quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Quem sou eu

Quem sou eu? Eu sou um menino ainda longe de estar completo – ninguém é completo nesse mundo – e que busca sempre o lado bom das coisas, os meios bons de se fazer tudo, mas que, como qualquer outro mortal, erra muito. Erra mesmo. E acha bom. Bom porque é errando que se aprende de fato, isso não é só mais uma frase feita, funciona. Porém eu sou alguém que acerto também, claro! Pelo menos eu prefiro acreditar nisso. Quem sou eu? Eu sou um rapaz contente com a vida que leva. Contente, não conformado. Sou uma pessoa que muitos chamam de “amigo”, mas posso ter ferido muitos outros, eu sou alguém com um coração tão bagunçado quanto a minha cama, com os lençóis trocados com freqüência.
Quem sou eu? Eu sou um belenense que se orgulha do Círio e se envergonha do lixo nas calçadas, eu sou um universitário que ainda crê na educação e, ao mesmo tempo, um fruto de escola pública que sabe que mudanças raramente deixam de ser apenas idéias, mesmo tentando fazer com que deixem de ser. Quem sou eu? Eu sou um geminiano que odeia e critica nos outros um defeito que tem: bipolaridade, o que não significa necessariamente uma dupla personalidade. Eu sou alguém que pode se definir muito bem hoje, mas amanhã nem se reconhecer no espelho.
Quem sou eu? Eu sou um, sou dois, sou mil, e nem sei se isso é bom ou ruim. O que é bom ou ruim? Amar te deixa nas nuvens, mas pode te dar uma bela rasteira. Comer é um prazer dos mais prazerosos, que se transformam em colesteróis e gorduras em questão de minutos. Acertar as dezenas da loteria deve ser ótimo, até aparecerem as dezenas de amigos e parentes que você nunca viu. Talvez eu seja bom, talvez eu seja ruim. Não sei. Na verdade eu não sei de muita coisa.
Quem sou eu? Eu sou o ombro amigo nas horas alegres, o estraga-prazeres nas horas tristes, o gelo que queima, o que ouve e o que fala, talvez mais falando do que ouvindo. Eu sou o recato escondido atrás de muita ironia, a timidez vestida de sarcasmo, a seriedade brincalhona. Eu sou alguém que escreve o que pensa e pensa no que escreve, um menino que ainda não aprendeu a receber elogios pelo que faz, mas sabe bem o que é ser criticado, auto-criticado. Quem sou eu? Um jovem que anda por aí atentamente desatento a tudo e a todos, mesmo que não pareça. Pareço o que sou e o que não sou, mas isso não compete mais a mim. Quem sou eu? Sou uma pessoa que pergunta cada vez mais e responde cada vez menos, cheio de quase certezas e quase respostas.
Quem sou eu? Não sei. E quem é você?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A pirâmide

