quinta-feira, 1 de abril de 2010

Efeito Pinóquio

Primeiro de abril. Ô dia! Até você ler esse post tanta coisa já “aconteceu” hoje, né? A passagem do ônibus caiu pela metade, o Vasco foi campeão, sua roupa está suja, a Hebe morreu, o Faustão morreu, a Xuxa morreu. Meio mundo morreu. Se você não gosta de ser tapeado, amigo, nem saia do quarto. Do quarto, pois até mesmo em casa você pode ser alvo das inevitáveis. É normal, quem nunca caiu nas armadilhas prontas do Dia da Mentira?


Hoje pode ser um dos dias mais divertidos do ano, pra quem tem o dom divino de mentir por esporte. Quem não tem, sofre muito. Ao acordar, temos que nos despir totalmente de inocência e incorporar um Serginho Mallandro, antes que algum incorporado lhe faça de vítima. E se depois de ler todo isso você estiver pensando em se isolar das pessoas e ficar o dia inteiro em frente ao computador pra escapar das peças pregadas, eu sinceramente não aconselho. Na verdade já passei por vários sustos on-line. Lembram do Youtube no ano passado? E o pior é que as mentiras da internet parecem menos mentirosas, e nós, por tabela, parecemos mais enganáveis.



Se não podemos confiar na internet, imagina nas pessoas? Confesso que esse post é, de certa forma, um escudo contra qualquer gracinha, como as do ano passado que me traumatizaram, mas isso não vem o caso... Mas muitos escudos se tornam inúteis quando uma amiga sua chega chorando e dizendo que perdeu uma tia querida ou um ídolo pop. Quantas vezes você já ouviu o boato sobre a morte de alguém bem famoso? Mas alguns boatos podem ser quase infartantes. Imagino alguém, nos anos 70, correndo desesperadamente, aos berros, perguntando se as pessoas já sabem que os soviéticos autorizaram o lançamento de mísseis contra os Estados Unidos.

E quem pensa que o Dia da Mentira é apenas uma grande palhaçada corre o risco de estar enganado. Os militares golpistas de 64 não aceitariam que esse evento tão importante pra eles chegasse ao povo como mais uma grande chacota, e mesmo sendo efetivado na madrugada do dia 1º, a história registra o dia 31 de março como o pontapé inicial da fase mais negra da nossa história. Antes fosse só mais uma chacota. E as mentiras que esperamos tanto que sejam verdade que acreditamos nisso? “Universidades públicas dão vagas pra todos”, “Belém vai receber a Copa do Mundo”, “Pílula da Honestidade reduz drasticamente a corrupção no Brasil”. Antes fossem verdade.

Mas daqui a pouco o Primeiro de Abril vira Dois, acaba. Mas não pra todo mundo. Alguns tomam pra suas vidas o espírito de Pinóquio de hoje, e eu não falo dos atores, que fazem isso por profissão. Falo dos excelentíssimos, que fazem isso na profissão, o que é diferente. Mas eu não quero ficar enfadonho falando da nossa corrupção, que já virou rotina. A corrupção em si e o ato de falar mal dela viraram rotina. Mas não posso vir aqui com um discurso hipocritamente moralista contra o maléfico ato da mentira. Quem nunca mentiu? Quem nunca precisou mentir? O mundo nos obriga a isso. Não precisamos generalizar, é claro. Então, se você não devolveu o troco do lanche do seu amigo, não precisa se martirizar, você não é necessariamente desonesto. Aliás, penso que a desonestidade é conseqüência da compulsão pelo fingimento. Basta não fazer como o Úmero, que viveu uma mentira e até morreu uma mentira. Mas se o dia ainda não acabou, corra! Aproveite e minta, sem compromisso. Hoje pode.

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