segunda-feira, 28 de junho de 2010

Anjos

Quando você não está bem, o seu dia foi ruim, os seus dias estão sendo, tudo na vida perde brilho, graça e sentido, você recorre a qualquer coisa que te faça bem. Desde chocolates e outras guloseimas tão calóricas quanto a sua depressão, até as compras que satisfazem pelo simples fato de serem compras, não importa o jeito, como ou quando. Entretanto, tudo isso é, por mais que não pareça, paliativo, só disfarça o que nos dói. Agora o que nos conforta mesmo, sem pormenores, sem condições, nem gordurinhas localizadas depois ou dívidas astronômicas, são aqueles em que podemos depositar toda a nossa esperança e a confiança, a certeza de que eles nos tirarão do problema, ou pelo menos os farão mais leves. Nossos verdadeiros anjos.

Há aqueles que passam bom tempo das nossas vidas ao nosso lado, que dão aquela força quando estamos sem dinheiro, dão carona, nos ajudam com alguma paquera ou, simplesmente estão conosco nos momentos mais alegres das nossas vidas. Esses são os amigos, de fé, irmãos, camaradas, a postos não apenas nas festas. Amigo bom é aquele que te ampara quando você cai e ainda acaba com a raça de quem te derrubou. Aqueles que sabem segredos que nem os pais sabem, com quem dividimos as dores do primeiro amor, da adolescência e até brigamos as vezes por causa da mesma menina. Falar besteira? É com eles mesmo. Esses anjos a gente ganha quando crianças, na maioria das vezes, mas muitos estão por aí, pelo nosso caminho, à nossa espera. Feliz aquele que angaria muitos desses ao longo da vida.

Outros anjos se vestem de mulher, alguns quase passando por cima de tanta candura. Anjinhas? Algumas nem tanto. Porém, quando a flechinha acerta o coração em cheio, nossas companheiras se tornam as melhores companheiras, as que aconselham com sabedoria e brigam com firmeza. Sempre um ombro amigo, um colo, aquele carinho de quem está ao nosso dispor, prontas a nos ajudar – e criticar, quando merecemos. Amar é uma via de mão dupla, e quando pegamos a mão da felicidade, tudo são flores. Mas é necessário que saibamos bem escolher nossas anjas, hoje em dia muitas escondem seus tridentes sob um véu branco.

Porém os nossos maiores anjos, aqueles que estão conosco desde sempre, sofrem antes, durante e depois das nossas vidas, sem reclamar de nada, padecendo por nós no paraíso, esses anjos que chamamos de mãe. Com eles nada pode nos atingir. Nossa segurança, nossa palavra de conforto, nossos escudos, por muitas vezes, esses anjos são os onipresentes, em corpo e em espírito, estão conosco onde quer que estejamos, e nem adianta tentar enganá-los. Além de onipresentes, as mães são oniscientes. Afinal de contas, em que colo choramos o choro mais sofrido, e que mãos fazem o carinho mais necessário, mais providencial, quando fazemos algo de errado na vida, ou quando ela faz algo de errado com a gente?

Tem quem nos proteja lá de cima, que não precisam existir em matéria, basta estarem dentro da cada um, nas melhores lembranças, no melhor lugar pra se guardar quem merece. Aqueles a quem recorremos em nossas orações, em nossos pedidos ou mesmo sem pedir, mas que estão sempre nos protegendo, nos auxiliando, traçando o melhor dos caminhos a trilhar, eles sempre sabem o que fazem por nós. Nos deixaram em presença, mas nunca em espírito. Pra quem acredita em santos e divindades, a eles podemos pedir proteção, ajuda, além de agradecer pelo que de bom aconteceu conosco, nossos anjos divinos. Quem não acredita, desconsiderem esta parte.

E em todos os lugares podemos encontrar anjos. Seja o seu chefe legal no trabalho, aquela professora que te deu um ponto extra, o motorista de ônibus consciente no trânsito – raríssimo, porém possível –, ou um policial que te salva de um assalto. Durante toda a nossa caminhada por esse mundo nos deparamos por pessoas que, de algum modo, fazem da nossa vida mais tranqüila, por mais que passem desapercebidas a nossos olhos. Em qualquer lugar, a qualquer hora, sempre tem alguma pessoa que olha por nós. Todos temos, cada um, os seus anjos. Quais são os seus?

terça-feira, 22 de junho de 2010

Um dia nada comum


Um soldado brasileiro, integrante da Missão de Paz Brasileira da ONU no Haiti, narra como viveu o dia 12 de janeiro de 2010, quando o maior terremoto em décadas devastou o país mais pobre das Américas.


