terça-feira, 31 de agosto de 2010

O juízo final - parte I



Otávio Amarante era um empresário poderoso, dono de um grande grupo hoteleiro do país, bem-sucedido, rico e famoso, tinha uma família digna das capas de Caras, seu império estava assegurado por mais duas gerações, com competência e brio se tornou um rei, ganhou prêmios internacionais, condecorações e seu trabalho sempre foi muito bem reconhecido. Porém, descobriu há pouco que tinha uma doença incurável, que lhe daria não mais do que três meses de vida. A partir dali aquele homem sempre sério, ligado ao trabalho, de repente mudou, passou a viver. Viver a sua família, a qual pouco assistia, viver o ar puro, a grama verde e o sol que requintavam sua enorme mansão. Aqueles três meses passavam tão rápido, de tão intensos que eram para aquele senhor, com lá os seus 60 anos, que descobriu, da pior maneira, o verdadeiro valor da vida. O que Seu Otávio e sua família não esperavam era que mais uma das travessuras daquele molecão se tornasse uma tragédia. Depois de um banho de chuva, o que não fazia desde seus tempos de garoto, humilde, daqueles que andavam descalços pelas ruas de Madureira, onde nasceu e cresceu, uma forte gripe, que não demorou a virar uma grave pneumonia, atingiu com gravidade aquele homem. Em poucos dias, estava em coma.

E a partir dali Seu Otávio passou por aquela que era, sem dúvidas, a maior experiência de sua vida.

Tudo era branco, como as mais limpas nuvens no céu, e do meio de tanta claridade surge uma pessoa, um homem, vestindo uma túnica branca reluzente, que por momentos ofuscava sua visão. Ao se aproximar de Otávio, falou:

- Você por aqui! Eu estava mesmo esperando uma chance.

- Chance? Para quê? Quem é você?

- Eu? Ora, isso não importa. O que importa é que finalmente nós vamos poder acertar nossas contas. Ou melhor, as suas contas.

- Mas... mas... que contas? Quem é você, que lugar é esse? Eu morri?

- Não – respondeu o homem de branco –, ainda não. Antes você precisa passar por aqui. Nunca ouviu falar em juízo final?

Naquele momento Otávio percebeu que a hora dele já tinha chegado mesmo. Ele já estava em outra melhor, ou nem tanto assim, já que ao ouvir falar em juízo final o velho tremeu nas bases, como se imaginasse: ferrou! Então ele perguntou ao homem de branco, para confirmar, como se não soubesse que o que lhe aguardava seria péssimo:

- Juízo final?

- Ora, não se faça de desentendido, rapaz. Você sabe muito bem do que eu estou falando e, se eu fosse você, não ficaria nada feliz. Sua vida não foi das mais corretas, não é mesmo?

Como não podia mais escapar daquele momento, mesmo odiando estar lá, respondeu Otávio:

- É, digamos que não. Agora me diga uma coisa, se você sabe de tudo, pra quê me dizer agora, hein? Eu já morri, pro inferno e não vou mais, senão já teria ido. Me poupa dessa, vai, por favor!

- Ah, meu caro, pois é agora mesmo que devo lhe deixar a par de tudo o que você fez nessa vida. E olha que não foram poucas coisas. A começar pelos seus negócios...

Trêmulo ao ouvir isso, resolveu tentar interferir para que evitasse ouvir os podres que viriam:

- Mas... meus negócios?

- Ora, você sempre foi um homem de sucesso, com uma brilhante carreira, construindo um verdadeiro império. Hotéis cinco estrelas, freqüentados pelos hóspedes mais importantes da sociedade, cantores, modelos, até o Presidente da República. Um serviço de primeira, funcionários idôneos, corretos, tudo de primeira...

Um pouco surpreso e com um sorriso forçadamente contido no canto da boca, como de quem exibe um carro novo aos vizinhos, Otávio concordou com veemência – e uma certa presunção:

- Realmente, nisso eu tenho que concordar com você, as minhas empresas...

Devolveu a interrupção a Otávio o homem de branco:

- ...entretanto tudo isso foi fruto de muitos negócios escusos, duvidosos, sempre por debaixo dos panos. Isso sem falar em subornos, compras e obras superfaturadas, enfim, a lei muitas vezes passou bem longe do seu escritório, ó grande magnata!

Novamente surpreso com o que ouviu, Otávio se desfez de toda a pose que tinha erguido durante o comentário anterior e, meio envergonhado, falou:

- Bem, eu confesso, eu nunca fui o mais correto dos homens, eu errei. Agora a minha família...

- A sua bela família? Sim, sim, é uma bela família! Seus filhos são adoráveis, sempre se dedicaram aos estudos, prontos a assumir seus bens, casados, com suas famílias, felizes à beça, e a sua doce esposa, um exemplo de mulher. Sempre disposta a lhe ajudar, a estender a mão, a cuidar da sua casa. Você é um homem de sorte.

- Sim, isso sim eu admito, eu tenho muita sorte em ter a família que tenho.

- Mas qual delas? A família Amarante, a qual eu descrevi, ou a sua outra família, fruto de uma das, ouça bem, UMA DAS suas escapadinhas? Sim, porque não foram poucas, garotão. E olha que você é casado há mais de 25 anos, e mesmo assim nunca contou pra ninguém que já tem um filho de 10 e uma amante que te persegue desde aquela festinha de carnaval quando ela engravidou. Até aborto você propôs, ofereceu dinheiro e tudo mais, porém não adiantou. Mau menino!

Naquele momento o pior pesadelo daquele grande empresário era real. O tal do seu juízo final parecia o mais cruel de todos que já passaram por ele (será que ele conheceu Stalin?).

sábado, 28 de agosto de 2010

Imaginar e colher

Não há um momento em que nossa mente pare de funcionar, isso é cientificamente comprovado, todos nós sabemos. Assim como sabemos também que muitos não a usam para bons fins, porém o mais importante é cultivarmos essa horta chamada imaginação, a mais preciosa, para que os frutos colhidos sejam, em sua maioria, bons. Alguns podres vem, é natural, basta sabermos separá-los dos que prestam. E olha que muita gente por aí não sabe, e pior, só colhe coisa ruim.

O poder da nossa imaginação é muito maior do que temos idéia, ela é a responsável por muitos dos bons momentos, dos resultados mais vitoriosos, das surpresas mais gratificantes que podemos curtir na vida, e o melhor disso tudo é que ela só depende de nós pra funcionar. Muitas das grandes revoluções da história da humanidade surgiram a partir de cabeças que não aceitavam mais o sistema em que estavam inseridas, a partir de olhos que se cansaram de ver o que viam. Estes momentos são os mais propícios ao pleno funcionamento dessa maquininha chamada cérebro, são vários pensadores jorrando de fontes abertas, que se disseminam por vários lugares, transpassam barreiras temporais e dão resultados. Bons, nem sempre, mas pelo menos fizeram seu barulho.

Voar! Um desejo de muitos, uma idéia de poucos. Ícaro tentou, Dumont conseguiu, com engenhosidade e astúcia, digna de alguém que tentou se jogar aos ares, como pássaros livres. Prova de que o que pensamos pode se tornar real, contanto que se aliem as nossas idéias a coragem e a determinação. Sonhos que se transformam em realidade por mãos e pés que não apenas sonham. Fazem. Escalar o Everest, quem em sã consciência se imagina lá no alto, no ponto mais alto? Somente pessoas que sempre acharam que há para onde subir além do topo do Everest. Para esses, se o céu era o limite, por que não chegar lá?!