Na noite de ontem o treinador do Santos, Dorival Junior, foi demitido do clube, culminando – ao menos por enquanto – a crise interna entre o agora ex-técnico e Neymar, a “jóia” do clube. Segundo os colegas. A justificativa seria uma “falta de flexibilidade” de Dorival, ao manter o jogador suspenso depois de ter sido ofendido por ele, ao não ser autorizado a bater um pênalti – que, por sinal, Neymar costuma perder com freqüência. E isso não foi história contada, foi um fato, registrado por todas as mídias presentes. Dorival teria abusado de sua autoridade e quebrado a hierarquia.
Aí entra a pergunta mais que pertinente: quem quebrou a hierarquia nessa história?
Em qualquer profissão, assim como na família, na igreja, enfim, existe quem manda e quem obedece, a grosso modo, claro. E deve haver uma pirâmide hierárquica para que não vire bagunça. Porém deve ser uma liderança baseada no respeito. Respeito pelo patrão, pelos colegas e pela instituição, acima de tudo. Nos gramados, há um agravante que fica cada vez mais flagrante: a supervalorização dos jogadores. Fica evidente o fato que o jogador-pivô desse caso praiano achou que foi um ultraje ser deixado de fora de um grande clássico e, num acesso de imaturidade, esqueceu quem mandava e se irritou.
O grande problema é que a diretoria acabou botando mais moral na conta do atacante. Onde ele irá parar? Desse jeito, a autoridade de um subordinado acabou prevalecendo. Isso é nocivo em qualquer profissão, já que qualquer desordem nos rumos da empresa pode prejudicar toda a estrutura. Não acho que a submissão deve ser absoluta, claro que ter voz é fundamental, em qualquer degrau dessa escala. Mas, acima de tudo, deve haver o respeito que cargos superiores exigem, ou senão viraria a casa da sogra. Todos devem saber onde estão. Se não estão satisfeitos, que resolvam entre si. Entre si.
A partir do momento em que sobram farpas de confusões que digam respeito apenas aos protagonistas, a credibilidade de quem manda fica manchada, e, voltando ao ocorrido no Santos, mais uma prova de que o futebol se comercializou rápido demais. Nem Pelé, Zico e Rivelino tiveram a impáfia de desafiar o comandante como fez o recém-chegado à maioridade Neymar. E eu falo de gênios. Quem perdeu nessa história? O clube, que perdeu respeito, a diretoria que foi incoerente, os colegas de elenco que respeitavam o “professor” e o próprio jogador, que deve estar achando mais ainda que pode andar sobre a água. Mas não pode, esse é o problema. Nunca esse menino precisou tanto de apoio, seja psicológico, seja familiar.
Resumindo, sem comando, não há resultados. Sem companheiros, não há vitória. Principalmente, sem RESPEITO não há sucesso. Para um dia alcançar o topo da pirâmide, é preciso escalá-la. Mas com dignidade, honradez e, acima de tudo, humildade. Não é submissão, é humildade. Sem ela, não há hierarquia que resista.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Saber depois

Bocas abertas e queixos caídos, laconismo sorrateiro e um baita nervosismo. Apenas os principais sintomas de toda e qualquer surpresa que se preze. E como eu tenho certeza absoluta de que todos que estão lendo esse texto já foram os últimos a saber de alguma coisa, posso dizer tranquilamente que, nem sempre, ser pego de surpresa é uma coisa boa. Eu, por exemplo, não sou fã. Pelo menos enquanto elas ainda são surpresas. E se aquelas benditas seis dezenas baterem com as minhas, então?!
Chegar em sua casa e ver uma pessoa muito querida que há tempos você não via faz muito bem, mata a saudade, traz um sentimento muito confortante, talvez o mais indicado para curar a tensão absurda e o suor nas mãos que vem antes. Vai que essa pessoa seja bem mais querida do que eu imagino... Aliás, é só falar em relacionamentos que ótimos exemplos vem à cabeça. Os pequenos atos cotidianos que mudem a rotina é mais do que interessante, é instigante, necessário. Receber aquela mensagem no celular com a coisa mais boba e simples que demonstre carinho pode nos fazer ganhar um dia.
Infelizmente, nesse mundo absurdamente maniqueísta, tão comum quanto as surpresas na alegria são as surpresas na tristeza. Assim como pode ter um alguém muito legal te esperando, vai que é um dos primos mais chatos da família, ou um daqueles tios que ainda apertam suas bochechas como se fossem massinha. É, nada agradáveis são aquelas que envolvem saúde, tanto a nossa quanto a dos nossos, bem como aquelas que caem no lugar comum chamado mentira. De todos os tipos, inclusive a mais folclórica. Essa mesma. Nunca ouviram falar da cena mais-que-clássica do maridão chegar em casa e ver sua mulher, digamos, prevaricando com outro? O mais claro sinal de que nem sempre é bacana não saber de tudo.
Por mais que alguém diga que sim, eu ainda acho improvável prever uma surpresa, de qualquer tipo, até porque assim toda a graça iria ralo abaixo. Mas quando eu digo surpresas, eu digo surpresas de verdade – o que não inclui passar no vestibular (para muitos) nem os coloridos dominarem qualquer premiação de “música” que apareça. Essa última, aliás, não é surpresa pra absolutamente ninguém. Nem ser assaltado é tão inesperado assim hoje em dia. E vamos combinar que de vez em quando é até bom sentir aquele frio na barriga, a adrenalina subindo a litros e todo aquele suor nas mãos, parece uma carga de 220 nos corações e corpos quase afogados em um irritante cotidiano. Sair dos trilhos, quebrar a corda do comum, sentir, seja o que for, faz sempre bem. Mesmo o exercício de tentar adivinhar o que vem por aí se torna muito estimulante, ainda que sempre inútil. Caso contrário nós estaríamos passando por cima da regra básica de toda surpresa: surpreender.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sem moderação