Aquele era mais um dia comum. Acordei bem disposto naquela terça-feira, quando eu e mais dez colegas soldados iríamos a uma escolinha na periferia de Porto Príncipe, Haiti, levando roupas e alimentos para as famílias das crianças. Por mais que estivesse acostumado com aquela triste realidade, eu ainda ficava abalado. Mas eu fazia parte da Missão de Paz da ONU, tinha que ser forte.

Saímos por volta das dez da manhã, uma manhã de sol forte, e eu estava dirigindo o caminhão da tropa. A escola ficava afastada do nosso quartel, então demoramos um pouco até chegar lá. No caminho, muitas crianças. Nas ruas, algumas trabalhando e outras se divertindo com uma bola de futebol, como se alí esquecessem das suas vidas sofridas, das suas realidades, graças ao poder do futebol. Quanta saudade do meu país!

Aquele era mais um dia comum. Até que, de repente, tudo começou a tremer. Tremer muito. Ainda estávamos na escolinha quando o terremoto começou. Fim do mundo? Não pensei nisso. Só pensei nas crianças dentro do prédio da escola, que estava ruindo. Mas não conseguia parar em pé, o caos estava instalado, os muros caindo, as pessoas caindo, tudo parecia tão frágil, aquele solo tão firme...ruindo em questão de segundos. Tão de repente quanto ele começou, ele parou. Ali começava o verdadeiro martírio.

O que sobrou daquela terra era assustador, o cenário de uma guerra. Naquela hora eu só pensava nas outras pessoas do lugar. Gritos de dor, pedidos de socorro, poeira, destruição. Consegui socorrer alguns soldados feridos e crianças, muitas crianças. Algumas estavam longe, não conseguia alcança-las. Aquelas crianças, aquelas pessoas, não mereciam aquele sofrimento, mais um. Só depois de algum tempo começaram a chegar equipes para ajudar os feridos.

Depois de um tempo, descobri que perdi alguns amigos, companheiros, nessa tragédia, tanto nas ruas quanto na nossa sede, totalmente arrasada. Mas não perdi mais do que os moradores daquela cidade. Casas resumidas a pó, choros e corpos. Nunca vou esquecer daquelas cenas, que traduziam perfeitamente o significado da palavra “catástrofe”.

Hoje, um mês depois, já estou de volta ao Brasil. Sofri algumas lesões, alguns ferimentos leves, porém as lembranças de tudo aquilo ferem ainda mais até agora. Naquele momento, confesso que a tragédia não me deixou lembrar de agradecer por estar vivo e capaz de poder ajudar quem precisava mais. Agora, já em casa e perto da minha familia, isto é o que eu mais faço. Agradecer.


sábado, 19 de junho de 2010

Lembranças juninas


Pular fogueira, dançar quadrilha, botar o chapéu de palha e pintar os dentes. Estamos em junho, um dos meses mais alegres do ano, onde desce o espírito roceiro-festeiro em cada um de nós, e quando até quem não sabe aprende a dançar aquele xote. Experiência própria.

As festas juninas trazem lembranças muito boas, principalmente de quando éramos nada mais do que crianças, sem responsabilidades, sem trabalhos da faculdade ou sem contas pra pagar. Todas as festas, aquelas bandeirinhas no alto, os meninos de calças com retalhos e camisas xadrez, as meninas de vestidinhos floridos e aquelas pintinhas nos rostos, era bom demais. Aquelas músicas que continuam sendo clássicos do forró – entenda-se Luiz Gonzaga, não Aviões do Forró. Nada contra os Aviões – tocando, as pessoas sem medo de serem felizes, dançando até altas horas. E nós, pequenos, esperando as outras quadrilhas entrarem na arena, nós dançando, era bom demais.

Não que hoje não seja interessante, mas aqueles olhos de criança não existem mais, não nos encantamos tanto quanto antes. Enquanto éramos fedelhos, era muito melhor aproveitar as festas, assim como muitas outras. Eu duvido que algum de nós nunca tenha recebido um bilhetinho amoroso, o famoso Correio do Amor. Ah, como o coração batia forte, as pernas tremiam, para os tímidos isto se potencializava. Aquela emoção nenhum marmanjão sente mais. Barraca do Beijo? Ô coisa boa, sô! Desde os tempos do selinho, muitos nem precisavam de tanta formalidade. Tudo era tão escondido, tão inocente, tão marcante, aqueles beijinhos que faziam a gente sonhar meses e meses... Hoje os beijinhos não são tão – ou nada – “inhos” e se tornaram tão banais que nem dá tempo de sonhar com eles. Aliás, sonhar com beijos é tão ultrapassado, nem dá tempo. Hoje o beijo é acessório, antes era um momento histórico.