A nossa imaginação pode nos levar ao Everest ou ao Havaí, voando ou em um conversível, com a mulher perfeita ou com aquele tênis do momento, tanto faz, o que importa é que ela é nossa, e nos nossos sonhos ninguém entra e mete o seu bedelho. Falamos o que não conseguimos, fazemos o que nos falta coragem para fazer, damos fora sem levar, ganhamos sempre, como isso levanta a auto-estima dos tímidos por aí. Experiência própria. Também nossa mente nos diz o que queremos fazer dali pra frente. Que caminho seguir? Com que roupa eu vou? Ensaiamos nossos atos para não falharmos, em uma entrevista de emprego ou em um pedido de namoro. Podemos ir muito longe com o poder do pensamento, com ou sem destino final.

As idéias são o primeiro passo para grandes realizações, e para algumas falhas de conduta também. Há aqueles que são responsáveis por grandes golpes, nocivos a muita gente, mas eficazes. E eu não falo – somente – dos nossos ilustres políticos e afins, seria até redundante. Fugas, seqüestros, roubos, tudo isso também requer um trabalho mental considerável, ou você acha que o maior assalto do Brasil foi fruto do acaso? Inteligência, quando se une a um ideal (duvidoso, no caso) e a desvios de caráter resultam em atrocidades, os frutos podres dessa tão fértil horta.

Entretanto, como eu disse e como eu ainda acredito, os frutos vindouros são ainda a maioria absoluta. Clássicos do rock, grandes filmes, obras literárias ímpares, graças a mentes que nunca paravam de funcionar, como as nossas, e ao talento de indivíduos capazes de revolucionar, encantar, estontear a quem vê, ouve, lê. Famosos pensadores, pensadores como qualquer um de nós, que somos capazes de cultivar um dos nossos bens mais preciosos: a imaginação. Plantação fértil, que só nós cultivamos, muito, pra falar a verdade, mas buscando os melhores frutos. Dessa horta iremos colher até o fim da vida, cabe a nós escolher o quê.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Os olhos de quem vê

Nessa madrugada foi realizado mais um Miss Universo, o concurso que reúne todos os anos as mulheres mais bonitas do mundo, para ver quem é a melhor de todas. E tudo isso, todo esse contexto me fez pensar em várias coisinhas, e uma delas foi: o que é, de fato, beleza? Assistindo pela TV eu confesso que muitas das candidatas não se encaixavam nos meus padrões, que podem ser diferentes dos seus, claro, talvez por isso muitos considerem essa eleição injusta, como muitas outras relacionadas à aparência, afinal nada pode ser belo para todos. Agora o que é mais curioso é que existem disputas de quem é o mais bonito ou o mais elegante, sendo que esses são padrões intrinsecamente subjetivos e pessoais, portanto, qualquer unanimidade, nesse caso, pode ser muito burra, como dizia o poeta.

Se eu digo que prefiro uma morena de cabelos lisos e escuros, há gente que venha dizer que não, que mulher mesmo é uma loirona alta e cacheada, outros que digam que uma mulata ninguém supera, mas se esqueceram de uma coisinha: a opinião é minha! Por isso eu considero uma tremenda formalidade sem sentido qualquer tentativa de se eleger a “mais mais”, o “mais gato” ou “a top das tops”. Por exemplo, dois anos atrás eu vi uma mulher espetacularmente linda – Natalia Guimarães – perder o mesmo Miss Universo pra uma japonesinha sem sal. Pra vocês perceberem que até politicagem rola nesses concursos. Eu não preciso babar pela campeã, se eu achei outra menina dez vezes mais linda, eu tenho esse direito, ora essa, a beleza está nos olhos de quem vê. No caso, os meus.

Podemos conhecer várias misses por aí, que admiramos sem passarela, que elegemos sem votar, as musas do cotidiano que sempre estão por perto, e que barram um batalhão de modelos etíopes que aparecem desfilando ossos por aí. Isso é bonito? Pra mim, definitivamente não é. Eu acho que beleza física tem que ser conseqüência de uma rotina saudável, não de esforços sub-humanos pra se alcançar a “gordura zero”. Eu prefiro carne. Mas se você não, tudo bem, fique à vontade.

Outra coisa que eu pensei é intrigante: beleza é fundamental?

Tá bem, não sou nenhum ET que sai procurando mulheres verdes pelas ruas, eu acho que um belo rosto e um corpo certinho fazem diferença, ainda mais quando somos jovens precoces e sem tempo, muitas vezes, de conhecer o conteúdo, a beleza que realmente importa, a beleza interior. As aparências enganam demais, podem causar problemas e quedas monstruosas. Quem se deixa levar apenas por um sorriso de marfim pode se decepcionar com as cáries que ninguém vê. Adianta ser um deus grego por fora e um bandido por dentro? Adianta estar com uma serpente vestida de Cleópatra?

Buscar uma barriguinha sarada e uma pele de pêssego não é proibido, muito pelo contrário, eu também chego a me assustar com tanta vaidade. Isso é saudável quando cuidamos também de nós por dentro, quando corrigimos os valores, retiramos as gordurinhas de caráter e nos aperfeiçoamos como pessoas, porque como apenas rostinhos bonitos não teremos muitas vagas no mundo de hoje. Sim, hoje o que vale é o que se aparenta, o que podemos ver, e dane-se todo o resto, e justamente nesse resto muitas coisas boas vão para o lixo. Quanta superfície, nada de profundo. Mas sim, eu acho que beleza é fundamental, ela pode ser um ótimo meio para se buscar auto-estima, sucesso e alegrias na vida, mas quando ela se torna o fim de tudo, os resultados podem não ser nada bonitos.

 

domingo, 22 de agosto de 2010

Elvis

Dia desses eu fui escalado pra fazer uma matéria sobre o trânsito na cidade e, no caminho, eu avisto uma cena daquelas que, contando, ninguém acredita. Um senhor, aparência cinqüentenária, discutindo ferozmente com um fiscal de trânsito, com uma multidão de curiosos em volta. Não demorou para eu me juntar a esse grupo, afinal a curiosidade fazia parte da minha profissão. O que se via era, de primeira, um motorista multado que não gostou do “presentinho”, afinal, quem gosta? Tudo corria como eu imaginava, até que o senhor chegou perto do pivô da discussão: um Chevette bege. Seria apenas mais uma multa de trânsito, se não fosse um detalhe: o carro era a casa do cidadão. Confesso que ouvi falar de pessoas que moram em lugares, digamos, exóticos, de viadutos a elevadores, agora em um Chevette, essa era nova. E o guarda estava apenas cumprindo o seu dever, mandando guinchar o carro-casa por estar “estacionado” em local proibido. Aquele carro estava ali há semanas e somente naquele dia alguém se incomodou. Com a pressão do povo e cansado daquele papelão ele desistiu da idéia, pra sorte do senhor.

Aquilo era uma ótima pauta, melhor até do que a original. As melhores reportagens surgem de onde se menos espera, e aquele era um exemplo claro. Depois que a poeira baixou, resolvi conversar com o dono do Chevette, pra tentar entender o que diabos eu tinha presenciado e pra saber um pouco mais da história daquele curioso homem. Receptivo, mesmo ainda raivoso com o ocorrido, ele foi me contando tudo. Depois de descobrir seu nome, Miguel, fui perguntando o motivo dele morar naquele carro. Então ele despejou toda a história:

- Ah, rapaz, é uma história complicada. Eu era um cara feliz, sabe, tinha um bom emprego, o amor da minha vida como esposa, tudo em ordem. A gente já pensava até no pimpolho. Tudo ia muito bem, até que um dia a empresa onde eu trabalhava me demitiu, corte de gastos, desculpa esfarrapada! Depois de um tempo, a minha mulher descobriu que não podia ter filhos, aquilo nos arrasou de tal maneira que... Na verdade, só eu fiquei arrasado. Porque... Aquela piranha!

Dando um soco de puro ódio na calçada onde estávamos sentados, Seu Miguel continuou, me assustando:

- Rapaz, por isso eu digo que mulher nenhuma merece o que a gente faz por elas. Acredita que eu dei uma vida de rainha pra ela, tudo mesmo, até o que eu não podia, e, quando eu mais precisei dela, eu descobri que a filha da mãe tava me traindo? E com o vizinho, o desgraçado do Valdir. Ele sempre teve inveja de mim, aquele tampinha cabeçudo, tudo o que era meu ele queria. A mulher ele conseguiu.

Cada vez mais interessado naquela história, eu ainda queria saber como o tal Chevette entra em cena. Mas antes de formular a pergunta, ele prossegue:

- Então a minha vida começou a virar de ponta cabeça, amigo. Depois disso eu descobri que os dois tinham feito sei lá o que pra me tirar a casa. É, eu ali era o novo sem-teto do Brasil. Sem dinheiro, só com algumas roupas e documentos,sem parentes próximos e com pouca grana, eu fui tentar encontrar um lugar, um abrigo, qualquer coisa que não deixasse a chuva me molhar. Foi quando eu olhei pra garagem do infeliz do Valdir e encontrei um lugar legal, o Elvis – apontando pro bendito Chevette bege – e então eu pensei:” já que ele tirou a mulher de mim, eu vou tirar alguma coisa dele também.” Aproveitei que ele saiu com a safada, peguei o pouco que eu tinha, a chave que estava dentro do carro, ele sempre foi distraído, pra não chamar de idiota, e pimba! Fui-me embora de lá. Já faz uns dez anos que eu vivo nesse carango por aqui, bem longe deles.

Pronto, o carro já me foi oficialmente apresentado: Elvis. Dava pra notar pelas fotos do ídolo óbvio dentro do carro. Continuei:

- E o senhor nunca mais teve notícias deles e da sua família?

- Que família? Eu não tenho mais ninguém por mim, não, só o Elvis, que nunca me deixou na mão! Amigos? Depois que perdi tudo, nenhum sobrou, meus parentes moram no interior de Minas, é muito longe, só tenho uma senhora que me ajuda sempre aqui na vizinhança. Ela sempre me dá alimentos, algumas roupas e um dinheirinho. Cuidar de um carro não é barato. O povo aqui já me conhece há tempos, sou famoso. Eu e o Elvis – falou, dando tapinhas no capô do carro como se fossem as costas de um velho amigo. Não deixava de ser.

Ali eu já estava extasiado com o que ele tinha me contado, e cada vez mais eu ficava mais curioso, querendo mais daquela história. Depois de contar outros detalhes, eu ainda não sabia o motivo do escarcéu de antes da conversa, a discussão entre ele e o fiscal. Quando perguntei, ele respondeu com naturalidade:

- Ora essa! Esse homem queria tirar a minha casa só porque eu parei bem rápido pra tomar um banho no laguinho da praça. Vem cá, rapaz, é proibido ser limpo nessa cidade? Eu não ia fazer nada demais, só tomar banho. É crime? Tanta gente que rouba e mata por aí e esses policiais queriam me tirar o Elvis por uma besteira, coitado, ele nem tinha culpa, e eu ia ser, de novo, o novo sem-teto do Brasil. Pode?

Saí daquela conversa com mais do que uma matéria muito boa no papel. Saí dali com muitas coisas na cabeça, pensando na vida, naquele senhor, Seu Miguel, que é mais do que um motorista de um Chevette bege. O carro era mais do que um carro, era a vida dele, a última coisa que lhe restou. Hoje, meses depois desse encontro, soube que o Seu Miguel continua firme e forte, no seu lar, doce lar.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Eleição e circo

Sim, começou tudo de novo. Essa semana começou a veiculação do horário político obrigatório em rádio e TV, o que na teoria seria fundamental pra nós, pobres eleitores, decidirmos em quem votar no dia 3 de outubro. Na teoria. Porque nós todos sabemos que o horário eleitoral nada mais é do que um ringue, onde candidatos fazem de tudo pra se derrubar, enquanto a proposta inicial, que deveria ser a exposição de ideias concretas para melhorar as condições de vida no nosso país, fica de lado, esperando uma trégua na batalha. Às vezes essas campanhas beiram o pastelão gratuito, com candidatos que mal sabem ler o nome, mas mesmo assim resolvem disputar a nossa confiança. Realmente, cada vez mais temos menos pessoas em quem confiar.

É realmente absurdo saber que todos os dias, durante cem longos minutos, você é obrigado a acompanhar tamanho circo, com palhaços de terno e gravata, falando coisas que estão cada vez mais afastadas, nitidamente, de suas personalidades, somente pra conseguir o nosso voto. Alguns esbarram em uma artificialidade irritante, tamanha, que tem vezes em que pensamos que os robôs já existem. E não há marqueteiro nesse mundo capaz de empurrar goela abaixo pessoas sem carisma, e isso hoje é indispensável (tendo em vista que o próximo presidente será antecedido pelo “Líder do século xx” – e não sou eu que digo isso). Mas há sim cara de pau que consiga se (re)eleger, algumas inclusive são históricas.

Por exemplo, todos nós conhecemos um certo ex-presidente, esse mesmo, o galã, que foi limado do Planalto há uns 18 anos atrás. Esse mesmo rapaz conseguiu voltar à Brasília, pela porta da frente, como senador. Senador. Quer dizer que o mesmo povo que mostrou consciência pra tirá-lo, conseguiu jogar tudo pelo ralo ao colocá-lo de volta. Isso em âmbito nacional, sem falar nos figurões espalhados em seus currais eleitorais por aí, por aqui, que sempre arrumam um jeitinho de voltar ao cenário político local, façam o que façam. E é curioso ver como eles se transformam durante os programas na TV, eles viram anjos hipnotizadores, flautistas mágicos, que continuam cativando seus ratinhos. Agora, quem são os ratos?

Bom, já que ele não é muito construtivo, o horário eleitoral pode ser muito divertido. É hilário ver candidatos, ou melhor, projetos de candidatos, fazendo mil e uma estripulias para conseguir se eleger, e as opções são inúmeras, desde roupas espalhafatosas e cabelos estranhos a dancinhas e musiquinhas, ah, os jingles. Os famosos, cheios de rimas fáceis de gravar, pra facilitar na hora do cara-a-cara com a urna. Irritam, é verdade, mas grudam, pra nosso azar, e funcionam.

Resumindo, o horário político virou uma pataquada, que depois só é lembrado no Youtube por vídeos mostrando o quão circenses podem ser alguns elegíveis, ou de polêmicas entre os candidatos, que um dia acabam virando piada. Afinal, é isso que eu, às vezes, acho sobre os processos eleitorais, uma verdadeira piada, feita por quem não deveria, com quem não merecia, ou seja, nós. Proibiram os humoristas de fazer aquilo que os políticos continuam fazendo, que ironia. Será que é necessário mesmo esse espaço dado aos políticos na TV, com tantas outras mídias por aí, que inclusive são mais eficazes? Esse horário funciona? Funcionaria, se servisse pra exposição de idéias pro bem-estar do povo, ora, não é por isso que sempre esperamos?


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Planos errados - Parte II



O plano era conseguir muito dinheiro e depois matar aquele filho da mãe, e tinha que ser eu, era tarefa minha, a vingança era minha, e até ontem a Julia ainda estava do meu lado. Estava. Quando cheguei ao cativeiro, eu vi ela e o infeliz conversando, e eu fui escutar atrás da porta. Meu Deus, eles estavam tramando me matar e fugir juntos, da maneira mais fria, que canalhas! Ela não podia, não podia. Mas eles ainda se beijaram, e aí eu não suportei mais. Possuído de raiva, eu entrei naquele quarto, porque queria ouvir da boca dela tudo aquilo. A cachorra confessou tudo, que já tinha um caso com ele há um tempo, e que eles sim estavam planejando me trair. Como eu pude confiar tanto, como ela pode me enganar assim? Eu tinha apenas um pingo de coração dentro de mim, e era da Julia. Então, na hora eu apontei a arma pra cabeça daquele cara e atirei, com toda a minha ira, eu tinha que ter acabado com aquilo antes. Mas ela...


