domingo, 22 de agosto de 2010

Elvis

Dia desses eu fui escalado pra fazer uma matéria sobre o trânsito na cidade e, no caminho, eu avisto uma cena daquelas que, contando, ninguém acredita. Um senhor, aparência cinqüentenária, discutindo ferozmente com um fiscal de trânsito, com uma multidão de curiosos em volta. Não demorou para eu me juntar a esse grupo, afinal a curiosidade fazia parte da minha profissão. O que se via era, de primeira, um motorista multado que não gostou do “presentinho”, afinal, quem gosta? Tudo corria como eu imaginava, até que o senhor chegou perto do pivô da discussão: um Chevette bege. Seria apenas mais uma multa de trânsito, se não fosse um detalhe: o carro era a casa do cidadão. Confesso que ouvi falar de pessoas que moram em lugares, digamos, exóticos, de viadutos a elevadores, agora em um Chevette, essa era nova. E o guarda estava apenas cumprindo o seu dever, mandando guinchar o carro-casa por estar “estacionado” em local proibido. Aquele carro estava ali há semanas e somente naquele dia alguém se incomodou. Com a pressão do povo e cansado daquele papelão ele desistiu da idéia, pra sorte do senhor.

Aquilo era uma ótima pauta, melhor até do que a original. As melhores reportagens surgem de onde se menos espera, e aquele era um exemplo claro. Depois que a poeira baixou, resolvi conversar com o dono do Chevette, pra tentar entender o que diabos eu tinha presenciado e pra saber um pouco mais da história daquele curioso homem. Receptivo, mesmo ainda raivoso com o ocorrido, ele foi me contando tudo. Depois de descobrir seu nome, Miguel, fui perguntando o motivo dele morar naquele carro. Então ele despejou toda a história:

- Ah, rapaz, é uma história complicada. Eu era um cara feliz, sabe, tinha um bom emprego, o amor da minha vida como esposa, tudo em ordem. A gente já pensava até no pimpolho. Tudo ia muito bem, até que um dia a empresa onde eu trabalhava me demitiu, corte de gastos, desculpa esfarrapada! Depois de um tempo, a minha mulher descobriu que não podia ter filhos, aquilo nos arrasou de tal maneira que... Na verdade, só eu fiquei arrasado. Porque... Aquela piranha!

Dando um soco de puro ódio na calçada onde estávamos sentados, Seu Miguel continuou, me assustando:

- Rapaz, por isso eu digo que mulher nenhuma merece o que a gente faz por elas. Acredita que eu dei uma vida de rainha pra ela, tudo mesmo, até o que eu não podia, e, quando eu mais precisei dela, eu descobri que a filha da mãe tava me traindo? E com o vizinho, o desgraçado do Valdir. Ele sempre teve inveja de mim, aquele tampinha cabeçudo, tudo o que era meu ele queria. A mulher ele conseguiu.

Cada vez mais interessado naquela história, eu ainda queria saber como o tal Chevette entra em cena. Mas antes de formular a pergunta, ele prossegue:

- Então a minha vida começou a virar de ponta cabeça, amigo. Depois disso eu descobri que os dois tinham feito sei lá o que pra me tirar a casa. É, eu ali era o novo sem-teto do Brasil. Sem dinheiro, só com algumas roupas e documentos,sem parentes próximos e com pouca grana, eu fui tentar encontrar um lugar, um abrigo, qualquer coisa que não deixasse a chuva me molhar. Foi quando eu olhei pra garagem do infeliz do Valdir e encontrei um lugar legal, o Elvis – apontando pro bendito Chevette bege – e então eu pensei:” já que ele tirou a mulher de mim, eu vou tirar alguma coisa dele também.” Aproveitei que ele saiu com a safada, peguei o pouco que eu tinha, a chave que estava dentro do carro, ele sempre foi distraído, pra não chamar de idiota, e pimba! Fui-me embora de lá. Já faz uns dez anos que eu vivo nesse carango por aqui, bem longe deles.

Pronto, o carro já me foi oficialmente apresentado: Elvis. Dava pra notar pelas fotos do ídolo óbvio dentro do carro. Continuei:

- E o senhor nunca mais teve notícias deles e da sua família?

- Que família? Eu não tenho mais ninguém por mim, não, só o Elvis, que nunca me deixou na mão! Amigos? Depois que perdi tudo, nenhum sobrou, meus parentes moram no interior de Minas, é muito longe, só tenho uma senhora que me ajuda sempre aqui na vizinhança. Ela sempre me dá alimentos, algumas roupas e um dinheirinho. Cuidar de um carro não é barato. O povo aqui já me conhece há tempos, sou famoso. Eu e o Elvis – falou, dando tapinhas no capô do carro como se fossem as costas de um velho amigo. Não deixava de ser.

Ali eu já estava extasiado com o que ele tinha me contado, e cada vez mais eu ficava mais curioso, querendo mais daquela história. Depois de contar outros detalhes, eu ainda não sabia o motivo do escarcéu de antes da conversa, a discussão entre ele e o fiscal. Quando perguntei, ele respondeu com naturalidade:

- Ora essa! Esse homem queria tirar a minha casa só porque eu parei bem rápido pra tomar um banho no laguinho da praça. Vem cá, rapaz, é proibido ser limpo nessa cidade? Eu não ia fazer nada demais, só tomar banho. É crime? Tanta gente que rouba e mata por aí e esses policiais queriam me tirar o Elvis por uma besteira, coitado, ele nem tinha culpa, e eu ia ser, de novo, o novo sem-teto do Brasil. Pode?

Saí daquela conversa com mais do que uma matéria muito boa no papel. Saí dali com muitas coisas na cabeça, pensando na vida, naquele senhor, Seu Miguel, que é mais do que um motorista de um Chevette bege. O carro era mais do que um carro, era a vida dele, a última coisa que lhe restou. Hoje, meses depois desse encontro, soube que o Seu Miguel continua firme e forte, no seu lar, doce lar.


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