Sempre quando meus professores de inglês me perguntam coisas do tipo: “what is your hobby?” ou “what do you like to do?” (e eles SEMPRE perguntam), a resposta é sempre a mesma, mas não por falta de vocabulário ou por ser a resposta mais comum e fácil, mas sim por ser a mais pura verdade: “listen to music”.
É mais do que um vício, é essencial para eu ter um bom dia, mesmo me deixando surdo. Ouvir música é opção em todas as situações, sejam as piores brigas ou os melhores beijos, quase sempre esses momentos acabam se eternizando por uma letra coincidente ou por uma música que acaba ficando na memória como a “música daquele dia”. E mesmo que não sirva pra marcar absolutamente nada em nossas vidas, só o fato de ouvir um som maneiro já satisfaz, nem que seja apenas por aqueles minutos de audição. Eu, por exemplo, não consigo ir pra faculdade sem meu bendito-maldito fone de ouvido, sem medo de ser feliz... Nem de ser assaltado.
O prazer de poder viajar em uma boa melodia e se encontrar nas letras – não necessariamente ao mesmo tempo – é único, independente de qual seja o seu gosto. Aliás, aí se encontra um grande problema. Como esse é um assunto que não se discute, mas sempre acabamos discutindo, brasileiro não respeita regra mesmo, cada um pode escutar o som que quiser, ele é livre pra decidir, pode ser até buzina de caminhão ou choro de criança. Entretanto, muitos desses cidadãos infelizmente resolvem gostar de algo completamente diferente de você e compartilham esse gosto, o que pra você se torna um martírio. Não que eles façam isso obrigatoriamente de propósito, mas que enche o saco, ah, enche!
A música já passou por tantas fases, foi underground, hoje é mais pop do que nunca, e mesmo assim é parte das vidas de todo mundo. Desde os clássicos, lá atrás, até as modinhas de hoje, que ultrapassam os limites sonoros, vários ícones foram exaltados e muito lixo foi descartado. Outros... Vozes memoráveis, estilos inconfundíveis, sucessos de ouro, platina e diamante que povoa(ra)m as rádios e se tornam atemporais. Não dá pra ouvir Pais e Filhos e não pensar no hoje, nem Cazuza e Paralamas sem pensar no país em que vivemos. Que país é esse? Mudou bastante coisa de vinte anos pra cá. No Brasil e na música. A internet jorra talentos a torto e a direito nas nossas cabeças, as opções são muitas pra pouca memória dos celulares.
Nem vou entrar no mérito das calças coloridas, pois eu acho mesmo discutíveis as letras vazias e o despreparo vocal destes moços. Se alguém curte, é isso que vale. Que curta com respeito e tudo fica bem. Mas eu prefiro continuar por aqui, ouvindo um Lenine, me deleitando com aquilo que gosto. Isso não tem preço. Até porque os downloads são gratuitos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Algodão

Quando tudo parecia estar certo, quando as coisas começavam a se arrumar, quando finalmente, depois de tantas quedas, parecia que o terremoto tinha passado, voltou. Como antes, talvez pior. Com certeza pior. Aquele chão tão forte que, dia após dia, ia se firmando mais, dissolvendo feito algodão doce, o doce mais amargo, o amargo da decepção.

Hoje o dia me reservou o que de pior poderia sobrar pra mim, eu acho que houve uma sobrecarga de gente pedindo coisas boas, e eu, certamente, acordei tarde demais. Ela estava estranha comigo há dias, mas eu me recusava, bobo apaixonado que era, a acreditar que isso seria um sinal ruim, sei lá. Mas eu errei. Claro, sempre o errado era eu mesmo! Do nada – expressão totalmente didática, pois nada acontece ou deixa de acontecer em um estalar de dedos, nem mesmo o amor – eu recebo uma ligação, era ela, me chamando pra conversar. Até aí tudo bem, eu achei que seria algo casual. Confesso que, no fundo, eu esperava que fosse uma explicação, seguida de um longo beijo. Otimista demais!