Ela se desesperou, e aquilo, aquele choro, foi me tirando ainda mais do sério, era por mim que ela deveria chorar daquele jeito, droga! Foi quando ela levantou e apontou a arma dela pra mim. Que ironia, ela queria me matar, logo ela, a pessoa em que eu mais confiava na vida... ali, comigo na mira, pronta pra meter uma bala no meu peito. Não tinha mais nada pra atingir lá. Então... eu matei. Eu matei a Julia. Talvez por legítima defesa, não tinha o que fazer, antes ela do que eu. Matei. Não tinha mais nada a perder. Hoje eu não me arrependo, acho que fiz a coisa certa, eles mereceram, os dois. O desgraçado me tirou todos que eu amei, morreu tarde. Já a Julia, me traiu, e pagou por isso.

Agora a polícia me achou, acho que em poucos minutos eles chegam por aqui. Não sei quem me denunciou, mas nem importa mais, agora não tenho pra onde fugir. Quem diria, depois de quase ficar milionário, hoje eu termino aqui, em um barraco no meio de um monte de mato, esperando pra ser enjaulado. Não, eu não cresci pra morrer feito um tigre em um zoológico, eu não posso e não vou virar presidiário. Por isso eu escrevo essas palavras, porque são as últimas. As últimas de uma vida que não deu certo, as últimas de um completo fracasso. Só espero que essa última bala não me leve pra perto da Julia, depois de tudo o que aconteceu. Espero que me leve pra perto dos meus pais. Que saudades, mãe! Pai, tô chegando!


domingo, 15 de agosto de 2010

Antes só

Solteiro, você que nunca liga no dia seguinte pra “não começar compromisso”, e que sai com mais de 4 por semana, comemore! Sim, hoje é o seu dia, que por sinal é meu também. Tudo bem, eu sei que ter alguém pra esquentar o travesseiro, que ligue todos os dias pra saber se estamos vivos e sempre ter com quem passar uma noite chuvosa em casa, assistindo filminho, tudo isso é muito bom, claro, as pessoas precisam sim umas das outras e isso é fato. Agora, convenhamos que a solteirice tem lá suas – muitas – vantagens. Ligar todo dia, tudo bem, agora ligar o dia todo é insuportável.

Vamos lá, tentar listar o que o solteiro pode fazer, enquanto o algemado não. Primeiro, um solteiro tem total liberdade sobre os seus atos, sobre com quem fala, o que come e pra onde vai ou deixa de ir, e isso pode evitar grandes problemas. Tenta se casar e depois chegar lá pelas duas – eu disse DUAS – da manhã sem ter avisado antes? Por mais que as chances sejam mesmo remotas, ela nunca vai acreditar que você foi tomar apensa um chopinho com a galera do escritório. Segundo, o solteiro nunca vai sentir a cabeça pesada. Então, meu caro, se você não tem ninguém pra te deixar acordado esperando chegar da balada com as amigas, durma tranqüilo. Terceiro, esqueça Dia dos Namorados, Páscoa, aniversários da sogra e qualquer outro evento que te obrigue a gastar muita grana. É, qualquer compromisso exige um preparo financeiro forte. Psicológico idem.

Nada de aturar crises de TPM, muito menos as temidas DR’s, nada disso. Somos livres e desimpedidos, podemos fazer o que quisermos, sair e pegar geral... Podemos? A condição de solteiros não nos dá o direito de fazer tudo o que der na nossa telha, a não ser que a outra pessoa tope. Não é porque nós podemos ficar com 25 em uma noite que iremos ficar com 25, basta que todas elas deixem, nada de forçar nem de submeter ninguém a fazer algo que não tenha vontade, solteirice não quer dizer falta de responsabilidade. Aliás, é justamente por isso que muitos por aí nunca deixam de ser solteiros, acabam se enrolando com várias ao mesmo tempo e acabam sozinhos. Mas sozinhos mesmo. Esse é o preço por não assumir um compromisso.

Compromisso, só de ouvir dói em muitos ouvidos, muitos encaram como um atestado de óbito. Não é bem assim, é claro que a vida a dois é bastante diferente, mas pode ser proveitosa sim. Mas como o dia hoje é dos solteiros, o bom mesmo é estar solteiro, sem amarras, sem benditos compromissos, livre pra voar – e ciscar – por aí. E, que sugestivo, justamente num fim de semana, perfeito pra se comemorar a liberdade, e sempre acabamos encontrando quem queira comemorar com a gente. Sim, o dia dos solteiros não foi feito pra se passar sozinho, senão uma frase, o lema de nove entre dez solteiros não faria sentido nenhum: solteiro sim, sozinho nunca!

sábado, 14 de agosto de 2010

Planos errados - Parte I



Matei. Não tive outra escolha. Mas juro, eu não queria, ela era, sempre foi, o amor da minha vida, minha parceira, em tudo. Nós dois crescemos juntos, e eu sempre fui meio gamado nela, era a menina mais bonita da rua, uma princesinha, tão linda... Foi assim que tudo começou. Então fomos ficando mais próximos, mais amigos, e acabamos começando a namorar, e a confiança foi se tornando maior e maior, não podia mais esconder nada dela, e resolvi contar tudo, tudo mesmo. Até o maior objetivo da minha vida.

Minha mãe sempre foi dona de casa, e meu pai trabalhava em uma fábrica de calçados, ganhava o suficiente pra manter a casa, éramos uma família normal, até que um dia um desgraçado apareceu e acabou com tudo. Caramba, era meu aniversário, festão na rua, todo mundo, e aquele filho da mãe avançou com o carro em cima do meu pai. Ele não teve chance. Eu vi o meu pai, um cara trabalhador, honesto, correto, morrer na minha frente... e o motorista nem se preocupou. Claro que não, com aquele carrão importado, ele não tinha nem porque se importar com um bando de pobres. Esse moleque não passou nem uma noite na cadeia, foi liberado, enquanto a minha família desabava. Minha mãe, coitada, teve que arranjar dois empregos, e morreu, cansada de esperar, pela pensão do INSS, e por justiça. Por isso eu sempre busquei essa justiça, nem que fosse com minhas próprias mãos.

A minha vida inteira eu dediquei em me vingar daqueles que mataram o meu pai. O assassino e a família toda, que era a dona da fábrica onde meu pai trabalhava, por ironia desse destino, então era mais fácil pra mim. E a Julia sempre esteve comigo, me ajudando em tudo o que eu fiz, mas não apenas por mim, ela tinha seu motivo: no mesmo acidente, a mãe dela ficou tetraplégica. A raiva dela, somada à minha, era tudo o que nós precisávamos. Então eu planejei tudo, o seqüestro foi arquitetado nos mínimos detalhes, desde a abordagem até o resgate, essa era a melhor maneira de pagar o mal que eles fizeram. E a Julia sempre do meu lado. Quando conseguimos, ah, como foi fácil prender aquele babaca, a emboscada foi perfeita, ficamos com ele por semanas, estava conseguindo a grana, a imprensa toda no caso, vários policiais, e nós dois sempre dando traço nos caras. Mas, um dia eu descobri tudo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

E agora?

