domingo, 8 de agosto de 2010

Gerações


Era uma vez um rapaz, trinta e poucos anos, que estava prestes a viver a maior emoção da sua vida. Sua noiva estava entrando em trabalho de parto, e, mesmo mais nervoso do que ela, ele foi acompanhar de perto a chegada daquele bebê de sexo desconhecido, a mãe preferiu a surpresa. Enfim, toda a família estava do lado de fora, esperando o primeiro da nova geração, a ansiedade era enorme, ainda mais para aquele futuro pai. Pai. Em poucos instantes, se tudo desse certo, aquele jovem que ainda guardava lembranças de seu último dia na faculdade, seria um pai, e por mais que nove meses tenham se passado até aquele momento, a insegurança foi inevitável, o frio na barriga, a responsabilidade começou a pesar. Foi então que ele resolveu se inspirar em um homem, a quem ele deve tudo.

Lembrou de quando era apenas filho, apenas uma criança, que brincava como todas as outras, feliz, vivendo a melhor fase da vida, quando ainda não pensava em vestibular ou nas contas do mês. Lembrou de vários momentos felizes que viveu ao lado do seu pai, que fazia questão de ser o mais presente possível, pra não deixar passar nenhuma etapa da sua vida. Uma vez, o menino, jogou um campeonato de futsal no colégio e chegou à final. Antes do jogo, ele nervoso, como um garoto de nove anos que nunca sentiu o mundo pesar tanto, ele olhou para aquele homem, que na mesma hora pegou em sua cabeça e, sereno, disse: “Filho, você já é um vencedor”. Ele perdeu o título, mas ao abraçar seu pai, ele se deu conta de que aquele conselho era mesmo verdadeiro. Perder faz parte, e isso ele levou pra toda a sua vida.

Lembrou também de quando dirigiu pela primeira vez. Ao seu lado, o seu pai, atencioso, dedicado em ensinar ao seu filho mais do que como guiar um carro. Ele estava dando uma lição de responsabilidade, de humanidade, mostrando que um erro no trânsito poderia ser trágico pra muita gente. Justiça. Foi com ele que o rapaz aprendeu a ser honesto, a nunca passar por cima de ninguém, a ter caráter. E quando entrou para a faculdade, ele se recorda da mão daquele homem, que lhe abençoou e, apertando bem forte, lhe disse que, a partir daquele momento ele daria seus próprios passos, mas que sempre teria alguém lhe vigiando, pronto pra lhe estender a mão sempre que precisasse. Naquele momento, naquela sala de cirurgia, como esse rapaz estava precisando daquela mão amiga pra se apoiar.

De repente, era a sua vez. Quando chegou aquela criança, sumiram todos os medos e uma alegria sem tamanho tomou conta daquele novo pai, pai de um menino, saudável, perfeito, cheio de vida. A partir dali aquele novo pai tinha um compromisso com a vida de outra pessoa, de seu filho, que era neto do maior homem que ele já conheceu, com quem aprendeu todos os bons valores possíveis que podem existir. E ele estava pronto pra repassar todas essas qualidades àquele bebê, que com toda a certeza seria amado e querido, até mais do que seu pai foi, pois ele aprendeu direitinho as lições que recebeu. Amizade, respeito ao próximo, companheirismo, humildade e, principalmente, amor gratuito, puro e simples. Era isso que aquela criança iria ganhar a partir daquele dia.

O novo pai, ao sair da sala de cirurgia, foi recebido com muita festa por todos os parentes e amigos que estavam o esperando, ganhou beijos e muitos abraços. Mas um em especial era o que ele realmente queria receber. Não podia. O seu pai tinha falecido dois meses antes, não esperou pra presenciar a dádiva de ser avô. Então, chorando de alegria e de tristeza, o jovem sentiu uma mão apertando a sua, bem forte, como naquele primeiro dia de faculdade, aquele era realmente um primeiro dia. Nessa hora, ele lembrou das palavras de seu pai ao apertar sua mão: “Agora é com você, meu filho. É a sua vez, vai com Deus. E, qualquer pedra que apareça no seu caminho, nunca passe por cima delas. Sempre as tire do caminho, com respeito, e siga. Assim você vai ser sempre um homem honrado. Tenho orgulho de você, e vou ter até o fim”. E foi a partir dessas palavras que aquele pai de primeira viagem se sentiu seguro naquele início de jornada, a mais bela que um homem pode viver, a paternidade, sem nunca se esquecer do seu espelho, do seu maior exemplo, daquela mão que sempre estará estendida, pra lhe segurar, aonde quer que esteja. Sem nunca se esquecer do seu PAI.




Nenhum comentário: