domingo, 1 de agosto de 2010

Boca cheia




O doce sabor do pecado. Doce, amargo, azedo, todos os sabores. Dos sete eu acredito que a gula é, sem dúvidas, o pecado mais gostoso de cometer, com o perdão do trocadilho, e é aquele que traz as culpas mais, digamos, aceitáveis. Pelo menos para as pessoas normais, o que nesse mundo tão cheio de belezas anoréxicas e medinhos das famigeradas gordurinhas é cada vez mais raro. Foi-se o tempo em que comer era um prazer completo, sem compromissos e sem pratos meio cheios, antes era bom comer uma bela macarronada de domingo, e ela era simplesmente a macarronada de domingo, não o pesadelo de segunda, como hoje ela é encarada por muitas jovens que sonham com o corpo perfeito e, por isso, sacrificam-se, cerceando um dos maiores privilégios que elas podem ter: o de comer bem.

Não, eu não estou aqui pra criticar a busca por uma forma saudável, de maneira nenhuma, eu inclusive não sigo nenhum dogma da boa alimentação, admito... e me arrependo. O que eu não concordo que seja saudável são alguns métodos que são comprovadamente furados e, mesmo assim, ludibriam muita gente que pensa que fechar a boca é o melhor caminho. Ora, é claro que podemos estar bem comendo bem, nenhum regime é mais eficaz do que comer. Comer, comer, como é bom! Lamber o prato depois daquela lasanha, esperar a sobremesa como se fosse a última, traçar aquele hambúrguer, se encher de biscoitos com muito refrigerante... Opa! Todo prazer tem limites, e aquele que poderia ser o pecado sem culpas, pode trazer sérias conseqüências, mais dolorosas do que qualquer arrependimento. Se por um lado é extremamente deplorável ver pessoas se destruindo pela ignorância de achar que ficará melhor se não comer nada, é também tão deplorável quanto se dar conta que muita gente está se enchendo de gorduras, diabetes e problemas cardíacos por... falta de freio. Esses sim são os verdadeiros pecadores.

A gula pode ser um pecado de duplo sentido, dependendo do ponto de vista. Podemos a encarar como o vício por calorias, como também podemos a traduzir em fome de outras coisas. As pessoas podem ser gulosas no trabalho, sempre buscando se aperfeiçoar, melhorar, subir na empresa. Ambição, cobiça, podem a chamar assim nesses casos. Da mesma forma, podem ter fome de viver, aproveitar as oportunidades, seja com a família, seja com os amigos, seja com quem for. E temos, claro, outros tipos de gula, como esse mesmo que você está pensando, sim. Desejar alguém, ter vontade de estar junto, de possuir, tudo isso é fome, por que não? Em todo caso, a gula pode sim estar a nosso favor, apenas devemos saber administrá-la, para que ela continue sempre sendo um prazer, do mesmo jeito que vai continuar sendo um pecado, o mais gostoso, aquele que ninguém se arrepende de cometer.





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