Ter certeza de algo, estar absolutamente convicto de que tudo vai acontecer como você imagina é, sim, algo positivo, obviamente todos nós preferimos saber onde pisamos. Mas nem de longe isso é uma tarefa simples, e para chegarmos à certeza, sempre, sempre temos que passar por ela, a parada obrigatória para todos os nossos objetivos, todas as nossas idéias, todos os nossos planos. A dúvida. Inevitável e necessária, ela praticamente nos obriga a pensar mais, prendendo nossos pés no chão, e pra quem acha que ela só aparece quando não estamos seguros, então ela aparece em todos os momentos, já que nunca estamos totalmente certos de fazer tal coisa e isso não significa insegurança. Eu diria que parece mais precaução.

Todo e qualquer momento de indecisão, por mais simples que pareça, faz grande diferença. Quando uma mulher resolve passar horas pra escolher a melhor roupa, por exemplo, é chato – eufemismo barato – mas pode render bons frutos, vai que aquele último vestido do armário se torna uma lembrança de início de namoro? E que tênis comprar? Um shopping definitivamente não é um lugar muito apropriado para quem odeia não saber o que fazer, cada vitrine é mais bonita do que a outra, é um entra e sai nas mesmas lojas, as opções se cruzando, e algumas vezes acabamos saindo sem levar nada. Há também as mais sérias, que são capazes de mudar destinos, mudar futuros. Ficar ou namorar? Faço o que eu gosto ou o que meus pais querem? Estudar fora ou ficar com a família? Sim ou não?

Os jovens são craques no quesito Interrogação, e eles estão certos, a fase é mesmo a de efervescer as idéias, de receber novas informações, de viver novas experiências, e demora um certo tempo até que eles saibam que caminho seguir, o que de tudo isso eles irão aproveitar dali pra frente, é o chamado amadurecimento, que sem a dúvida não existe. E não é porque crescemos que deixamos de sentir incertezas, inseguranças, elas apenas ganham outras dimensões. Investir na bolsa ou comprar um carro? Ter ou não ter filhos? Se temos, conversar ou simplesmente proibir? O que fazer? E quando recebemos alguma proposta de emprego, daquelas irrecusáveis, e acabamos recusando pela família ou pela distância, tomamos uma decisão importante, mas que faria qualquer um pensar duas, três, mil vezes antes.

Elas podem até determinar o futuro da humanidade. Reduzir as emissões de gases poluentes ou continuar crescendo? Será que existe jeito de crescer sem poluir? Independência ou morte? Ser ou não ser? Não importa, elas nunca vão deixar de aparecer, e se deixarem, nada mais dará certo, pois nós só podemos chegar a algum lugar se, ao menos dentro de nós, existiu uma bifurcação, uma alternativa, que valorizou bastante a nossa escolha. Se ela é certa ou errada, não cabe mais a mim julgar, cabe apenas a quem a fez. A única certeza que trago nesse texto é a de que toda exclamação um dia será, inevitavelmente, uma interrogação.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Rir de quem?

Segundo as últimas alterações na nossa Lei Eleitoral, os programas humorísticos estão proibidos, sim, PROIBIDOS de fazer qualquer tipo de encenações, sátiras e até mesmo caricaturas referentes a políticos durante o período das eleições na tv. Resumindo, a Justiça tenta, mais uma vez, cercear a liberdade de expressão de veículos populares e cada vez mais formadores de opinião, justamente em um momento onde o grande mote é a democracia. Irônico, já que qualquer ato de censura como este nada tem a ver com os ideais defendidos pela Carta Magna desse país. Uma lei que encobre outras. Ou melhor, tenta.

Estamos vivendo aquelas que já entram pra história como uma as mais chatas eleições dos últimos tempos, pela falta de carisma de todos os candidatos, pela falta de idéias e propostas realmente convincentes e por falta de novidade. Falta tudo nesse processo, inclusive ética e uma boa dose de cara de pau. A cara de pau que foi simplesmente bloqueada, a partir do momento em que quem faz humor não pode mais fazer as pessoas rirem com o que, inevitavelmente, acaba sendo engraçado, por mais que seja na base do “rir pra não chorar”. Como se todas as impressões formadas por cada eleitor fossem destruídas se o seu candidato aparecer em uma sátira do Pânico. Essa lei, além de censurar, põe em xeque a inteligência e a capacidade de cada eleitor de discernir uma brincadeira de algo tão sério como o seu próprio futuro.

Porém, parece que muitos excelentíssimos candidatos fazem questão de não levar as eleições a sério. Será mesmo que a ameaça a um processo eleitoral sem grandes problemas vem mesmo dos programas humorísticos? E o que dizer daqueles candidatos, com os nomes mais absurdos e estratégias de campanha dignamente circenses, que mal sabem ler e, mesmo assim, resolvem disputar a confiança do povo? Esses sim não tem vergonha nenhuma de transformar o horário eleitoral em um verdadeiro picadeiro, onde não sabemos quem são os verdadeiros palhaços. Na boa, atos como esses apenas reforçam a hipocrisia que teima em existir na nossa política, e que dificilmente será extinta.

Além de hipócritas, burros o suficiente para não abrir suas mentes para entender que a televisão deixou há tempos de ser a única ferramenta dissipadora de idéias e opiniões. Tantas redes sociais espalhadas por todos os cantos, em todas as casas, nunca livrarão nenhum político de serem alvo de juízos de quem quer que seja. Muito pelo contrário, são elas que manterão o direito universal da liberdade de expressão, com piadas, anedotas ou simples frases que expressem o que cada eleitor pensa sobre esse ou aquele candidato. Por mais que tentem, não há nenhuma lei capaz de fechar nossas cabeças, nossos olhos nem nossos sorrisos, continuaremos a falar e a pensar, isso ninguém vai conseguir nos tirar. E já que proibiram os humoristas de fazer humor, uma verdadeira palhaçada com os eleitores, fica difícil mesmo saber de quem devemos rir.


domingo, 8 de agosto de 2010

Gerações


Era uma vez um rapaz, trinta e poucos anos, que estava prestes a viver a maior emoção da sua vida. Sua noiva estava entrando em trabalho de parto, e, mesmo mais nervoso do que ela, ele foi acompanhar de perto a chegada daquele bebê de sexo desconhecido, a mãe preferiu a surpresa. Enfim, toda a família estava do lado de fora, esperando o primeiro da nova geração, a ansiedade era enorme, ainda mais para aquele futuro pai. Pai. Em poucos instantes, se tudo desse certo, aquele jovem que ainda guardava lembranças de seu último dia na faculdade, seria um pai, e por mais que nove meses tenham se passado até aquele momento, a insegurança foi inevitável, o frio na barriga, a responsabilidade começou a pesar. Foi então que ele resolveu se inspirar em um homem, a quem ele deve tudo.

Lembrou de quando era apenas filho, apenas uma criança, que brincava como todas as outras, feliz, vivendo a melhor fase da vida, quando ainda não pensava em vestibular ou nas contas do mês. Lembrou de vários momentos felizes que viveu ao lado do seu pai, que fazia questão de ser o mais presente possível, pra não deixar passar nenhuma etapa da sua vida. Uma vez, o menino, jogou um campeonato de futsal no colégio e chegou à final. Antes do jogo, ele nervoso, como um garoto de nove anos que nunca sentiu o mundo pesar tanto, ele olhou para aquele homem, que na mesma hora pegou em sua cabeça e, sereno, disse: “Filho, você já é um vencedor”. Ele perdeu o título, mas ao abraçar seu pai, ele se deu conta de que aquele conselho era mesmo verdadeiro. Perder faz parte, e isso ele levou pra toda a sua vida.

Lembrou também de quando dirigiu pela primeira vez. Ao seu lado, o seu pai, atencioso, dedicado em ensinar ao seu filho mais do que como guiar um carro. Ele estava dando uma lição de responsabilidade, de humanidade, mostrando que um erro no trânsito poderia ser trágico pra muita gente. Justiça. Foi com ele que o rapaz aprendeu a ser honesto, a nunca passar por cima de ninguém, a ter caráter. E quando entrou para a faculdade, ele se recorda da mão daquele homem, que lhe abençoou e, apertando bem forte, lhe disse que, a partir daquele momento ele daria seus próprios passos, mas que sempre teria alguém lhe vigiando, pronto pra lhe estender a mão sempre que precisasse. Naquele momento, naquela sala de cirurgia, como esse rapaz estava precisando daquela mão amiga pra se apoiar.

