devia, limpou a alma, e assim achou que estava com a moral lá em cima com o Chefe. E estava.

E naquela noite ele lembrou de fazer uma coisa. Tinha jogo do Coringão, seu time do coração, semifinal de Libertadores, ele não poderia perder por nada. Foi, sob protestos de sua zelosa família, para as arquibancadas, queria sentir de novo o calor da torcida. O jogo foi começando, de repente um gol do adversário. Desespero. O Corinthians precisaria empatar e estava perdendo, a torcida vaiava, mas ainda tinha jogo. No início do segundo tempo, 2 a 0, o velho Otávio gritava, chorava, sofria muito vendo seu time perder. Até que o Timão empatou, e aí, o fato decisivo.

Quarenta e oito minutos, etapa final, pênalti para os donos da casa. Seu Otávio não tinha mais unhas, nem voz, mesmo assim vibrou como se fosse um título, bem como os outros milhares de torcedores. O centro-avante, artilheiro do time, pede a bola, se concentra, partiu pra cobrança e...e... o velho caiu duro na arquibancada, infarto fulminante.

Ao voltar ao céu, ele esbravejava para Deus, reclamando muito:

- Seu mentiroso, trapaceiro! O Senhor me disse pra eu fazer coisas boas, e eu fiz, contei a verdade sobre meu caso, pedi perdão, perdoei, fui generoso, honesto, tudo nos conformes, e sem mais nem menos você me traz de volta?

Com toda a serenidade do mundo, o Homem de Branco lhe disse:

- Mas eu não disse que você não cumpriu o acordo, muito pelo contrário, você fez coisas boas a todos... menos com você mesmo. Francamente, o Jorge é meu amigo, mas ser corintiano é demais, você deveria me agradecer por antecipar o inevitável. Além de arrogante, é ingrato, ora essa! Já me bastava Judas!

(A título de informação, aquele pênalti... explodiu no travessão).

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