Cheguei em casa e ela estava me esperando, com olhos de apreensão e certeza, que me assustaram de início, a conversa seria, no mínimo, decisiva. O começo, desconcertante para os dois, o clima fúnebre daquela sala, a dureza do assunto disfarçado em eufemismos desnecessários, tudo aquilo me levava a crer que alguém sairia ferido. Depois de muitas, mas muitas vírgulas, ela finalmente disse o que eu queria ouvir: era o fim. Sem mais explicações, era o fim.

Atônito, nem consegui tentar convencê-la do contrário, nem pensei que era apenas um dia ruim e que alguma coisa ela estaria descontando em mim, mas que amanhã ficaria pra trás. Ela saiu. Eu fiquei. Melhor, eu sobrei. Quando começou a cair a pesada ficha, eu comecei a pensar naquilo que naturalmente muitos pensariam: o que eu fiz de errado? Onde eu não fui um bom parceiro nesses dois anos? Será que as flores estavam murchas? Ela não gostou do presente? Eu não era presente? Não conseguia encontrar as malditas respostas para, ao menos, conseguir dormir tranqüilo. E se ela não fosse a namorada ideal? Ela me traía? Confesso que, se era isso, eu prefiro nem saber, ainda quero ter a imagem daquela garota que, do início ao fim foi honesta e sincera comigo. Principalmente no fim.

Já são três da madrugada e eu confesso que não procuro mais respostas para nada. Não, eu ainda não entendi aquela conversa, nem por quê ela foi a última do casal. O que eu entendi foi que nunca uma queda que a gente sofre é a primeira e nem a última. Eu ainda devo amar muito aquela hoje ex, talvez por ser ainda recente o fim, talvez por ela ser a mulher da minha vida. Se não for, ainda procurarei pela tal. Certa ou errada, foi decisão dela, não tenho direito de interferir. Mas foi um tombo, grande, mas só um tombo. E como eu sei que ainda vem muitos outros por aí, pra quê chorar? Vou dormir, amanhã há de ser outro dia, a música já diz. Vou dormir, e tentar sonhar. Vou dormir.

Boa noite.

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sábado, 11 de setembro de 2010

Por uma noite

Pensou. Sabe aqueles dias que tiramos para esquecer de tudo e de todos, só esquecer? Esse era mais um dia desses na vida de Carol, e com razão. Brigou feio com o namorado, se atrasou pro trabalho, queimou a pipoca, nada deu certo, e a saída que ela encontrou foi curtir a noite, a madrugada e todas as outras horas que viessem pela frente, a saída era sair.

Saiu. Ela sabia que iria rolar um show muito bom naquela noite, mas nem se atentou em comprar o ingresso, mas como ainda sobrou uma gota de sorte depois daquele desastroso dia, Carol ainda conseguiu entrar, uma das amigas iria, mas ficou doente. Então ela ligou para as outras, duas, e combinaram o programa. Se arrumaram feito crianças que usavam o batom da mãe pela primeira vez, pegaram o carro e saíram desvairadas pela noite, aquela que não terminaria tão cedo.

Aproveitou. Sem ligar para as outras, Carol pulou, cantou, dançou, bebeu, enfim, sugou daquele show o melhor que podia. Mas ainda não tinha terminado o “foda-se” daquela jovem, por isso decidiu esticar, procurar algum lugar bom, que não fizesse aquela chama tão vivaz e necessária se apagar. As três pararam na primeira placa de neon que encontraram, foi instantâneo, todo aquele brilho era sugestivo demais para quem queria sair de um breu imenso chamado monotonia.

Dançou. Mas dançou demais. Se jogou mesmo, bebeu até absinto, beijou homens, mulheres, o garçom, a amiga, fez valer a pena, com direito a todo e qualquer veneno anti-monotonia que pudesse existir naquela pista. As horas iam passando como minutos para Carol, que cada vez menos lembrava que tinha chefe... Que chefe? Que namorado? Que vida chata? Não, ali a Carol da Dona Estela, a Carol do Edu e a Carol que acorda cedo todos os dias para viver sempre mais do mesmo tinha ficado em casa. Aquela mulher estava livre. Livre de qualquer compromisso, de todos os problemas da firma e de todo pudor. Nessas horas ele fica sem função nenhuma.