De repente, era a sua vez. Quando chegou aquela criança, sumiram todos os medos e uma alegria sem tamanho tomou conta daquele novo pai, pai de um menino, saudável, perfeito, cheio de vida. A partir dali aquele novo pai tinha um compromisso com a vida de outra pessoa, de seu filho, que era neto do maior homem que ele já conheceu, com quem aprendeu todos os bons valores possíveis que podem existir. E ele estava pronto pra repassar todas essas qualidades àquele bebê, que com toda a certeza seria amado e querido, até mais do que seu pai foi, pois ele aprendeu direitinho as lições que recebeu. Amizade, respeito ao próximo, companheirismo, humildade e, principalmente, amor gratuito, puro e simples. Era isso que aquela criança iria ganhar a partir daquele dia.

O novo pai, ao sair da sala de cirurgia, foi recebido com muita festa por todos os parentes e amigos que estavam o esperando, ganhou beijos e muitos abraços. Mas um em especial era o que ele realmente queria receber. Não podia. O seu pai tinha falecido dois meses antes, não esperou pra presenciar a dádiva de ser avô. Então, chorando de alegria e de tristeza, o jovem sentiu uma mão apertando a sua, bem forte, como naquele primeiro dia de faculdade, aquele era realmente um primeiro dia. Nessa hora, ele lembrou das palavras de seu pai ao apertar sua mão: “Agora é com você, meu filho. É a sua vez, vai com Deus. E, qualquer pedra que apareça no seu caminho, nunca passe por cima delas. Sempre as tire do caminho, com respeito, e siga. Assim você vai ser sempre um homem honrado. Tenho orgulho de você, e vou ter até o fim”. E foi a partir dessas palavras que aquele pai de primeira viagem se sentiu seguro naquele início de jornada, a mais bela que um homem pode viver, a paternidade, sem nunca se esquecer do seu espelho, do seu maior exemplo, daquela mão que sempre estará estendida, pra lhe segurar, aonde quer que esteja. Sem nunca se esquecer do seu PAI.




sábado, 7 de agosto de 2010

Zzzz...



Não foi à toa que, dos sete, este foi o último dos textos, que eu fui empurrando com a barriga, até que eu conseguisse escapar dessa maldita, mas muito gostosa preguiça que não me largava, e nunca anda longe de mim. Se eu sou pecador, grande parte se deve a esse pecadinho tão singelo, tão despretensioso, e que mesmo assim é bastante criticado. Qual é? Se ninguém parasse um minuto pra tirar um cochilo, esse planeta seria um caos, com zumbis espalhados por toda parte, assombrando as criancinhas. Por isso eu sou defensor da preguiça como virtude, não é qualquer um que exerce essa função com tanta maestria.

Olha só, se nós pudéssemos escolher entre passar um dia de inverno em uma cama fofinha e soterrado de cobertores, com café na cama e filminho com pipoca, ou sair pra trabalhar, enfrentando uma cidade chuvosa e nada convidativa, eu conto na mão direita quantos escolheriam sair de casa. Quando chove, é inevitável, nossas camas nos acorrentam, e nem todos fazem força pra se libertarem dela, ô coisa boa! Há outros dias em que nada, mas nada mesmo te convence a viver, e vamos combinar que um cochilinho de nada ou uns cinco minutinhos a mais de sono são completamente inofensivos. Ao menos que esses cinco minutinhos virem mais cinco... e mais cinco...

Quando escrevi sobre a preguiça há um tempo atrás eu disse uma coisa, e hoje eu reafirmo: ser preguiçosinho, tudo bem, é aceitável – por mim, principalmente. A questão é: há limites entre o prazer e a apatia, entre um cochilo e uma parada gigante no tempo. Deixar de crescer por não ter ânimo e disposição, principalmente quando se tem todas as oportunidades ao alcance das mãos é inaceitável, a preguiça não deve nunca se transformar em acomodação, pois daí pra frente a evolução para, as pessoas viram massa, não se posicionam, não agem, e muitas situações se mantém eternamente. Ou pelo menos até que alguém resolva acordar (alfinetada política?!).

Agora, amigos e amigas que estão agora sem nada pra fazer, não chorem ou se desesperem, achando que são feito pedras de tão inúteis, e se realmente forem, poxa vida, o quê importa? A vantagem dos preguiçosos é que eles dificilmente fazem mal a alguém. Na verdade, eles não fazem absolutamente nada por ninguém, muito menos por eles mesmos, apenas cochilam. Se o bonde da vida for passando, quem sabe um dia eles correm atrás... quando resolverem viver um pouquinho.


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Fogo!



Se temos desejos incontroláveis, se sentimos prazer e se a carne é fraca, a culpa é da luxúria, o pecado mais vermelho. A luxúria nos faz pensar em coisas extraordinárias, em loucuras que nos levem a atiçar o os instintos mais primitivos que normalmente ficam guardados, afinal de contas ninguém aqui é um tarado ninfomaníaco o dia inteiro. Se for, procure um médico. E como é muito bom sentir prazer, seja como for, com quem for e de onde vier, o nosso bem-estar é um dos direitos mais sagrados que temos e deve ser respeitado, e em muitos casos o jeito é pecar, pecar e pecar. Culpa? Deixa pra depois, nossas mentes estão muito ocupadas para isso.

Estão ocupadas pensando em outras coisas bem mais interessantes, com certeza. Interessantes no mínimo, pois as nossas mentes, quando cheias de pecado, nos fazem viajar nos mais libidinosos pensamentos, sem um pingo de inocência ou pudor. É o pecado da carne, o pecado da perdição, onde somos livres para pensar, falar e fazer as mais proibidas coisas, quando o anjinho hiberna, dando espaço para o diabinho fazer a festa. E nós também. A sensualidade das pessoas mais castas aflora, os desejos mais reprimidos aparecem naqueles que de manhã poderiam tranquilamente ser postos em um pedestal com auréolas e asinhas brancas, mas que se transformam de um jeito impressionante. Anjos de tridente, que se revelam e nos revelam um lado, digamos, mais picante de ser.

Pimenta. Quente como o fogo que invade sem pedir licença, e quando percebemos já nos consumiu, sem chance pra fugir. Como se quiséssemos. Do prazer ninguém quer ir embora, muito pelo contrário, queremos sempre mais e mais e mais, nesse caso nunca é suficiente. A vontade de estar com alguém, de sentir o corpo, de beijar a boca, de abraçar, isso sempre faz bem, pra pele, pro coração, pra alma. Sim, um pecado que faz muito feliz os seus pecadores. Talvez seja por isso que o mundo hoje esteja cada vez mais provocante.

A imagem do sexo está presente em quase todas as coisas, o duplo sentido, as provocações, as propagandas com apelo erótico, tudo hoje, de alguma maneira, converge ao sexo. Ora, moramos no Brasil, o país reconhecido mundialmente como o país das mulheres gostosas, ninguém conhece as nossas musas por diminutivos, tudo é um uníssono “ão”, que inevitavelmente nos põe em um nível de pecado altíssimo, beirando a excomunhão. E quem se importa? Somos mesmo carnais, atraentes e bastante fogosos. Ou seja, brasileiros. Então, tomando as devidas precauções, podemos aproveitar cada momento de prazer, seja em pensamento ou não, pois a vida pode sim ser bem mais quente, sem deixar nosso fogo apagar.