E as comidas? Eita trem bão! Tudo bem, isso até hoje é muito bom, eu confesso que me empanturro de mingau e pé-de-moleque sem pensar, pura inconseqüência, a diferença é que hoje comer é uma das prioridades. Antes ficava longe disso. Que crianças preferiam ficar na mesa comendo ao invés de soltar bombinhas e outros fogos na rua com os amiguinhos? Que adolescente prefere comer a conhecer uma menininha bonita da festa e levá-la pra um cantinho? Quem preferia ficar parado a dançar? Danças, músicas, bandeirinhas. Poucos são aqueles que conseguem ver uma festa de São João como antigamente.

Hoje em dia poucas festas como essas ainda são feitas, na minha rua não mais, sabe-se lá porquê. Violência, talvez. Os ladrões não perdoam mais. Briga entre vizinhos, talvez. As relações se desgastam, conflitos de interesses, falta de grana, enfim. Nada como antes. É muito bom lembrar de um tempo em que aproveitamos da maneira mais feliz as festas juninas, lembrar de quando não tínhamos nada para se preocupar, só para curtir. Mas ainda podemos nos divertir, sempre podemos, então peguem seus chapéus de palha, suas camisas mais xadrez, preparem suas Maria-chiquinhas e vamo pular fogueira, ia ia!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago 1922 - 2010


"Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo."


(1922 - 2010)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Carta ao povo brasileiro





Caros brasileiros, companheiros de sofrimento e apreensão,

Tenho certeza que a estreia da nossa Seleção ontem na Copa do Mundo, contra a incógnita seleção norte-coreana, deve ter frustrado muita gente que esperava um verdadeiro massacre. E, como ele não ocorreu, a sensação de "poderia ser melhor" é inevitável, eu também me senti assim, ora, eu assisti uma equipe que sem objetividade, sem criatividade, insistindo em lançamentos absurdos, e essa equipe era a minha Seleção. Não estava assistindo o jogo errado, e não acreditava, aquele não era o Brasil que eu vejo jogar desde a última Copa. Agora, amigos, em Mundiais, começar com o pé direito, independente do placar, é o mais importante. Goleada? Pra quê, se os três pontos não deixam de ser três pontos?

Eu sei que é muito bom ver o Brasil encher a rede adversária, fazer 3, 4, 5... Agora, eu também entendo que ontem a nossa Seleção não estava excepcional, porém venceu. Nossa zaga falhou no fim do jogo, um gol (aliás, um golaço) de lateral-direito, nossa maior esperança só se tornou ainda mais esperança pros próximos jogos, fomos lentos, apáticos, mas vencemos. Reclamar da convocação agora não adianta mais nada. No calor do jogo podemos xingar, execrar, mandar o Dunga pra todos os piores lugares que podemos imaginar, porém é necessário analisar friamente o resultado. Não foi um show de bola, o mínimo que sempre se espera da Seleção Brasileira em Copas, mas a vitória é o que importa.

Sou jovem, mas vocês que tem mais experiência podem me confirmar: as estreias brasileiras em Mundiais nunca foram grandes espetáculos. E isso não é, necessariamente, sinônimo de fracasso. Em 2002, fomos ajudados pelo árbitro, que nos deu a vitória contra a bela seleção Turca, 3º lugar naquele ano. E fomos penta. Quatro anos antes, vencemos com um gol contra da Escócia, depois de darmos um a eles. E fomos finalistas. Nos Estados Unidos, começamos a campanha do tetra com um simples 2x0 contra a fortíssima seleção russa. Amigos, exigir uma goleada é natural, claro, faz parte do jogo, mas devemos conhecer o adversário. Quem pensou que a Coréia do Norte seria moleza por ser a pior dessa Copa (de acordo com o Ranking da FIFA) sem ver a retranca que eles armaram, aproveitando a lentidão canarinha, viu que qualquer adversário deve ser respeitado. Por favor, um clima de enterro depois de um 2x1 a favor na estreia? A Itália foi campeã do mundo em 2006 sem grandes goleadas.