Amanheceu. Nem pareceu, mas já eram quase 6, e Carol ainda estava na madrugada com as amigas, que assistiam a uma borboleta saindo do casulo. Aquela noite foi inesquecível, principalmente para aquela moça frustrada, cansada e comum de todo santo dia. Não importa o quanto bebeu, as lembranças daquelas últimas horas ficariam de qualquer jeito, nem se fossem uma baita ressaca. Só acordar de ressaca já seria um presente. E acordou assim, com a cabeça pesando cem quilos, mas com a alma voando feito uma pena.

Acabou. A noite mais intensa, mais vermelha, mais “uhu” da sua vida acabou. Na segunda-feira lá estava a mesma Carol da Dona Estela, do Edu, que acordava cedo para viver mais do mesmo. Era a mesma mulher de antes, de sempre, com tudo exatamente igual, desde a sua mesa até o seu quarto. Nada mudou. Nada mudou? Quem vai saber? Talvez ela seja apenas mais uma refém da rotina, talvez ela seja ainda uma lagarta que apenas ensaiou sua libertação. De quantos dias infernais Carol ainda precisará para viver mais uma noite como aquela?


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Metalinguagem



Quem tem o poder da escrita nas mãos é, sem dúvidas, privilegiado, pois é através de textos que armazenamos muitos dos momentos importantes de nossa caminhada, sejam eles os melhores, os piores, os mais complexos ou os mais banais. Além da memória, que pode falhar, é por registros escritos que muitas histórias são contadas e se tornam eternas, encantando, impactando e influenciando gerações. Sejam os grandes clássicos da literatura mundial, como Camões, Castro Alves e Stephen... Dostoiévsky, sejam simples e queridos diários de menininhas ou (oh!) blogs, escrever se torna uma terapia, um escape de tudo o que pode te afligir ou mesmo o alto-falante para as alegrias, palanque para críticas, ou qualquer outra coisa que nos permitamos.

Não, não precisamos ser nenhum Machado de Assis em reconhecimento e fama, mas podemos sim ser Bentinhos ou Capitus da vida real, e criarmos o nosso Dom Casmurro, em qualquer lugar que dê pra escrever. Nem precisamos ser um Monteiro Lobato, e mesmo assim contar como é viver em um Sítio do Pica Pau Amarelo. Apenas precisamos de boas idéias, papel, caneta ou teclado em mãos, e a partir daí, com a faca e o queijo, podemos partir com nossa nave espacial ou no nosso Alazão por aí, viajar mesmo, para onde nossa imaginação nos permitir, e escrever. Escrever tudo o que vier, tudo o que sentir, sem restrições. Escrevendo, muitos medos são revelados e até sanados, muitos desejos reprimidos são revelados, muitos planos se realizam, e não precisamos de permissões nem de passaportes. Somos livres... Mas nem tanto.

Nossa liberdade de expressão é absolutamente constitucional, e não poderia ser de outro jeito, afinal somos seres pensantes, que precisamos expor o que dá nas nossas telhas, porém nosso livre arbítrio não é tão livre assim. Se queremos publicar nossos textos em jornais, revistas, na internet, devemos respeitar alguns termos básicos de conduta, o que, de certa forma, não deixa de ser prudente, mas ao mesmo tempo cerceiam a liberdade que nos é inerente. Por isso o fantasma da censura continua dando seus sustos por aí. Agora, muitos fazem desses espaços apenas meros cadernos virtuais, sem compromissos, apenas com o de proporcionar boas leituras.

Por exemplo, os blogs, que hoje são verdadeiras febres na internet, servem para disseminar o que pensa a juventude cada vez mais criativa e fértil que povoa esse planeta, que por muitas vezes se sente oprimida, em casa, na escola, no trabalho, na sociedade. Alguns servem como confessionários, livros abertos, diários do cotidiano de muita gente. Outros, mais literários, revelam verdadeiros talentos. Há também aqueles que escrevem sobre tudo. Política, futebol, sentimentos, etc e tal.

