quinta-feira, 29 de julho de 2010

A última volta


Tudo parece normal, mais um dia que você acorda sabendo que vai ser cheio, como todos os outros, o mesmo trânsito, o mesmo trajeto, as mesmas pessoas, as mesmas tarefas, tudo rigorosamente dentro da maldita rotina. Mas, de repente, aquele dia, por obra e graça de qualquer divindade suprema que venha à sua cabeça agora, seria o último da sua vida, de toda vida. Sim, o mundo está no fim. Tanto que avisaram, ninguém levou fé no que Nostradamus disse, por mais que ele tenha errado por alguns anos, mas o dia do planeta chegou. E era aquele. E agora? O seu último dia na Terra, e você mal tinha acordado. Você, o que faria, se tivesse apenas mais um dia?

Que complicado! Parece que nesses casos todos os desejos mais reprimidos das pessoas vem à tona de uma vez, sejam quais forem. Somem todos os cuidados, os medos e os limites, tudo ficaria pra trás, e muitos, na pressa de viver intensamente suas últimas vinte e quatro horas na Terra, deixam de fazer muita coisa. Quem nunca teve vontade de assaltar uma loja de doces? Ou de correr pelado pela rua, gritando feito louco? Nossa sociedade vive cheia de pudores, como crianças que não podem pisar na grama da praça, e algumas acabam se tornando jovens e adultos frustrados, sem poder contar uma aventura de adolescente para os netos. Porém, o mundo vai acabar, momento mais do que propício para libertarmos todas essas vontades.

Tanta coisa, um dia acaba sendo pouco. Como é a hora de fazer loucuras, tudo é liberado. Sair abraçando todos na rua, pelado ou não, quebrar semáforos, comer muita besteira, quem sabe até abrir as celas. Afinal, que perigo eles trariam, se de qualquer forma o tempo é curto? Assassinar? Apenas adianta o inadiável. Destruir arbustos, pichar muros de mansões, zoar os policiais... que policiais? Quebrar a cara daquele mala do escritório, passar a mão na bunda da secretária gostosa que nunca te deu bola, jogar pela janela todos os papéis que encontrar pelo caminho, algumas pessoas chatas também, talvez o chefe. Mandar a professora pra onde sempre quis, fazer 1 e 2 na bolsa da diretora, beijar na boca, transar como se fosse a primeira, como se fosse a última vez, com quem você quisesse, seja do mesmo sexo ou não. Ótima oportunidade de sair do armário.

Sair de todos os armários que te prendem, prendem suas opiniões, suas idéias, sua raiva contra algo ou alguém. Dinheiro? Pra quê? Ele não serve mais pra nada, é apenas papel. Papel que você pode rasgar, comer, queimar, fazer o que, em um dia comum, você nunca faria. Não apenas com dinheiro. Pedir perdão, terminar sem nenhuma dívida por aqui, terminar limpo, pelo menos aqueles que se interessarem. Pagar o que devem, dizer o que nunca disseram, apertar a mão dos inimigos, abraçar a sogra sem falsidade, fazer tudo sem falsidade, ela não serve mais, o fim que se aproxima é muito real.

Quem preferir seguir a rotina pode, claro. Muitos considerariam o último com apenas mais um dia, acordando do mesmo jeito, pegando o mesmo trânsito, vendo as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas. Aqueles que acreditam que o fim é só uma etapa podem nem ligar se tem ou não apenas mais uma volta no relógio, e vivem. Simples assim. Simples, como a vida sempre pode ser, mas fazemos questão de a complicar e só nos damos conta quando estamos a minutos de perdê-la. Que defeito incorrigível esse do ser humano, de só reconhecer algo ou alguém justamente quando surge o risco de perder, sem valorizar enquanto tem! Mas, o que isso importa? O mundo vai acabar, de um jeito ou de outro, a vida vai acabar. Se, no nosso último dia iremos ou não sentir vontade de fazer muita ou pouca coisa, isso só cabe a nós, a aproveitar enquanto ainda temos bem mais do que apenas mais um dia. Mas será que temos mesmo mais do que isso? Não. A vida é o agora, todos os dias são os últimos, sempre temos a chance de fazer o que quisermos. Grite, corra, faça sexo, faça amor, faça o que quiser. Daqui a pouco a última volta dos seus ponteiros pode chegar ao fim.

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