No próximo domingo enfrentaremos uma seleção melhor, (um pouco) menos retranqueira, mais veloz e que exigirá dos nossos jogadores maior empenho. Esse é o tipo de jogo que a Seleção gosta, de um oponente ofensivo, que abra mais espaços pra criatividade que nós sabemos que nossos meias e atacantes tem. O jogo de ontem não foi um show, mas foi uma vitória. Então vamos relaxar e esperar uma classificação absolutamente esperada. E para os turrões que gostam de goleadas, que torçam pra Alemanha! Eu ainda sou mais Brasil.

sábado, 12 de junho de 2010

Perfeitos imperfeitos

Típico fim de semana pra curtir em casal. Aliás, era mais do que um típico fim de semana de casal. Era nosso “mesversário”, 7 meses, ainda tinha muito amor pra queimar entre a Mel e eu, tava tudo muito perfeito. E antes de levá-la pro jantar que eu prometi pra nós, passei no apê dela com um buquê de margaridas, as flores preferidas dela. Quanto romantismo! (Pode fazer o “bleergh!”, eu entendo). Tinha tudo pra ser uma noite linda...

Quando ela abriu a porta, e viu toda a minha sincera disposição em agradar, com o presente que mulher nenhuma recebe com, no mínimo, um beijo caloroso. Eu esperava até mais do que isso, confesso, mas eu esqueci de um pequeno detalhe feminino: elas são imprevisíveis!

- Flores, amor? Que lindo!

Ali eu logo pensei: “Deu certo”. Confesso que, antes daquele dia, só dei flores a uma pessoa na minha vida toda. Minha avozinha, coitada, antes de ser enterrada. Depois ela me beijou, e não pensei em mais nada.

- Que bom que você gostou, amor! Acertei nas flores, pensei em você! – mandei, vendendo meu peixe.

- Nossa, que presentão, eu não esperava tanto de você, juro.

Isso é o tipo de coisa que mulher NENHUMA deve dizer ao parceiro depois de receber um presente tão (modestamente) especial. Com uma cara de “hã?”, retruquei:

- Ah, quer dizer que eu não seria capaz de lembrar de você numa hora dessas, Mel? Valeu mesmo!

- Ô, não quis dizer isso. Só achei...meio...diferente, Nando. Mas eu amei!!!

- Poxa, menos mal. Eu encomendei essas flores há mais de 15 dias...

Antes de terminar, ela entrou, com uma voz meio alta:

- Por quê? Você ficou com medo de esquecer, como fez no mês passado, Fernando?

Dois sinais fortes de uma possível DR: percebam, não é nóia masculina, mas mulher adora jogar na cara alguma mágoa passada. Tudo bem, vacilei, mas precisava lembrar? Pra ela, sim. Outro: o nome completo. Só quem me chama de Fernando é a minha mãe quando eu monopolizo o banheiro na hora do banho.

- Mel, claro que eu lembraria desse nosso dia, e eu já pedi desculpas pelo mês passado – respondi, preparando a bela desculpa pra dar em seguida – , eu tava muito ocupado com a facul, amor.

-Como sempre! As vezes eu acho que você me deixa de lado pensando nessa droga de faculdade. Pô, Nando, você ultimamente nem liga mais pra mim! – ela disse, com a voz levemente (e estrategicamente) embargada.

Fiquei muito confuso nessa hora, porque ela é a pessoa que mais me incentiva a continuar na faculdade de jornalismo, e eu ligo pra ela sim. Agora explica!

- Amor, deixa de ser injusta que eu nunca te esqueci, te ligo todo dia, te vejo quase todo dia, marquei um jantar lindo pra gente hoje. Pra isso você nem liga.

- Tentando me comprar de novo com jantarzinho, Nando! Ah, fala sério!

- Mas é nosso “mesversário”, Mel, poxa! Fiz esse dia só pra nós. E a gente aqui perdendo tempo nessa briga.

Ela, mais uma vez tentando me derrubar, retrucou:

- É, você odeia ouvir a verdade mesmo, né, Nando? Impressionante!

Impressionante é como a Mel sempre consegue me deixar irritado. Vocês estão de prova de que eu tentei começar uma noite especial, mas ela quis começar uma discussão... De novo eu vou tentar amansar a fera:

- Mozão, me escuta pelo menos um minuto, por fav...

- Ah, eu não te escuto, Fernando? – Lá vem ela com “Fernando” de novo. – Eu sempre te escuto, e a gente nunca se entende, que saco!