Se, por acaso, bater vontade de escrever sobre super-heróis, que povoaram a nossa infância, que escrevamos. Caso a inspiração seja uma história do seu passado, voilá. Copa do Mundo? Prato cheio para elogios, críticas, críticas, críticas... Sem falar das mazelas sociais, econômicas, sexuais, enfim, tudo pode ser, ou melhor, tudo é texto, tudo são palavras, e essas palavras ajudam a construir opiniões, reflexões, pontos de vista. Seja para rir ou para chorar, para polemizar ou apenas entreter, a leitura sempre é um programa que vem a calhar, para quem quer ganhar conhecimento, e o conhecimento brota de cada página, de cada site, de cada lápis. Escrever vai muito além de redações cartesianas e pragmáticas do ensino médio. Escrever deveria ser disciplina e, além disso, deveria ser prática de todos, desde pequeninos, porque assim muitos outros Shakespeares e Dantes, que ficam escondidos no absurdo preconceito que insiste em existir, se revelariam. Então, escreva, escreva muito, escreva pra você ou para o mundo, não importa. O que vale mesmo é a vontade de ser mais um privilegiado, com o poder nas mãos.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

(In)Dependentes

Que o 7 de setembro não passa de uma desculpa esfarrapada para criarem um feriado, o que no Brasil existe mais do que promessa de político, todos nós sabemos muito bem. O Brasil nunca foi, não é e nunca vai ser independente, não interessa se o grito foi dado no Ipiranga ou no rio Guamá. Mas isso não é algo inadmissível e (mais) revoltante por um motivo: um país, assim como uma pessoa, não é nada sozinho. Resumindo, independência não passa de um papo furado e ideologia barata para enganar os bobos. Bobos, os que acham que se bastam.

Poderia encerrar esse texto aqui, com uma única frase, mas deixarei ela para o final, mesmo sendo mais óbvia do que seria agora.

Alguns podem até pensar que a independência é sim possível, citando vários exemplos do que nós conhecemos como liberdade, emancipação, etc. Morar sozinho é o mais comum. “Agora eu vou me virar sozinho, andar com as próprias pernas!” são as primeiras frases de libertação que vem a nossa cabeça quando largamos a barra da saia da mamãe, e isso realmente deve ser muito bom, a sensação de não dever grandes explicações sobre as noitadas e quem dorme no seu apê, mas daí a se considerar totalmente independente chega a ser exagero. Quem tem empregada sabe muito bem que não rola a liberdade, mesmo que por pura preguiça. Sem falar no carteiro que leva suas contas, no motorista do ônibus que você pega toda manhã ou os policiais nas ruas, pra garantir sua segurança. Ao menos em tese.

No trabalho, pode haver certa autonomia, principalmente se você é chefe, agora independer de seus funcionários e/ou colegas é tão possível quanto a Marina se eleger presidente. E em todas as relações pessoais o contato é fundamental, e esse mesmo contato pode ser o vínculo de dependência entre dois ou mais indivíduos. Um abraço amigo ou um beijo caloroso nunca são demais. Em asilos e hospitais psiquiátricos, por exemplo, o apoio humano é imprescindível para a recuperação dos pacientes, bem como dos presos ou viciados de um centro de reabilitação. Nós dependemos, até mesmo, dos nossos maiores desafetos, o nosso ódio precisa deles para continuar odiando. Nem os solteiros escapam! Pelo menos que não ficam sozinhos nunca. E essas são apenas as dependências físicas.

Estamos no século XXI, a era da modernidade, e eu duvido que dois de vocês consigam passar uma semana sem celular, internet ou televisão sem pensar em suicídio. É mais forte do que imaginamos a ligação entre o homem e a máquina, muitos dependem dela para viver, sobreviver, inclusive. Podem ser ligações profissionais, pessoais e, acreditem, afetivas que prendam os dois de tal maneira que nunca iremos nos desgarrar. Dependemos muito de coisas tão simples, como roupas, uma cama quente, calçados e do dinheiro. Somos reféns de tudo isso, somos tão independentes dessas pequenas grandes coisas quanto o Brasil é independente do resto do planeta.

Lembram daquela frase que eu guardei pro final? De tão óbvia ela parece bem mais estúpida. O SER HUMANO É UM SER SOCIAL, que não consegue viver sem o outro, sem alguém que lhe critique ou elogie, sem seguidores no twitter, sem ninguém pra reparar nele. Criamos afetos ate com pedaços de plástico hoje em dia, imaginem com carne e osso?!

