sexta-feira, 23 de abril de 2010

Muito além do Monte Pascoal

22 de abril de 1500. Um maluco português veio com a cara, a coragem e 13 barcos, atravessaram um oceano sem saber (?) e, pimba, avistaram um Monte. Monte de gente nua, monte de bichos estranhos e árvores monumentais, monte de surpresas. Não é de hoje que o Brasil surpreende.


Quando Cabral chegou com sua comitiva, descobrindo (?) essa terra tupiniquim, povoada por pessoas coradas e desnudas, andando livremente por entre cobras e macacos, mal ele sabia onde chegaríamos. Talvez nem nós mesmos. Nesses séculos, experimentamos diversas vidas. Colônia, a culpa, para muitos, da nossa eterna dependência e que nos deixou por muito tempo reduzidos a simples fornecedores de riquezas aos portugas. Mas já fomos um império, ó pá! Bem melhor pra sobrevivência do nosso patriotismo acreditar que o império foi mais do que uma hospedagem de luxo aos Reais de além-mar. Até que nos tornamos independentes. Será mesmo? Tudo bem, por mais que hoje o Brasil viva o que pode ser o seu melhor momento internacional, é ingenuidade demais pensar que aquele 7 de setembro representou algo mais do que uma encenação histórica que resultou em belo quadro.

Viva a República! Civis, militares, civis, enfim. Passamos por bons e maus bocados nos últimos tempos. Sofremos com censuras e AI’s prendendo nossos pés, nossos braços, nossas vozes. Vozes que até chutaram um presidente pela porta da frente do Planalto. Sim, nossos jovens fizeram sua parte na história, por mais que hoje as coisas sejam bem mais diferentes. Falando nos jovens, os nossos tem um futuro privilegiado pela frente – ao menos aqueles que sobrevivem aos vícios do século 21, a violência e a eles mesmos. Daqui a pouco estaremos sediando uma Copa do Mundo, vejam só. Depois, Olimpíadas. Parece que o país do futuro de JK começa a virar o país do presente, 50 anos depois. Parece. Estamos no top 10 da economia global, somos a grande estrela pop dos anos 2000, o patinho feio de ontem que virou um belo e vistoso cisne, porém... Para aqueles que se acham no direito de voar num céu nunca dantes tão azul como o brasileiro, cuidado. A queda ainda pode ser feia.

Há 10 anos passamos por uma crise sem precedentes, nossa moeda virou mero papel, e eu nem falei do crash de dois anos atrás – dessa o Brasil aparentemente saiu com escoriações e nada mais. Ainda somos um país que não reconhece o devido valor dos seus. Nossos índios não são respeitados como devem, estão cada vez mais sem espaço, perdendo pro capitalismo e pro preconceito dos tempos modernos. Os negros precisam de cotas pra entrar nas universidades públicas, ditas “pra todos”. Um país que não sabe lidar com a educação. Nem com a saúde, com o trânsito, sistema penal, etc e tal. Meu desejo é que, percebendo tudo isso, eu não tenha que olhar pra esse início de século daqui a uns 50 anos e chamá-lo de “mais um milagre econômico”. Não é desse tipo de milagre que nós precisamos. O fim da corrupção nos corredores da política, por exemplo, é mais urgente. E mais inatingível.

Cabral não imaginaria tudo isso, entretanto ele não viveu o suficiente pra conhecer o que de lindo o Brasil que ele “achou” tinha de fato, aquilo que ia além do Monte Pascoal. Somos um poço bem fundo de culturaS. No plural. Aliás, esse é o adjetivo mais correto ao se falar de Brasil. O que seriamos se não fossemos plurais? Juntando o nosso carimbó com o forró das bandas do sertão, mais o rock brasiliense, o pop do sudeste e o sertanejo, com axé a gosto, dá pra fazer uma boa festa. Uma só não, várias festas. Festa da Uva, de Aparecida, o Círio de Nazaré, além das Juninas e Natalinas. Isso sem falar do carnaval, ou melhor, dos carnavais. Terra onde se com muito bem, obrigado. Banquetes de alegria e perseverança. Ser brasileiro é não desistir nunca. A garra de um povo que luta, acorda cedo e dorme tarde, enfrenta viagens diárias – e cansativas – de casa pro trabalho, aqueles que lutam pelo direito da educação, acreditando que ela pode ser não o único, porém o mais digno e recompensador caminho para o sucesso. Essa país é feito por gente que rala. Ainda existem pessoas honestas, integras, direitas nesse país, por mais que soe como surpresa, como uma luz no fim de um túnel que pode escurecer mais, mas nunca se fecha. Essa é a luz que guia esse povo de bem. Se há quem arranhe a nossa imagem, há mais gente ainda disposta a limpá-la.

A nossa Terra de Santa Cruz é muito mais do que imaginavam aqueles desbravadores portugueses. Não somos explorados como antes e somos reconhecidos como nunca. Nação perfeita? Quanta utopia. Prefiro acreditar que as adversidades existem pra serem corrigidas, sanadas. E é isso que nós, brasileiros de bem, fazemos muito. Até porque o Brasil não combina com moleza, nunca combinou. Crescemos pelo nosso trabalho, pela nossa vontade de mostrar pro mundo que crescemos, que chegamos, que somos capazes. E ai de quem duvidar. E, se a humanidade deixar, que venham mais 5 séculos, a gente encara.

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