Já bem cansado dessa discussão, esqueci o carinho:

- Olha, Mel, caramba, eu vim aqui pronto pra te dar uma noite muito legal, trouxe flores, marquei um jantar mais caro que o meu carro, vim te buscar, te fazer uma surpresa, e assim que você me recebe? Muita injustiça tua!

Acho que aí eu consegui mexer com ela. Torci muito pra isso, aquela noite tava tomando rumos trágicos. Então ela, mais calma, respondeu:

- É, amor. Pensando bem... Vamo brigar mais não, tá?! Ah, e o jantar? Estamos atrasados?

Mesmo tendo gasto uns 20 minutos nisso, o restaurante ficava perto de lá, então disse o que NENHUM homem inteligente diz a uma namorada antes de levar ela pra algum lugar:

- Relaxa, amor! A gente ainda tem tempo.

(Sabe quando você diz alguma coisa e se arrepende um segundo depois?)

- Ótimo, mô! Deixa eu terminar de me arrumar então, tá? 10 minutinhos.

(Já tinha me arrependido).

Quando eu cheguei com as margaridas, eu lembro dela estar com um vestido vermelho e batom, o que, pra mim, já tava ótimo (ela é linda, isso colabora). Como ela ensaiou um choro na DR, eu entendo que ela precisava retocar o make, mas de resto ela tava pronta pra entrar em qualquer restaurante francês. Entretanto eu burlei uma regra inviolável de conduta masculina com mulheres: nunca, absolutamente NUNCA interrompa a sua namorada quando ela estiver se arrumando pra sair com você. Isso pode (ou melhor, VAI) te custar muito tempo. Belo exercício de paciência.

Preocupado com a reserva e com as DUAS HORAS de atraso, chamei ela, da sala, o que não me exigiu um tom de voz baixo:

- Vamo, amor!!!

De uma hora pra outra, com um sapato diferente em cada pé e o cabelo ainda em construção, volta uma mulher soltando fogo pelas ventas em minha direção, esbravejando:

- NÃO GRITA COMIGO!!!

Como continuar gritando com um pedido tão...é...sutil desses, me diz?

- Desculpa, Mel, foi mal mas a gente tá atrasado pra reserva, faz duas hor...

- Ah, quer dizer que você só pensa no jantar, e eu posso ir que nem uma mendiga? Tá vendo só, cê não liga pra mim mesmo, seu insens...

Por mais que ela tivesse adorando aquele momento, eu não agüentava mais. O jeito foi partir pro plano B: se não conseguir terminar a DR no papo, termina no beijão. Alguém tinha que acabar com aquilo, e eu tinha que ganhar a briga. Pô, eu levei as flores. Aquela noite tinha que ser de festa. O jantar? Ah, dane-se. Naquela altura, nem se a gente quisesse sair do apê o jantar ia rolar. Ah, as pazes. A melhor parte de qualquer DR. Tinha tudo pra ser uma noite linda... e foi. De um jeito bem “namorado” de ser.













(3 meses depois a gente terminou, o beijão não funcionava mais. Mesmo assim a gente continuou se vendo, saindo juntos...ficando... ficando... Hoje nós estamos fazendo 7 meses. De novo. Ela tá aqui em casa, fiz um jantar especial pra ela. Só espero que ela não leia isso aqui. Se ela ler... vocês já sabem. Mas não tem jeito, dá pra tentar fugir do amor?)


sexta-feira, 11 de junho de 2010

Laduma!






Foram 48 meses de muita espera, mais de 1400 dias de ansiedade, sofrimento, conquistas e preparação. Parece uma eternidade, e é mesmo, pelo menos pra nós, brasileiros, inveteradamente apaixonados e viciados num esporte, o tal do futebol. Não estamos mais no ano da Copa, estamos na semana da Copa. Melhor, hoje é dia de Copa. Há semanas as ruas, as casas e as pessoas andam por aí mais verdes e amarelas, só se fala em Seleção, na TV, nas rádios, na internet, aquele velho e bom clima que nos faz acordar cedo, tarde, quando for. A partir de hoje começa, formalmente, a Copa do Mundo. Formalmente, porque pra nós ela já começou faz tempo.


