quarta-feira, 7 de julho de 2010

O tempo não para


Um artista completo, um homem corajoso, um jovem audacioso, um ser humano a frente de seu tempo. Quem teve o privilégio – que eu não tive, infelizmente – de acompanhar a carreira desse cara viu nos palcos muito mais do que um belo cantor. Viu um poeta das ruas, um poeta do amor, que expressava em suas músicas a força raivosa e sutil do que sentia, sem medo nenhum de ser taxado de louco ou pecador. Cazuza sempre foi exagerado, como todos deveríamos ser um pouco, talvez assim muita coisa teria sido diferente, as pessoas seriam diferentes, o mundo idem. O Brasil de Cazuza era o mesmo do João, da Laura, do Pedro e de tantos outros brasileiros que ousaram dizer um “basta” a tudo, mesmo que esse tudo fosse apenas seus próprios problemas. Viveu intensamente, enquanto o mundo inteiro acordava, ele dormia, para ele o dia sempre nascia feliz. Feliz por amar, amor tão intenso, tão forte, todo o amor que houvesse nessa vida louca vida ele amava, e se não houvesse, ele inventava. Fazia parte do seu show. Tudo o que Cazuza fez enquanto esteve entre nós foi rubro, quente, até o fim. Como “quem vem com tudo não cansa”, ele encarava de frente todos os julgamentos, os preconceitos, as adversidades que lhe levaram desse mundo, dessa festa pobre, que curtiu como poucos. Um maior abandonado que nunca se envergonhou de mostrar a sua cara para o mundo, que o aplaudia de pé, como hoje aplaude Lucinha, uma guerreira que Cazuza teve a honra de chamar de mãe. Voava, voava, como um beija-flor, sempre atrás de sua felicidade, o que nunca é tão simples de encontrar, mas ele sempre dava um jeito pra isso, levando consigo o que e quem cativasse pela estrada da vida, vida breve, vida imensa. Ostentando com orgulho todas as suas ideologias, sem medo de sanções ou críticas, esse homem foi um marco na história da música e da arte nesse país, hoje tão carente de exemplos. Há 20 anos as cortinas se fecharam para a vida dele, porém a sua obra continua, nas suas músicas, nas suas letras, na Sociedade Viva Cazuza e, principalmente, nos exemplos que deixou a todos nós, sua influência não para. O tempo não para.



"Disparo contra o sol

Sou forte, sou por acaso

Minha metralhadora cheia de mágoas

Eu sou um cara

Cansado de correr

Na direção contrária

Sem pódio de chegada ou beijo de namorada

Eu sou mais um cara



Mas se você achar

Que eu tô derrotado

Saiba que ainda estão rolando os dados

Porque o tempo, o tempo não pára



Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta



A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára



Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára



Eu não tenho data pra comemorar

Às vezes os meus dias são de par em par

Procurando uma agulha num palheiro



Nas noites de frio é melhor nem nascer

Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer

E assim nos tornamos brasileiros

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro

Transformam o país inteiro num puteiro

Pois assim se ganha mais dinheiro



A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára



Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára."