terça-feira, 22 de junho de 2010

Um dia nada comum


Um soldado brasileiro, integrante da Missão de Paz Brasileira da ONU no Haiti, narra como viveu o dia 12 de janeiro de 2010, quando o maior terremoto em décadas devastou o país mais pobre das Américas.


Aquele era mais um dia comum. Acordei bem disposto naquela terça-feira, quando eu e mais dez colegas soldados iríamos a uma escolinha na periferia de Porto Príncipe, Haiti, levando roupas e alimentos para as famílias das crianças. Por mais que estivesse acostumado com aquela triste realidade, eu ainda ficava abalado. Mas eu fazia parte da Missão de Paz da ONU, tinha que ser forte.

Saímos por volta das dez da manhã, uma manhã de sol forte, e eu estava dirigindo o caminhão da tropa. A escola ficava afastada do nosso quartel, então demoramos um pouco até chegar lá. No caminho, muitas crianças. Nas ruas, algumas trabalhando e outras se divertindo com uma bola de futebol, como se alí esquecessem das suas vidas sofridas, das suas realidades, graças ao poder do futebol. Quanta saudade do meu país!

Aquele era mais um dia comum. Até que, de repente, tudo começou a tremer. Tremer muito. Ainda estávamos na escolinha quando o terremoto começou. Fim do mundo? Não pensei nisso. Só pensei nas crianças dentro do prédio da escola, que estava ruindo. Mas não conseguia parar em pé, o caos estava instalado, os muros caindo, as pessoas caindo, tudo parecia tão frágil, aquele solo tão firme...ruindo em questão de segundos. Tão de repente quanto ele começou, ele parou. Ali começava o verdadeiro martírio.

O que sobrou daquela terra era assustador, o cenário de uma guerra. Naquela hora eu só pensava nas outras pessoas do lugar. Gritos de dor, pedidos de socorro, poeira, destruição. Consegui socorrer alguns soldados feridos e crianças, muitas crianças. Algumas estavam longe, não conseguia alcança-las. Aquelas crianças, aquelas pessoas, não mereciam aquele sofrimento, mais um. Só depois de algum tempo começaram a chegar equipes para ajudar os feridos.

Depois de um tempo, descobri que perdi alguns amigos, companheiros, nessa tragédia, tanto nas ruas quanto na nossa sede, totalmente arrasada. Mas não perdi mais do que os moradores daquela cidade. Casas resumidas a pó, choros e corpos. Nunca vou esquecer daquelas cenas, que traduziam perfeitamente o significado da palavra “catástrofe”.

Hoje, um mês depois, já estou de volta ao Brasil. Sofri algumas lesões, alguns ferimentos leves, porém as lembranças de tudo aquilo ferem ainda mais até agora. Naquele momento, confesso que a tragédia não me deixou lembrar de agradecer por estar vivo e capaz de poder ajudar quem precisava mais. Agora, já em casa e perto da minha familia, isto é o que eu mais faço. Agradecer.


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