segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A grama do vizinho




Desse ninguém se livra, mas ninguém mesmo. Tão presente quanto o original, o pecado da inveja está na essência das pessoas, e não há batismo que o tire de nós, nascemos, crescemos e morremos invejosos, por mais que não revelemos. É fato, muita gente pode até tentar disfarçar, até mesmo negar, porém não podem fugir da inveja, mesmo sem querer ela vem, das maneiras mais inesperadas e casuais, como ao encontrar um carro novo na rua e olhar pro seu com uma cara de “nossa, meu carro é um lixo”, ou mesmo ao passar por um casal apaixonado e se perguntar por que você está só. De algum jeito, o que o outro tem é mais interessante daquilo que é seu, tanto faz se é uma casa maior ou sucesso profissional.

O bom desse pecado é que ele tem dois lados opostos. A inveja branca, saudável, é completamente aceitável, pode sentir sem culpa. Ela ajuda você a crescer, a buscar sempre o melhor, a se reinventar, em qualquer momento da sua vida. Ela faz bem. Se o seu melhor amigo conseguir passar no vestibular, comemore com ele, e prepare a sua festa pro ano seguinte; se a sua vizinha foi promovida, estude, se prepare, siga o mesmo caminho pra ser também. Nesse caso, pecar é necessário, é sadio. Nada sadio mesmo é o outro lado, o lado negro.

Essa inveja pode fazer estragos enormes, pode destruir carreiras, famílias e muitas vidas. Quando deixamos de nos preocupar com o que temos, ignorando aquilo que somos, para buscarmos aquilo que os outros tem, sempre acabamos criando grandes problemas. Essa ambição desenfreada por conseguir o que o próximo conseguiu pode nascer no seio familiar, onde comparações são constantes. Será que você nunca ouviu da sua mãe que o filho da fulana é tão comportado, ou que a filha da beltrana nunca gritou com a mãe dela? Simples, essa é uma das maneiras mais usadas para educar os filhos mais rebeldes. Além de influências externas, com forte trabalho da mídia, que mostra a forte imagem competitiva no mercado, fazendo com que as pessoas pensem sempre que a camisa da vitrine é mais bonita do que a sua.

O “bom” invejoso nunca se satisfaz com o sucesso alheio, e busca sempre enumerar defeitos nas conquistas dos outros, se vingando por elas não serem suas. Eles não aceitam, de maneira nenhuma, ver uma outra pessoa se destacar no cargo que só não é seu por que, ao se preocupar demais com a grama do vizinho, se esqueceram de cuidar das suas. Esse talvez seja o pior castigo para eles, que deixam suas vidas passarem, e quando percebem já estão a anos-luz de distância do seu objeto de cobiça. E a cura vem de um processo, de recuperar a auto-estima, o que é fundamental. Para não invejarmos o que não temos, o primeiro passo é levantarmos a nossa cabeça e nos convencermos de que aquilo que nós somos, não é melhor nem pior do que ninguém. A nossa grama pode sim ser tão verde quanto a do vizinho. É só sabermos cuidar dela e parar de regar a dele.


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