sábado, 27 de março de 2010

O homem que cospe fogo

Lembro como se fosse ontem. Aquele domingo foi especial, tinha 6 anos e um sonho: conhecer o circo. Eu me lembro claramente de ter visto na tv um programa sobre o circo, e todo aquele universo me fascinou, como toda criança merece ser fascinada. Aquelas luzes, aqueles homens engraçados de caras pintadas que conseguiam fazer algo de beleza ímpar, como arrancar os mais sinceros sorrisos, que são os de uma criança. Ficava absurdamente espantado com aquelas pessoas voando, voando... mas não caindo. Porém, o que mais me chamou atenção foram uns caras que cuspiam fogo. Fogo. Curiosidade infantil, foi inevitável. Essa foi a deixa pros meus pais me levarem ao circo pela primeira vez.
Por sorte havia um circo na cidade, um circo famoso, desses conhecidos no país inteiro. Ali haveria de ter o homem que cospe fogo. No caminho, abelhudo como só eu, perguntava insistentemente ao meu pai:

- Como o homem consegue cuspir fogo, pai?

- Ah, filho, eles nasceram sabendo, respondeu dirigindo, dando pouca atenção.

Na minha mente de recém saído das fraldas, pensei um pouco e, meio triste por não ter o mesmo dom, confesso, pensei logo naquilo como um super-poder. A vontade de chegar aumentava, enquanto o circo se aproximava.

E abriram-se as cortinas, o espetáculo começou. Aquilo tudo era mágico, era como estar na Terra do Nunca ou algo assim. As cores pareciam mais coloridas do que pela televisão, a música soava melhor, os palhaços eram mais engraçados. Aquelas trapalhadas, quanto riso, quanta alegria!

Homens ou pássaros? Aquele balé nos ares, perfeição celestial, beleza especial. Voavam dançando, dançavam voando, era realmente impressionante. Mas nem tudo isso nem a grandeza dos leões e dos elefantes tiravam o meu foco dos cuspidores de fogo. Nem eu sabia o por que, nem me importava em saber. Só queria mesmo ver aqueles super-heróis que domavam o que pra mim era indomável. Enfim, eles apareceram.

Meus olhos pareciam não acreditar ainda no que viam. Embaçados, meio embargados, mas suficientemente claros pra me permitir guardar lindas lembranças daquele sonho realizado. Não lembro se aquele era o último número do espetáculo, se não era, não consegui ver nada depois. Saí paralisado, vidrado, extasiado. No caminho de volta pra casa, porém, algo me chamou a atenção, me trouxe de volta ao mundo real.

Quando o carro parou, em um sinal qualquer da cidade, vi dois meninos, crianças, pararem na frente do carro. Uma delas jogava bolinhas para o ar, sem deixar nenhuma cair – ainda não tinha uma noção decente sobre malabarismo. Já o outro... cuspia fogo. Colei meu rosto na janela ao lado da minha mãe, que se assustou. Era um super-herói fora do circo. Nossa! Mas de repente, ele parou e veio em direção ao nosso carro. Aí notei algo curioso. O menino se vestia mal, estava sujo e sofria, cansado, dava pra ver no seu olhar. Ele bateu na janela do meu pai e estendeu a mão, assim como o outro garoto, em outro carro. Mas meu pai não deu atenção. Eu dei.

O sinal abriu, o carro seguiu, e eu via os meninos, em especial o menino que cuspia fogo, se distanciando. Perguntei ao meu pai:

- Pai, ele cospe fogo, ele trabalha no circo?

- Não, meu filho.

- E por quê ele não ta no circo, pai?

- Porque nem todos tem essa sorte, querido, interferiu a minha mãe.

Naquela hora eu não entendi o que minha mãe quis dizer com “essa sorte”, apenas fiquei pensando naquele garoto, vestido tão diferente daqueles homens do circo. Sem brilho, sem maquiagem, sem máscaras.

Alguns anos e certa experiência depois, começava a assimilar as idéias. Já tinha 18 anos, namorava, era universitário, e resolvi sair. Era sábado, e havia um circo na cidade. Ali era uma oportunidade de voltar ao mundo circense depois de muitos anos. Porém, o espetáculo não me parecia tão espetaculoso. Os palhaços não eram mais tão engraçados, os leões não eram mais tão grandes. Era inevitável, o brilho dos meus olhos não chegavam perto daquele de 12 anos atrás. Até que um número me levou de volta à infância. Os cuspidores de fogo.

Poucas coisas me inebriaram tanto quanto aqueles homens. Minha idade não me permitia mais acreditar em um super-poder, mas ali a minha idade não era 18. Era 6. Foi tão mágico quanto da primeira vez. Voltei impressionado, até mais que meu sobrinho de 7 anos que foi ao circo comigo. Voltando pra casa, a história se repetiu. Dessa vez era um só rapaz, devia ter uns 13, que parou em frente ao meu carro, cuspindo fogo. Tudo parou. Ali eu era o meu pai, e me vi no meu sobrinho. O garoto foi chegando... e bateu na minha janela. O quê eu iria fazer? Meu sobrinho perguntou:

- Tio, por quê ele ta batendo na sua janela? O que ele quer?

Não consegui responder. Mas pensei. Ele quer só dinheiro? Não, ele quer mais. Ele quer um almoço, um jantar, uma roupa limpa. Ele quer um futuro. Direito dele, dever nosso, é só uma criança, não merecia estar ali. Baixei o vidro do carro e dei algumas moedas, nem contei quantas. Era pouco. Depois que o sinal abriu, parti com o carro, quando olhei pelo retrovisor nos olhos do meu sobrinho. Outra criança. Espantado, meio triste, ele indagou, não pra mim diretamente, mas pra ele mesmo, que não tinha condições de responder:

- Por quê ele não ta no circo?

Sussurrei pra mim mesmo:

- Nem todos tem essa sorte.

Hoje eu consigo entender o por quê. Mas preferia não entender.


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