terça-feira, 31 de agosto de 2010

O juízo final - parte I



Otávio Amarante era um empresário poderoso, dono de um grande grupo hoteleiro do país, bem-sucedido, rico e famoso, tinha uma família digna das capas de Caras, seu império estava assegurado por mais duas gerações, com competência e brio se tornou um rei, ganhou prêmios internacionais, condecorações e seu trabalho sempre foi muito bem reconhecido. Porém, descobriu há pouco que tinha uma doença incurável, que lhe daria não mais do que três meses de vida. A partir dali aquele homem sempre sério, ligado ao trabalho, de repente mudou, passou a viver. Viver a sua família, a qual pouco assistia, viver o ar puro, a grama verde e o sol que requintavam sua enorme mansão. Aqueles três meses passavam tão rápido, de tão intensos que eram para aquele senhor, com lá os seus 60 anos, que descobriu, da pior maneira, o verdadeiro valor da vida. O que Seu Otávio e sua família não esperavam era que mais uma das travessuras daquele molecão se tornasse uma tragédia. Depois de um banho de chuva, o que não fazia desde seus tempos de garoto, humilde, daqueles que andavam descalços pelas ruas de Madureira, onde nasceu e cresceu, uma forte gripe, que não demorou a virar uma grave pneumonia, atingiu com gravidade aquele homem. Em poucos dias, estava em coma.

E a partir dali Seu Otávio passou por aquela que era, sem dúvidas, a maior experiência de sua vida.

Tudo era branco, como as mais limpas nuvens no céu, e do meio de tanta claridade surge uma pessoa, um homem, vestindo uma túnica branca reluzente, que por momentos ofuscava sua visão. Ao se aproximar de Otávio, falou:

- Você por aqui! Eu estava mesmo esperando uma chance.

- Chance? Para quê? Quem é você?

- Eu? Ora, isso não importa. O que importa é que finalmente nós vamos poder acertar nossas contas. Ou melhor, as suas contas.

- Mas... mas... que contas? Quem é você, que lugar é esse? Eu morri?

- Não – respondeu o homem de branco –, ainda não. Antes você precisa passar por aqui. Nunca ouviu falar em juízo final?

Naquele momento Otávio percebeu que a hora dele já tinha chegado mesmo. Ele já estava em outra melhor, ou nem tanto assim, já que ao ouvir falar em juízo final o velho tremeu nas bases, como se imaginasse: ferrou! Então ele perguntou ao homem de branco, para confirmar, como se não soubesse que o que lhe aguardava seria péssimo:

- Juízo final?

- Ora, não se faça de desentendido, rapaz. Você sabe muito bem do que eu estou falando e, se eu fosse você, não ficaria nada feliz. Sua vida não foi das mais corretas, não é mesmo?

Como não podia mais escapar daquele momento, mesmo odiando estar lá, respondeu Otávio:

- É, digamos que não. Agora me diga uma coisa, se você sabe de tudo, pra quê me dizer agora, hein? Eu já morri, pro inferno e não vou mais, senão já teria ido. Me poupa dessa, vai, por favor!

- Ah, meu caro, pois é agora mesmo que devo lhe deixar a par de tudo o que você fez nessa vida. E olha que não foram poucas coisas. A começar pelos seus negócios...

Trêmulo ao ouvir isso, resolveu tentar interferir para que evitasse ouvir os podres que viriam:

- Mas... meus negócios?

- Ora, você sempre foi um homem de sucesso, com uma brilhante carreira, construindo um verdadeiro império. Hotéis cinco estrelas, freqüentados pelos hóspedes mais importantes da sociedade, cantores, modelos, até o Presidente da República. Um serviço de primeira, funcionários idôneos, corretos, tudo de primeira...

Um pouco surpreso e com um sorriso forçadamente contido no canto da boca, como de quem exibe um carro novo aos vizinhos, Otávio concordou com veemência – e uma certa presunção:

- Realmente, nisso eu tenho que concordar com você, as minhas empresas...

Devolveu a interrupção a Otávio o homem de branco:

- ...entretanto tudo isso foi fruto de muitos negócios escusos, duvidosos, sempre por debaixo dos panos. Isso sem falar em subornos, compras e obras superfaturadas, enfim, a lei muitas vezes passou bem longe do seu escritório, ó grande magnata!

Novamente surpreso com o que ouviu, Otávio se desfez de toda a pose que tinha erguido durante o comentário anterior e, meio envergonhado, falou:

- Bem, eu confesso, eu nunca fui o mais correto dos homens, eu errei. Agora a minha família...

- A sua bela família? Sim, sim, é uma bela família! Seus filhos são adoráveis, sempre se dedicaram aos estudos, prontos a assumir seus bens, casados, com suas famílias, felizes à beça, e a sua doce esposa, um exemplo de mulher. Sempre disposta a lhe ajudar, a estender a mão, a cuidar da sua casa. Você é um homem de sorte.

- Sim, isso sim eu admito, eu tenho muita sorte em ter a família que tenho.

- Mas qual delas? A família Amarante, a qual eu descrevi, ou a sua outra família, fruto de uma das, ouça bem, UMA DAS suas escapadinhas? Sim, porque não foram poucas, garotão. E olha que você é casado há mais de 25 anos, e mesmo assim nunca contou pra ninguém que já tem um filho de 10 e uma amante que te persegue desde aquela festinha de carnaval quando ela engravidou. Até aborto você propôs, ofereceu dinheiro e tudo mais, porém não adiantou. Mau menino!

Naquele momento o pior pesadelo daquele grande empresário era real. O tal do seu juízo final parecia o mais cruel de todos que já passaram por ele (será que ele conheceu Stalin?).

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