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sangue quente



Ela que corrói, envenena, mas faz parte da vida. Ela que tira qualquer monge do sério, e nos faz cometer loucuras. Ela, capaz de nos fazer romper todos os limites da lei, da sanidade e de comportamento. Mas nem por isso, e talvez até por isso, a ira é um dos pecados mais humanos, que reflete muito da nossa personalidade, e que se faz necessária para que qualquer povo se desenvolva. E, na boa, imaginar um mundo repleto de gente boazinha o tempo todo seria um purgante, é óbvio que precisamos extravasar nossa raiva quando acharmos conveniente, nas nossas veias corre sangue, vermelho, cor da fúria. Mesmo os mais controlados um dia sucumbem e gritam, batem, falam palavrões, quebrando tudo. Enquanto formos feitos de carne, osso e sangue, pecaremos pela raiva, pelo ódio, pela ira.

Nós, seres humanos, somos verdadeiras panelas de pressão ambulantes, prontas pra explodir a qualquer momento, pois o dia-a-dia estressa, o trânsito monstro na hora do almoço, aquela professora mala que pega no nosso pé, o chefe mandão que te enche de trabalho, aquele seu vizinho te zoando pela derrota do seu time, seus pais te fazendo cobranças, as contas do mês, tudo isso vai ficando ali, guardado, e a pressão aumentando, aumentando, aumentando. Até que chega aquele momento onde não cabe mais tanto problema, tanta pressão, e naturalmente a gente acaba mandando tudo pro espaço, sem pedir licença, soltando os cachorros pra todos os lados, virando verdadeiras feras. E ai de quem ouse tentar segurar!

Há também aqueles motivos que vão além das rotinas, que nos irritam de surpresa, os famosos imprevistos desagradáveis, como a chegada da sogra ou daquele tio pentelho, que senta na sua poltrona, bebe a sua cerveja e controla a sua TV. E quando batem no seu carro e você está atrasado pra uma reunião importantíssima, ou quando na mesma situação alguém derruba café no seu Armani mais caro? Isso é de doer mesmo. Mas eu acredito que poucas coisas irritam tanto quanto uma palavrinha, muito conhecida e mais ainda evitada: telemarketing. Só de ouvir o sangue já esquenta. Quem já foi vítima desse pesadelo por telefone sabe o quanto isso irrita, tira inclusive o bom humor de muita gente, ainda mais quando precisamos resolver um problema por telefone. Quando começa a tocar aquela musiquinha de espera... Telefones já se espatifaram por causa delas.

De qualquer forma, a ira é um fenômeno normal por ser humano, mas que pode levar a atos que põem em xeque essa nossa condição. A agressividade que pode começar verbal, quando chega ao físico se torna muito,mas muito perigosa. Sair no tapa, na mão, isso pode até ser aceitável, guardadas as devidas proporções, é claro. Agora, quando o sangue ferve demais, as nossas atitudes podem fugir completamente do controle, e as conseqüências não serão nada boas. Fazemos coisas erradas, injustiças, até crimes, se estamos contaminados por tanta cólera, e muitos estilhaços podem atingir quem não merece, podemos ferir quem não nos feriu, e isso dói bastante. Em nós e em quem machucamos. Então, se quisermos chutar o balde, podemos, desde que não tenha ninguém na nossa frente (que não seja o Dunga).


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Topetes



Achar que não precisa de nada nem ninguém pra ser feliz, desprezar qualquer ajuda, botar seu orgulho na frente de tudo, ter um carro vermelho e não usar espelho pra se pentear. Sinais típicos de soberba, exercícios de arrogância e falta de humildade que, acreditem, não faz parte apenas do mundo dos ricos e famosos, mesmo sendo ligados a eles. O soberbo não consegue reconhecer nada que possa ter lhe ajudado vindo de qualquer outra pessoa, por ser auto-suficiente, supremo demais pra perceber uma coisa que todos sabem: ninguém pode ser auto-suficiente nesse mundo. Será que somente eles ainda não perceberam que não dá pra viver sozinho?

Ah, a imagem, sempre a imagem prevalecendo, claro, ela hoje vale mais do que mil palavras, vale mais até do que mil reais. E ostentar é um verbo dos mais falados nesses tempos. Donos de uma pose sem proporções, muita gente rica por aí acha que pode mais do que qualquer outro por ter apenas mais dinheiro na conta ou mais camisas de marca no closet. Ao menos essas pessoas tem o que mostrar, levando vantagem sobre aquelas que mostram aquilo que não tem, e isso é bastante comum. Nas rodas de amigos importantes, de gente que interessa, você tem que se adaptar, mesmo que para isso você precise mudar sua identidade, e isso pode ser muito custoso, a ponto de famílias simples se enforcarem e jovens entrarem para o crime por terem o luxo de usar um tênis de marca e ser incluído na galera. Vale a pena?

E quando eu disse que a soberba não é exclusiva das classes altas, eu quis dizer que o orgulho não escolher classe, nem é necessariamente menos evidente em pessoas mais ou menos ricas. Pessoas que de humildes só tem a origem se recusam a admitir que precisam de ajuda, seja financeira ou material, e preferem outros meios de conseguir o que precisa sozinha, como se isso existisse. Ninguém consegue nada sem o próximo, todo esforço é coletivo, mesmo que satisfaça apenas uma pessoa. E os soberbos continuam sem entender.

Narcisistas, egocêntricos e extremamente frescos, muitos se amam mais que a qualquer outra pessoa, se adoram, se arrumam pra si mesmos, e vivem como se tudo girasse em torno deles. Nascido pra brilhar, esse tipo de pessoa se exibe, se mostra, faz boa propaganda, se diz único. Até aí tudo bem, somos mesmo diferentes um do outro, o problema é que essa suposta exclusividade pode se tornar maléfica, quando se olha alto demais e acaba-se pisando em muita gente. Porém muitos nem tem inteligência suficiente pra isso.

A presunção pode ser um ato divino, também, que ironia! Quando ouvimos em uma missa Jesus dizendo que é o caminho, a verdade e a vida, aí também não rola uma pitada de soberba? Enfim, antes de qualquer discussão religiosa, o fato é que a soberba é um dos pecados mais sem fundamentos que existe, pois existe sobre um argumento tão furado. E além disso, é um pecado genuinamente infernal, pois Lúcifer tentou Jesus ostentando riquezas e uma vida boa. Cuidado, soberbos! Quem busca adoração ainda acaba num tremendo ostracismo, e esse sim é um baita castigo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Materiais



Avareza, o desejo excessivo por riquezas, bens materiais, que leva à mesquinharia, à “mão fechada”. Um dos pecados mais chatos e, infelizmente, mais comuns de uns tempos pra cá, desde que passamos a viver em um lugar onde ir às compras é programa freqüente como nunca, e onde as pessoas pouco se importam com quem passa fome na África ou com quem sofre com o frio nas ruas, e sim com os sapatos de três dígitos que irão comprar ou com aquela garrafa de Möet Chandon. O apego súbito e fiel àquilo que cabe nas mãos ou no bolso alcança níveis absurdos, a ponto de nos perguntarmos: o que vale mais? Um amigo ou uma Ferrari? Sua família ou sua cobertura na praia? Sinceramente, nem todos responderiam as primeiras opções.

Desde que o mundo é mundo os avarentos estão espalhados por aí, sempre querendo mais e mais, contanto que gastassem menos e menos, e isso é inerente à raça humana, todos nós somos individualistas, por mais que queiramos negar, e justamente por sermos egoístas por natureza, nós buscamos meios de ter sem perder, o maior lucro com o menor gasto, por mais que muitas vezes esses meios não sejam lá os mais lícitos. Agora, vamos combinar que não há quem nunca tenha acenado com a mão fechada, ao menos uma vez na vida. Pensando sempre no que virá, algumas vezes acabamos esquecendo do que está acontecendo, abrindo mão do presente pra focar no futuro. Muitos velhinhos, que economizaram a vida inteira, nem tiveram a chance de usufruir dos louros do seu trabalho. Sinceramente, do que adianta guardar tanto e não viver? Virar reféns do que conquistamos, pelo medo de perder, que nunca nos deixará ganhar.