Então, alguém ainda acredita em independência?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O juízo final - parte II



Então, Otávio pensou, e respondeu:

- Ora essa, quem você pensa que é para me tratar assim? Seu, seu, seu velho, nem te conheço, agora você sim me conhece bem, todos me conhecem. Eu sou Otávio Amarante, eu sou o cara!!!

- Sim, eu sou Deus e nunca me vangloriei disso! Ora, tolo! Você fez hotéis, eu fiz tudo, se você tem três filhos, eu tenho bilhões, isso sem contar os que já vieram pra cá, os que desceram e os que estão nascendo agora, e uma das vantagens de nunca ter sido casado é que eu nunca traí. Quem é “o cara” agora, ó grande Otávio Amarante?

Otávio ficou totalmente – e naturalmente – sem palavras, e nem deveria tê-las depois do que acabara de escutar. Imaginem a prepotência que seria responder qualquer coisa que fosse ao Todo Poderoso, que ainda por cima deu uma bela bronca no coitado.

Mas nem tudo era castigo:

- Mesmo com todos esses defeitos, principalmente a arrogância de ousar me desafiar, eu devo admitir que ultimamente você vem aproveitando melhor a sua vida, com a sua família, seus filhos, sua mulher, na sua casa, comendo bem, praticando esportes. Muito bem. Vendo essa sua ínfima, porém existente regeneração, eu acho que você merece uma chance. Até aquele sujeito, Barrabás, teve. Sem falar no Parreira...e no FHC.

Aquele gesto tão altruísta fez Otávio arregalar os olhos. Vendo a oportunidade de se redimir, indagou:

- Quer dizer que eu vou voltar? Mesmo?

- Vai sim, homem. Só tem uma condição: você vai sair do coma já já, como por milagre, e vai ter 24 horas pra fazer o máximo de coisas boas possíveis. Você decide o que. Caso contrário você volta imediatamente. Fechado?

Otávio concordou na hora.

De repente, para a surpresa de sua família e dos médicos, ele acordou do coma, e em algumas horas estava fora do hospital, pronto para cumprir a ordem superior. Decidiu contar tudo sobre seu filho extra-conjugal, revelou a todos seus erros, abriu o jogo, e a família, num ato extremamente generoso, perdoou-o. Logo depois ele ligou para o menino, para os seus advogados, chamou a mãe dele, e decidiu assumir o filho depois de tanto evitá-lo. Pediu perdão a quem devia, limpou a alma, e assim achou que estava com a moral lá em cima com o Chefe. E estava.

E naquela noite ele lembrou de fazer uma coisa. Tinha jogo do Coringão, seu time do coração, semifinal de Libertadores, ele não poderia perder por nada. Foi, sob protestos de sua zelosa família, para as arquibancadas, queria sentir de novo o calor da torcida. O jogo foi começando, de repente um gol do adversário. Desespero. O Corinthians precisaria empatar e estava perdendo, a torcida vaiava, mas ainda tinha jogo. No início do segundo tempo, 2 a 0, o velho Otávio gritava, chorava, sofria muito vendo seu time perder. Até que o Timão empatou, e aí, o fato decisivo.

Quarenta e oito minutos, etapa final, pênalti para os donos da casa. Seu Otávio não tinha mais unhas, nem voz, mesmo assim vibrou como se fosse um título, bem como os outros milhares de torcedores. O centro-avante, artilheiro do time, pede a bola, se concentra, partiu pra cobrança e...e... o velho caiu duro na arquibancada, infarto fulminante.

Ao voltar ao céu, ele esbravejava para Deus, reclamando muito:

- Seu mentiroso, trapaceiro! O Senhor me disse pra eu fazer coisas boas, e eu fiz, contei a verdade sobre meu caso, pedi perdão, perdoei, fui generoso, honesto, tudo nos conformes, e sem mais nem menos você me traz de volta?

Com toda a serenidade do mundo, o Homem de Branco lhe disse:

- Mas eu não disse que você não cumpriu o acordo, muito pelo contrário, você fez coisas boas a todos... menos com você mesmo. Francamente, o Jorge é meu amigo, mas ser corintiano é demais, você deveria me agradecer por antecipar o inevitável. Além de arrogante, é ingrato, ora essa! Já me bastava Judas!

(A título de informação, aquele pênalti... explodiu no travessão).