quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sangue quente



Ela que corrói, envenena, mas faz parte da vida. Ela que tira qualquer monge do sério, e nos faz cometer loucuras. Ela, capaz de nos fazer romper todos os limites da lei, da sanidade e de comportamento. Mas nem por isso, e talvez até por isso, a ira é um dos pecados mais humanos, que reflete muito da nossa personalidade, e que se faz necessária para que qualquer povo se desenvolva. E, na boa, imaginar um mundo repleto de gente boazinha o tempo todo seria um purgante, é óbvio que precisamos extravasar nossa raiva quando acharmos conveniente, nas nossas veias corre sangue, vermelho, cor da fúria. Mesmo os mais controlados um dia sucumbem e gritam, batem, falam palavrões, quebrando tudo. Enquanto formos feitos de carne, osso e sangue, pecaremos pela raiva, pelo ódio, pela ira.

Nós, seres humanos, somos verdadeiras panelas de pressão ambulantes, prontas pra explodir a qualquer momento, pois o dia-a-dia estressa, o trânsito monstro na hora do almoço, aquela professora mala que pega no nosso pé, o chefe mandão que te enche de trabalho, aquele seu vizinho te zoando pela derrota do seu time, seus pais te fazendo cobranças, as contas do mês, tudo isso vai ficando ali, guardado, e a pressão aumentando, aumentando, aumentando. Até que chega aquele momento onde não cabe mais tanto problema, tanta pressão, e naturalmente a gente acaba mandando tudo pro espaço, sem pedir licença, soltando os cachorros pra todos os lados, virando verdadeiras feras. E ai de quem ouse tentar segurar!

Há também aqueles motivos que vão além das rotinas, que nos irritam de surpresa, os famosos imprevistos desagradáveis, como a chegada da sogra ou daquele tio pentelho, que senta na sua poltrona, bebe a sua cerveja e controla a sua TV. E quando batem no seu carro e você está atrasado pra uma reunião importantíssima, ou quando na mesma situação alguém derruba café no seu Armani mais caro? Isso é de doer mesmo. Mas eu acredito que poucas coisas irritam tanto quanto uma palavrinha, muito conhecida e mais ainda evitada: telemarketing. Só de ouvir o sangue já esquenta. Quem já foi vítima desse pesadelo por telefone sabe o quanto isso irrita, tira inclusive o bom humor de muita gente, ainda mais quando precisamos resolver um problema por telefone. Quando começa a tocar aquela musiquinha de espera... Telefones já se espatifaram por causa delas.

De qualquer forma, a ira é um fenômeno normal por ser humano, mas que pode levar a atos que põem em xeque essa nossa condição. A agressividade que pode começar verbal, quando chega ao físico se torna muito,mas muito perigosa. Sair no tapa, na mão, isso pode até ser aceitável, guardadas as devidas proporções, é claro. Agora, quando o sangue ferve demais, as nossas atitudes podem fugir completamente do controle, e as conseqüências não serão nada boas. Fazemos coisas erradas, injustiças, até crimes, se estamos contaminados por tanta cólera, e muitos estilhaços podem atingir quem não merece, podemos ferir quem não nos feriu, e isso dói bastante. Em nós e em quem machucamos. Então, se quisermos chutar o balde, podemos, desde que não tenha ninguém na nossa frente (que não seja o Dunga).


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