Exatamente no dia 1º de julho de 2006, quando um cidadão chamado Zidane – o “cabeça dura”, Materazzi que o diga – resolveu jogar, justo contra o Brasil. Depois de mais uma cortesia francesa a nós, fregueses de carteirinha, o foco era outro. O passaporte precisava de um carimbo, de mais um, do décimo nono, e corremos atrás. Desconfiança? Que seleção não passa por isso? Depois de um fracasso regado a muita cerveja alemã e oba-oba, precisavamos de mais do que um conforto. Precisávamos de certezas. Lembro bem do dia em que anunciaram o anão que treinaria o Brasil dali pra frente, e confesso que chiei. Como podia um cidadão que nunca treinou nem time de várzea seguraria o pepino de reerguer a moral de um país? Sinceramente, que me perdoem os críticos mais ferrenhos, mas o Dunga conseguiu.

Foi uma longa jornada. Longa o suficiente pra nos proporcionar tudo o que o futebol pode causar em um ser humano que vive na Terra. Derrotas incríveis, empates irritantes, vitórias históricas. É sempre bom vencer os hermanos, em final é melhor ainda. E os americanos, que quase conseguiram tirar o prazer do Brasil de levantar uma taça em solo africano – gesto que esperamos ver de novo daqui a um mês. Gente nova, mesmas opiniões. A convocação. Como sempre polêmica, duvidosa, insatisfatória, torcedor nunca está satisfeito, quanto mais em uma convocação pra Copa do Mundo, é fato. Faz até bem, discutir futebol nessa época é até obrigação em qualquer roda de conversa, e o engraçado, esse é o único momento em que a bola vira assunto unissex de verdade, mulheres entendem –ou pretendem entender – alguma coisa de futebol, nem que seja o nome dos mais gatos.

Há muito tempo falamos sobre a Copa, discutimos sobre a Copa, trocamos figurinhas, não interessa a idade, o sexo ou a classe. As TVs ficam mais baratas, camisas e mais camisas, de várias seleções, além do manto áureo, o mais bonito. Todo mundo se reúne, irmãos separados, amigos brigados, tudo fica de lado, os piores problemas, as provas mais difíceis, o salário atrasado, a conta de luz, tudo isso fica pra depois. Depois. Daqueles noventa minutos que fazem milagres. E uma Copa do Mundo é diferente, bem diferente de um Campeonato Carioca, o grande barato é que, além dos jogos do Brasil, muitos outros prendem a nossa atenção, afinal de contas são os melhores dos melhores times que jogam os melhores campeonatos juntos, pra fazer um espetáculo a cada jogo. Quem não dava um centavo pra Senegal, Turquia e Croácia no passado se deu mal feio. Surpreendente sim, por quê não? As zebras correm soltas nos Mundiais, ainda mais na África. Que passem longe do grupo G.

Finalmente, depois de tanto tempo, chegamos onde nunca estivemos. O mundo esperou quatro anos, os africanos esperaram uma vida, depois de tantas tragédias, tantas manchetes negativas, a África vai freqüentar a primeira página por um motivo mais que benigno. Em tapetes africanos a festa maior do futebol abriu suas portas para o planeta hoje, e os moradores dessa terra, os donos dessa festa – munidos de suas vuvuzelas irritantemente interessantes – nos recebem de braços e sorrisos bem abertos, com o prazer inenarrável de quem entra pra história. E nós, brasileiros, únicos a sentir o prazer de erguer a taça em todos os continentes por onde ela passou, curtiremos de novo, sofreremos de novo, torceremos de novo, como já é de praxe. Por aqui já estamos prontos, que os nossos, do outro lado do oceano, também estejam.

 
 

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Nossa língua portugueZa





Pode ser difícil. Pode ser um pouco desconhecida. Pode ser chata por tantas regrinhas. O certo é que um dos nossos maiores tesouros é a nossa língua. O Português, a melhor das heranças deixadas pelos que nos colonizaram por tanto tempo, continua sendo um dos idiomas mais importantes, não apenas na literatura, com Camões, Castro Alves e Machado de Assis. É a nossa própria identidade, ora pois! Ora pois? Não exatamente. A língua de Portugal nos idos do descobrimento já se diluiu de tau maneira no nosso país que as semelhanças entre as duas estão virando história. Afinal de contas, ler Os Lusíadas sem franzir os olhos de dúvida não é pra qualquer um.