O pecado da avareza também é responsável pelo mal do século: o materialismo. Chega a ser espantoso o modo como muita gente se torna escrava daquilo que possuem de matéria, de tal forma que acabam deixando de lado suas vidas sociais, sentimentais e até profissionais. Como será que vive uma menina que não larga seu celular de dois mil reais, mas não namora há anos? Pra qualquer um de nós, seria uma tortura, enquanto para ela isso pode ser algo normal, que não lhe cause nenhuma estranheza. Estranhos. Quem idolatra um carro novo ao invés de procurar um amor, quem não sai de casa por achar que não pode sujar as solas de seus lindos e novos tênis. Estranhos, os que admiram o que tem, sem ao menos saber o que são.

Pecamos, sim, todos nós somos avarentos, o que nos difere é apenas a medida com que isso se manifesta em nós. Buscamos sempre mais, deixamos certas coisas de lado para alcançar outras mais lucrativas, em todos os sentidos. Porém, quando não há a generosidade, o único antídoto contra esse mal, não há como fazer dos bens materiais e das riquezas uma ponte para a felicidade, já que para os Patinhas da vida, esses bens e essas riquezas são a felicidade. Não conseguem admirar a beleza, a cultura, os sentimentos, pois até hoje eles não podem ser convertidas em dinheiro. Azar o deles, que continuam fechando não apenas a mão, mas os olhos para o que tem de bom por aqui, e fechando a cabeça, sem entender que nem sempre as coisas boas são feitas de matéria.


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A grama do vizinho




Desse ninguém se livra, mas ninguém mesmo. Tão presente quanto o original, o pecado da inveja está na essência das pessoas, e não há batismo que o tire de nós, nascemos, crescemos e morremos invejosos, por mais que não revelemos. É fato, muita gente pode até tentar disfarçar, até mesmo negar, porém não podem fugir da inveja, mesmo sem querer ela vem, das maneiras mais inesperadas e casuais, como ao encontrar um carro novo na rua e olhar pro seu com uma cara de “nossa, meu carro é um lixo”, ou mesmo ao passar por um casal apaixonado e se perguntar por que você está só. De algum jeito, o que o outro tem é mais interessante daquilo que é seu, tanto faz se é uma casa maior ou sucesso profissional.

O bom desse pecado é que ele tem dois lados opostos. A inveja branca, saudável, é completamente aceitável, pode sentir sem culpa. Ela ajuda você a crescer, a buscar sempre o melhor, a se reinventar, em qualquer momento da sua vida. Ela faz bem. Se o seu melhor amigo conseguir passar no vestibular, comemore com ele, e prepare a sua festa pro ano seguinte; se a sua vizinha foi promovida, estude, se prepare, siga o mesmo caminho pra ser também. Nesse caso, pecar é necessário, é sadio. Nada sadio mesmo é o outro lado, o lado negro.

Essa inveja pode fazer estragos enormes, pode destruir carreiras, famílias e muitas vidas. Quando deixamos de nos preocupar com o que temos, ignorando aquilo que somos, para buscarmos aquilo que os outros tem, sempre acabamos criando grandes problemas. Essa ambição desenfreada por conseguir o que o próximo conseguiu pode nascer no seio familiar, onde comparações são constantes. Será que você nunca ouviu da sua mãe que o filho da fulana é tão comportado, ou que a filha da beltrana nunca gritou com a mãe dela? Simples, essa é uma das maneiras mais usadas para educar os filhos mais rebeldes. Além de influências externas, com forte trabalho da mídia, que mostra a forte imagem competitiva no mercado, fazendo com que as pessoas pensem sempre que a camisa da vitrine é mais bonita do que a sua.

O “bom” invejoso nunca se satisfaz com o sucesso alheio, e busca sempre enumerar defeitos nas conquistas dos outros, se vingando por elas não serem suas. Eles não aceitam, de maneira nenhuma, ver uma outra pessoa se destacar no cargo que só não é seu por que, ao se preocupar demais com a grama do vizinho, se esqueceram de cuidar das suas. Esse talvez seja o pior castigo para eles, que deixam suas vidas passarem, e quando percebem já estão a anos-luz de distância do seu objeto de cobiça. E a cura vem de um processo, de recuperar a auto-estima, o que é fundamental. Para não invejarmos o que não temos, o primeiro passo é levantarmos a nossa cabeça e nos convencermos de que aquilo que nós somos, não é melhor nem pior do que ninguém. A nossa grama pode sim ser tão verde quanto a do vizinho. É só sabermos cuidar dela e parar de regar a dele.


domingo, 1 de agosto de 2010

Boca cheia




O doce sabor do pecado. Doce, amargo, azedo, todos os sabores. Dos sete eu acredito que a gula é, sem dúvidas, o pecado mais gostoso de cometer, com o perdão do trocadilho, e é aquele que traz as culpas mais, digamos, aceitáveis. Pelo menos para as pessoas normais, o que nesse mundo tão cheio de belezas anoréxicas e medinhos das famigeradas gordurinhas é cada vez mais raro. Foi-se o tempo em que comer era um prazer completo, sem compromissos e sem pratos meio cheios, antes era bom comer uma bela macarronada de domingo, e ela era simplesmente a macarronada de domingo, não o pesadelo de segunda, como hoje ela é encarada por muitas jovens que sonham com o corpo perfeito e, por isso, sacrificam-se, cerceando um dos maiores privilégios que elas podem ter: o de comer bem.

Não, eu não estou aqui pra criticar a busca por uma forma saudável, de maneira nenhuma, eu inclusive não sigo nenhum dogma da boa alimentação, admito... e me arrependo. O que eu não concordo que seja saudável são alguns métodos que são comprovadamente furados e, mesmo assim, ludibriam muita gente que pensa que fechar a boca é o melhor caminho. Ora, é claro que podemos estar bem comendo bem, nenhum regime é mais eficaz do que comer. Comer, comer, como é bom! Lamber o prato depois daquela lasanha, esperar a sobremesa como se fosse a última, traçar aquele hambúrguer, se encher de biscoitos com muito refrigerante... Opa! Todo prazer tem limites, e aquele que poderia ser o pecado sem culpas, pode trazer sérias conseqüências, mais dolorosas do que qualquer arrependimento. Se por um lado é extremamente deplorável ver pessoas se destruindo pela ignorância de achar que ficará melhor se não comer nada, é também tão deplorável quanto se dar conta que muita gente está se enchendo de gorduras, diabetes e problemas cardíacos por... falta de freio. Esses sim são os verdadeiros pecadores.

A gula pode ser um pecado de duplo sentido, dependendo do ponto de vista. Podemos a encarar como o vício por calorias, como também podemos a traduzir em fome de outras coisas. As pessoas podem ser gulosas no trabalho, sempre buscando se aperfeiçoar, melhorar, subir na empresa. Ambição, cobiça, podem a chamar assim nesses casos. Da mesma forma, podem ter fome de viver, aproveitar as oportunidades, seja com a família, seja com os amigos, seja com quem for. E temos, claro, outros tipos de gula, como esse mesmo que você está pensando, sim. Desejar alguém, ter vontade de estar junto, de possuir, tudo isso é fome, por que não? Em todo caso, a gula pode sim estar a nosso favor, apenas devemos saber administrá-la, para que ela continue sempre sendo um prazer, do mesmo jeito que vai continuar sendo um pecado, o mais gostoso, aquele que ninguém se arrepende de cometer.