segunda-feira, 26 de julho de 2010

No armário



Você tem medo de quê? Pergunta até simples de ser respondida, afinal o seu medo nunca é somente seu, muitas outras pessoas também dormem de luz acesa, olham pra trás por nada ou não entram em elevadores. Existem vários por aí, alguns que sentimos e outros que até admitimos certa vergonha em assumir, porém sabemos bem o que nos assusta. E o quanto nos assusta. Desde a infância nós somos aterrorizados por zilhões de histórias entranhadas de idéias morais e corretices, que passam por gerações e gerações, como o Velho do Saco e os diversos monstros que entrariam nos nossos quartos se não dormíssemos cedo, e ai de quem não comesse tudo direitinho ou não fosse bem na escola, “Deus castiga”! Tudo pela boa educação da meninada, quanto sacrilégio.

Com o tempo vamos conhecendo outros medos, esses sim medos mesmo. Ficar sozinho? Nunca, esse é um dos piores. Como ninguém vive sem o outro do lado, esse é o fim para muita gente, que se sente sem alento, sem carinho, sem alguém pra dividir qualquer coisa que seja, qualquer emoção, qualquer sorriso, quaisquer lágrimas. Definitivamente o medo da solidão é de doer. Dor. Quem aqui, como eu, odeia fazer exame de sangue, tomar vacina ou qualquer coisa que envolva agulhas entrando em você? Eu confesso, nunca foi o meu programa predileto, e que não se manifestem aqueles que acham besteira minha, pois sempre, sempre alguma pessoa sente um medinho (por mais que não revele) que para o resto do mundo é tão insignificante, e para ela é um tormento. Eu não tenho medo de baratas.

Já de altura... Enfim, são inúmeros, alguns simples – se é que sentir medo de algo ou alguém é simples, ao menos para quem sente – e outros mais densos, que assustam mais, aterrorizam mais do que outros. Além da solidão, o medo do fracasso consome muito as pessoas, principalmente em um tempo em que os ciclos do mundo são cada vez mais rápidos, a concorrência é forte, cruel, ataca antes de se defender. Esse pavor pelo segundo lugar, pela demissão, quase sempre leva a pessoa a um ponto de imobilidade tão extremo, e esse é o sinal mais forte de que aquele medo se transformou em covardia. Medo de se relacionar com as pessoas? Muitos chamam de timidez. Aí, como em quase todos os casos, o jeito de se livrar dele é tentar, não tem escapatória, tem que levar muitos “nãos” na vida, e talvez esses valorizem cada vez mais o “sim” que nos espera lá na frente.

Há aqueles que são bem difíceis de curar, normalmente chamamos de traumas. Quem não sabe nadar ou passou por uma situação bastante difícil na vida acaba criando um bloqueio, que o impede de tentar de novo, de superar. Exemplo? Traumatismos do coração. É complicado se entregar de corpo, alma e RG a uma pessoa e, de repente, ver seu castelo de areia ruir. Daí pra amar de novo, só tentando muito, e o problema é que nós caímos muito até levantar de vez, e as quedas machucam. Entretanto, se o medo de se ferir for maior do que a vontade de se curar, nunca mais amaremos, aí sim outras coisas nos assustarão. A violência iria aumentar, a natureza iria diminuir, o mundo iria acabar... Medo da morte? Se ela vem de qualquer forma, pra quê temer?

E por quê sentimos medo? Será por uma defesa das nossas mentes contra possíveis invasores externos, prontos para tirar a nossa paz ou os nossos entes queridos? Será apenas uma fraqueza, mostra de uma ausência de amigos, de amores,de família? Não sei. O que eu sei mesmo, e o que eu acredito, é que o medo é um mal de certa forma necessário, desde que não se transforme em pânico, depressão ou qualquer tipo de fobia. A ansiedade, o medo do medo, faz bem, instiga os hormônios, consegue nos encorajar, e como é bom vencer um medo, saber que hoje não tem problema se tocar a vinheta do Plantão da Globo na TV ou se o planeta vai sumir daqui a dois anos. E mais, se temos as pessoas certas, segurando a nossa mão, quando mais precisamos delas, nenhuma assombração nos faz tremer, e acima de tudo, devemos aprender a não transformar nossos medos em pessimismo. Chances de se ferir, de dar errado, de não chegar lá, elas sempre existem, em qualquer situação. Basta pensarmos que elas são apenas chances, nada mais. Só assim os nossos fantasmas continuam bem trancados nos nossos armários.

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