Por mais que muitos dos jovens não suportem as aulas de português ou de literatura, elas são estremamente necessárias e importantes. Esqueçam a maudita gramática! Poucas coisas na vida são tão interessantes quanto conhecer a nossa própria língua, falar, escrever, cantar. Algum de nós imajina o Hino Nacional Brasileiro cantado em inglês? A beleza singular dessa letra está justamente no idioma em que está escrito, e é um orgulho ostentá-lo. Pra nós, brasileiros, para os portugueses, e pra toda a comunidade lusófona, que hoje festeja. Somos milhões que nacemos sob a luz desta língua que vários já exaltaram e tornaram reconhecida pelo mundo afora. Saramago, Eça de Queirós e Clarice Lispector, gênios das letras. Os maiores do mundo no futebol falam português, e as Olimpíadas daqui a 6 anos não foram dadas a uma cidade chamada “River of January”. O chefão do COI, quando anunciou a sede dos Jogos de 2016, se enrrolou pra falar “Rio de Janeiro”, mas e daí? Muita gente por aqui se enrola também pra dizer “Portsmouth” ou “World Trade Center”, mesmo assim ninguém reclama.

Quanta discriminação, e justamente dos filhos da língua. Exigências do capitalismo? Hoje sim, antes era só um capricho. Não deixa de ser também, mas a questão é que, por um processo natural de qualquer sistema lingüístico, o que vem de fora toma conta da banca, não apenas palavras, pra falar a verdade. E, mesmo que se tente escapar, o português de hoje já cede lugar aos tais estrangerismos. É “deletar” pra cá, “abajur” pra lá, “futebol” aqui, “espaguete” acolá. E grassas ao advento das n redes sociais por aí, a febre teen, outras palavras são empurradas goela abaixo. Ou será que você nunca “tuitou” com ninguém, vai?! Muitos garotos e garotas se esquesem que falam português e saem engolindo letras – “vc qr tc cmg?” – no tal do internetês. Mais isso é o de menos perto do que fazem muitos.

Como a nossa língua sofre! Atrocidades são vistas e, às vezes, cometidas, coisa de chorar. Me perdoe você, borracheiro, mas o tanto de vezes que encontramos um “consserta-se” nessas placas de oficina não é brincadeira. E não para por aqui a tortura. Você já deve ter escutado algum amigo dizer que fulano foi preso em “fragrante”, ou que ele adora pão com “mortandela”, ou até mesmo que sua prima tava “meia” cansada ontem. No nosso cotidiano nós também cometemos erros simples, que passam despercebidos. Nós não separamos “o” alface da salada, muito menos podemos dizer que quem ainda não tem 18 anos é “de menor”. Não namoramos “com” ninguém, nem assinamos “acordos amigáveis”, e não deveremos pedir o “mais absoluto” silêncio. É como dizer que se está com hepatite no fígado. Isso sem falar nas gírias, que invadem cada vez mais o nosso cotidiano. Desde muito antes de pensarmos em nacer. Quantos brotos legais por aí, quantas gatinhas, manés e gente lisa! Faz parte do processo.

Mesmo com todas essas alterações, adaptações e certos coices brabos, ela não perde a sua beleza, a sua imponência e, acima de tudo, a sua importância a todos nós, 250 milhões de sortudos, por usarem um dos idiomas mais bem feitos. Em seus vários dialetos, do nordestino ao caipira, do moçambicano ao timorense... A última flor do lácio, inculta e bela, desconhecida e obscura, que hoje recebe todas as homenagens que merece. VIVA A LÍNGUA PORTUGUEZA!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Água e dor - VITRINE ETC




Água e dor (2010)
Direção: alunos do 2º ano de Realização Audiovisual da Caiana Filmes
Elenco: Maíra Monteiro e Oscar Lifschiitz


Um curta-metragem produzido e dirigido pelos alunos da 2ª turma da Caiana Filmes, que estará pronto no dia 10 de junho e será exposto na Mostra Internacional de Curtas de São Paulo desse ano. Leiam a sinopse de uma história que vale a pena assistir:

"LÉO é um rapaz solitário de 20 anos que passa a maior parte do tempo trancado em seu quarto reprimindo uma paixão platônica e sofrida por uma bonita viúva de 37 anos. Com um roteiro excepcional e um final surpreendente, o filme mostrará ao público um olhar crítico sobre relacionamento entre pais e filhos. Ou seja, uma relação estreita, onde o silencio os afasta cada vez mais.



Uma visão poética e surpreendente que vai mexer com você!"

Contatos com a equipe do curta:

Blog Água e Dor
Orkut
aguaedor@gmail.com

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Melhoridade






Existem dias que muitos de nós esperamos muito tempo, mais exatamente, um ano inteiro. E hoje é a minha vez. Como é bom fazer aniversário! Um dia teu, de mais ninguém, onda você esquece de tudo o que te irrita: seus livros, sua vizinha chata, seu amigo mala, acordar cedo. Bela (e justa) desculpa pra não se fazer absolutamente nada que não seja comemorar, comemorar e comemorar. E qual seria a melhor idade a se festejar? 1 ano? 15? 50? Não sei. O que eu tenho certeza é que uma idade é muito importante, idade do recomeço, ou do começo mesmo pra muita gente. Como é bom fazer 18 anos!


A sensação de acordar e ver que você já não é mais uma criança, por mais crescido que você seja, é uma das mais emocionantes e gratificantes. Chegamos bem longe, sobrevivemos a primeira fase da vida dentro dessa jaula chamada Planeta Terra, já podemos assinar cheques, tirar carteira de motorista, responder em juízo pelos nossos deslizes, comprar cerveja e revistas de mulher pelada nas bancas, entrar em todas as festas, ver todos os filmes, não existe mais restrição de faixa etária. Nos tornamos adultos. Adultos. Palavra forte, que traz várias outras muito interessantes. Uma delas, a maturidade, não vale pra todos, é verdade. Muita gente cai de pára-quedas na maioridade, sem ao menos sair das fraldas. Grandes na idade, crianças na mentalidade, onde realmente importa. Adianta alguma coisa ter 18 anos e continuar com cabeça de 15, quando ainda podíamos fazer o que desse nas nossas telhas jovens?

Quem acha que é fácil chegar aqui, que a vida vai ser um mar de rosas e que agora sim está livre pra voar como quiser, está redondamente enganado. Aproveitar, claro, afinal esse é, na minha opinião, um dos melhores momentos da vida pra sair, se divertir, curtir mais a vida que a adolescência cerceava. A diferença está em um ingrediente que antes sempre esquecíamos de colocar nesse bolo: a responsabilidade. Mais do que nunca precisamos dela, não existe mais a mãe piedosa, o tal do Estatuto da Criança e do Adolescente. Nosso estatuto, a partir de agora, é o carrasco (?) chamado Código Penal. Aprontou? É cana! E não falo somente da questão penal, não! Responsabilidade em todos os sentidos. Chega de depender de papai e mamãe, agora é a hora de andar com as próprias pernas, atrás de um emprego, digno e satisfatório. É hora de viver. Independência. Instiga, estimula, faz bem. Poder pagar um jantar ou uma calça nova com o seu próprio dinheiro, isso não tem preço.

Esse dia traz um ar de liberdade muito bom. Tá, por mais que você passe esse dia enfurnado em casa, e que pouca coisa mude na sua rotina a partir de amanhã – o que é bastante compreensível, afinal nós só completamos 18 anos, não dominamos o mundo ainda. Nem o Cérebro conseguiu – parece que a partir daquele momento você descobre que a identidade falsa já não serve pra mais nada, que você não precisa mais mentir a idade nem ficar apreensivo antes de entrar em qualquer lugar, você já pode. A lei te ampara. Ainda me lembro de quando eu procurava a faixa etária dos filmes no jornal... faz tempo. Pouco tempo, muito tempo. Ele passando e você, quando se dá conta, já tem barba na cara ou já usa sutiã, e que aquelas brincadeiras de criança perderam a graça. Subir em árvores, pular muros, brincar de casinha, tudo isso faz parte de um passado que vira nostalgia. Faz uma falta aquilo que passou. E pensar que parece que foi ontem o seu primeiro dente caindo ou o primeiro Lego da vida. Esperar o Papai Noel, correr pela casa, o primeiro beijo. Momentos que marcaram, passaram e nunca serão deixados pra trás. Só que o tempo passa, e chegou a maioridade. Sem avisar, já somos grandinhos, crescemos.

Essa é uma data muito especial. Daquelas que a gente aproveita pra usar como um marco, de uma nova etapa que começa em nossas vidas. Talvez a mais intensa. É na maioridade que descobrimos o sabor da responsabilidade, das contas pra pagar, das noitadas sem compromisso e da liberdade. Do estudo pro trabalho, da internet para a labuta, deixamos de ser meninos e meninas. Agora somos homens e mulheres, prontos e dispostos a encarar o mundo como ele é. Faz bem levar um pouco a fantasia dos tempos de garoto, é verdade, mas a realidade chegou, e pra valer. Que eu faça bom proveito a partir de hoje e você, que não chegou ainda nos 18, que se prepare pra aproveitar, da melhor maneira, essa que é mais do que a simples maioridade. É a “melhoridade”. Como é bom fazer 18 anos!